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Crítica | Breaking Bad – 2ª Temporada

por Ritter Fan
1110 views (a partir de agosto de 2020)

  • spoilers. Leia, aqui, as críticas de todo nosso material do Universo Breaking Bad.

Mesmo com os problemas trazidos pela greve dos roteiristas de Hollywood que acabaram levando ao encurtamento da 1ª temporada, Vince Gilligan fez, lá, um trabalho memorável de preparação de terreno. E, exatamente um dia antes de completar um ano da exibição do último episódio da temporada inaugural, Breaking Bad voltava à televisão para seu primeiro ano efetivamente completo, com todos os treze capítulos inicialmente planejados.

Usando um enigmático – e, quando completado, absolutamente incrível – artifício de enquadramento da temporada com um trágico evento futuro que tem o condão de deixar muito claro que toda ação tem consequência e, pior, que toda a violência tem consequências violentas, a 2ª temporada da série desenvolve seus personagens com muita cadência e lógica ao mesmo tempo em que introduz todos os demais grandes jogadores que permitirão o completo desabrochar da obra: o Hector Salamanca de Mark Margolis, a Jane Margolis de Krysten Ritter, o Saul Goodman de Bob Odenkirk, o Gustavo Fring de Giancarlo Esposito e, finalmente, o Mike Ehrmantraut de Jonathan Banks, com apenas Jane sendo instrumento narrativo restrito a essa temporada em específico, ainda que as consequências de sua existência reverberem drasticamente até o final de tudo. E o melhor é que todas essas peças móveis, que Gilligan realmente não tem pressa de introduzir e desenvolver, entram na narrativa macro de maneira lógica, sem que os magníficos roteiros precisem fazer muito malabarismo para introduzi-las.

Começando exatamente do ponto em a temporada inaugural parou, descobrimos que o espancamento de N0-Doze por Tuco levou à morte de seu capanga, somente para a amplificação do horror de Walt e Jesse que, ato contínuo, passam a temer por suas vidas. Esse é o gatilho para o encadeamento de eventos que culmina com o doloroso assassinato – sim, assassinato – de Jane, explicando as misteriosas sequências quase que totalmente em preto e branco que iniciam a temporada e que são salpicadas ao longo dela e que envolvem um urso de pelúcia rosa todo chamuscado e sem um olho, além de corpos em frente à casa da família White.

A conexão de eventos é belíssima e muito bem planejada, começando pelo plano de Walt de matar Tuco com veneno, algo que já coloca o protagonista em outro patamar completamente, deixando de vez de ser apenas um professor de química com câncer fazendo de tudo para deixar dinheiro para sua família para ser algo mais, ainda a essa altura não completamente definido, mas vislumbrado pelo uso de sua persona de Heisenberg e pela maneira estupenda quando a câmera enquadra o rosto dele em situações extremas, revelando um misto de raiva incubada com um prazer vilanesco que assusta qualquer um (Bryan Cranston está tão incrível que elogiar é chover no molhado), especialmente Jesse. O arco de Tuco acaba tendo um encerramento apoteótico que envolve a campainha de Hector Salamanca (um personagem sem voz, que mal se mexe, mas que é mais intenso e perfeito que muito vilão por aí), a chegada providencial de Hank procurando Walt e um tiroteio um tantinho conveniente demais em que o agente da DEA sai sem ferimentos físicos, ainda que com profundas cicatrizes psicológicas.

No lado pessoal, o sumiço de Walt catalisa a desconfiança de que há algo errado por parte de Skyler, algo maior do que apenas um eventual romance extraconjugal por parte do marido e que a leva a voltar a trabalhar e a manter-se distante do seio familiar por um bom tempo na temporada, demonstrando que Gilligan não está disposto a simplesmente manter a personagem como uma coadjuvante padrão. O arco narrativo de Skyler, aqui, é, por falta de elogios mais preciso, fora do comum e realmente significativo para a história como um todo, ainda que, como o acidente de avião que não sabemos que é acidente no começo, só percebamos a real dimensão de tudo quando a temporada chega a seu final (Anna Gunn não deixa absolutamente nada a dever a seus pares masculinos). O mesmo vale para um elemento componente desse arco, que é a cleptomania de sua irmã Marie, e que chega a um encerramento técnico aqui e que muita gente acha que foi uma ponta narrativa esquecida. Não foi. Os dividendos desse mini-arco não são gigantes e não alteram o status quo e nem são pagos na 2ª temporada, mas eles existem e estão bem inseridos na série para quem parar para pensar neles (eu os abordarei no momento adequado em crítica futura, assim como a “vilanização” generalizada de Skyler, outra falta de compreensão sobre o que representa a personagem).

Jesse é a grande vítima da temporada, com uma atuação soberba de Aaron Paul que jamais imaginaria que o ator seria capaz. Não só ele passa praticamente o tempo todo sendo escorraçado por um Walter cada vez mais inclemente, como seu “romance de fuga” com Jane e que o leva à drogas mais pesadas ainda, acaba em tragédia causada de caso pensado por seu parceiro. Jane é uma daquelas personagens que existem para cumprir uma função específica e, ainda que eu provavelmente preferisse que ela fosse introduzida ainda mais cedo na temporada para que o romance entre os dois pudesse gerar mais frutos e tornar-se mais enraizado na narrativa para quando o terrível clímax chegasse, não tenho como efetivamente reclamar da forma como tudo foi conduzido. Ela é a personagem trágica por excelência, a ovelha de sacrifício, por assim dizer e que tem como objetivo não exatamente mostrar como Jesse é frágil (ou sensível) psicologicamente, mas sim funcionar como um chaga inconciliável entre os protagonistas. Ela é, talvez mais claramente, a semente da destruição que começa a ser germinada aqui.

Em termos do elenco de suporte, talvez o mais importante seja Saul Goodman e não porque ele, depois, ganharia sua própria (e magnífica) série spin-off prelúdio, mas sim porque ele é o personagem de bastidor que é um excelente artifício narrativo para tornar possível o “negócio” de Walt e Jesse. Sem a malemolência de Goodman, a série teria que permanecer lidando com uma estrutura de tráfico pequena, pouco ambiciosa ou que passasse a exigir de maneira exagerada de nossa suspensão da descrença, já que é óbvio que nem Walt, nem Jesse tem capacidade de ser chefões do tráfico. Portanto, o advogado facilitador que “conhece alguém que conhece alguém que conhece alguém” para absolutamente tudo de mais sombrio – de lavar dinheiro, passando pela criação de “fantasmas eletrônicos” e chegando até à ações típicas de Mr. Wolf, de Pulp Fiction – é também o facilitador da história sendo contada e que torna possível os passos lógicos seguintes, como o aumento da fortuna ilegal da dupla e, claro, os primeiros e hesitantes contatos com Gus Fring, o cuidadoso dono da cadeia de lojas Los Pollos Hermanos que é um dos braços do cartel de drogas no Novo México.

Gilligan mostra o completo domínio de sua arte na 2ª temporada de Breaking Bad, não deixando nada para o azar e jamais trabalhando linhas narrativas que não geram frutos. O próprio formato escolhido para a apresentação da temporada, com o acidente de avião tendo conexão de “seis graus de Kevin Bacon” (na verdade, bem menos que seis graus) com Walter White e seu inexorável mergulho ao inferno, é prova do que ele quer entregar aos espectadores, ou seja, um assustador mecanismo de retroalimentação do mal que se esconde à margem da vida pública que cada um de nós tem. E o showrunner mais do que consegue alcançar seu intento, ainda que ele muito claramente só esteja começando.

Breaking Bad – 2ª Temporada (EUA, de 08 de março a 31 de maio de 2009)
Criação e showrunner: Vince Gilligan
Direção: Bryan Cranston, Charles Haid, Terry McDonough, John Dahl, Johan Renck, Peter Medak, Felix Alcala, Michelle MacLaren, Phil Abraham, Adam Bernstein, Colin Bucksey
Roteiro: J. Roberts, George Mastras, Peter Gould, Sam Catlin, Moira Walley-Beckett, Vince Gilligan, John Shiban
Elenco: Bryan Cranston, Anna Gunn, Aaron Paul, Dean Norris, Betsy Brandt, RJ Mitte, Steven Michael Quezada, Krysten Ritter, Charles Baker, Christopher Cousins, Matt L. Jones, Bob Odenkirk, John de Lancie, Tom Kiesche, Rodney Rush, Michael Shamus Wiles, Raymond Cruz, Giancarlo Esposito, Tess Harper, Mark Margolis, Sam McMurray, Carmen Serano, Jonathan Banks, Jeremiah Bitsui, Nigel Gibbs, Jessica Hecht, Danny Trejo
Duração: 611 min. (13 episódios)

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32 comentários

IGOR RAFAEL SILVA DE SOUZA 9 de dezembro de 2020 - 14:08

Essa 2º temporada é impecável, ou melhor, quase impecável se não fosse pela história meio se pé nem cabeça da história da queda do avião. As 2 primeiras temporadas são muito bem construídas mesmo, mas não consigo enxergar um bom motivo para ele incluir esse fato no arco narrativo da série, não contribui em nada. Tirando isso a temporada tá de parabéns mesmo.

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planocritico 9 de dezembro de 2020 - 21:21

Não é sem pé nem cabeça. Longe disso. O enquadramento com a história da queda do avião representa as consequências que toda escolha tem. WW deixou Jane morrer, o avião caiu. Poético e aterrador. Simboliza toda a jornada dele.

Abs,
Ritter.

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Alisson Fuly da Silva 6 de abril de 2020 - 16:47

Ao meu ver o primeiro episódio dessa segunda temporada já tem uma grande diferença em termos de qualidade do que os da primeira (que já eram bons) é a partir daqui que a coisa realmente fica séria.

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planocritico 6 de abril de 2020 - 17:02

Sim, em resumo é bem por aí mesmo. Mas é um processo natural. “Primeiras temporadas” são mais cruas e, digamos, cuidadosas, quase receosas. Uma vez obtido sucesso, aí as porteiras são abertas de vez.

Abs,
Ritter.

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Vinicius Maestá 5 de abril de 2020 - 23:52

Galera, quando sai as outras listas de favoritos, principalmente a de Filmes Favoritos?

Responder
planocritico 6 de abril de 2020 - 01:12

Essas listas são de responsabilidade do PREGUIÇOSO, LERDO, OCIOSO, INDOLENTE e FOLGADO do Luiz Santiago! Vou dar umas chicotadas nele lá e já volto…

Abs,
Ritter.

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Luiz Santiago 🌮😈🐂½ 6 de abril de 2020 - 01:22

AH, NÃO VOU SUPORTAR ESSAS CALÚNIAS AQUI NÃO!!! ESTOU FAZENDO UMA RECLAMAÇÃO FORMAL À DONA RITA!!!

@vinicius_maest:disqus segura a marimba aí que logo logo eu volto a fazer essas listas, viu! Vou fazer uma chamada geral essa semana aqui no Asilo Arkham!

https://uploads.disquscdn.com/images/ba897542c64ee58c3b08052d953aefc5b474ef5d397d0d7c39ee60ddbcb73685.jpg

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Luiz Santiago 🌮😈🐂½ 6 de abril de 2020 - 01:22

AH, NÃO VOU SUPORTAR ESSAS CALÚNIAS AQUI NÃO!!! ESTOU FAZENDO UMA RECLAMAÇÃO FORMAL À DONA RITA!!!

@vinicius_maest:disqus segura a marimba aí que logo logo eu volto a fazer essas listas, viu! Vou fazer uma chamada geral essa semana aqui no Asilo Arkham!

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Vinicius Maestá 6 de abril de 2020 - 02:48

Pô, acho bom. Caso contrário terei que estar numa posição complicada de ter que sabotar esse site. Que essas listas cheguem logo, senão a quarentena de vocês vai durar para sempre.

Abraços carinhosos!

Responder
Maurilei Teodoro 5 de abril de 2020 - 23:52

É minha série preferida, tanto que estou vendo pela quarta vez. As minhas temporadas preferidas são a terceira e quarta.

Responder
planocritico 6 de abril de 2020 - 01:12

Quarta vez??????????????? Caramba. Eu nunca vi série nenhuma – mesmo as que mais gosto – mais do que duas vezes e mesmo assim conto nos dedos as que fiz isso!

Abs,
Ritter.

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JC 5 de abril de 2020 - 18:34

Já tem um tempo que re-assisti, eu comprei o seriado completo, mas parei em algum episódio dessa temporada. O que o avião liga a Walt? Da primeira vez que vi eu passei batido.

Responder
planocritico 5 de abril de 2020 - 18:46

Ele mata a Jane (ou deixa ela morrer em uma interpretação mais branda e que considero errada) cujo pai é controlador de voo que tem um piripaque no trabalho em razão da morte dela e acaba fazendo com que dois aviões se choquem, com pedaços e corpos espalhando-se coincidentemente por sobre a região onde mora WW. Destino, karma e toda a ação leva a uma reação embrulhados em um artifício narrativo só.

Abs,
Ritter.

Responder
JC 6 de abril de 2020 - 13:24

Vontade da zorra de voltar a assistir BD. Meu objetivo era ver tudo na sequência, sem muitos intervalos pra catar as coisas melhor.
Consegui chegar na metade da segunda assim.

Agora o objetivo é outro, assistir todo Better Call Saul e emendar com Breaking, ou seja, tenho uma longa janela ali! ahhahah

Responder
planocritico 6 de abril de 2020 - 13:32

É uma ideia bacana mesmo! Só não faço isso porque meus LEITORES NÃO DEIXAM!!!!!!!!!!!! AHAHHAHAHAHAHAHAAHHA

Abs,
Ritter.

Responder
Elton Miranda 5 de abril de 2020 - 13:03

Ritller aproveitando a quarentena para sair do atraso

Responder
planocritico 5 de abril de 2020 - 15:02

Cumprindo uma promessa que fiz não sei quantos anos atrás a não sei quantos leitores…

Abs,
Ritter.

Responder
JC 5 de abril de 2020 - 18:34

Quero ver Halt and Catch Fire – 4 ª temporada hein? ahahahahah

Responder
planocritico 5 de abril de 2020 - 18:34

SOCORRO!!!

Se pelo menos parassem de lançar séries novas enquanto eu corro atrás das “velhas”… Mas ninguém tem consideração comigo!!!

Abs,
Ritter.

Responder
JC 6 de abril de 2020 - 13:24

EHHEEH, como não sou crítico de séries de site xuxu-beleza-de-bom, não tenho essa preocupação de estar na crista da onda ahahahaha

Mas se o senhor já começou Halt, é obrigação terminar.
E tenho dito!!!!!!!!!!!!!!

planocritico 6 de abril de 2020 - 13:32

Eu sei… E olha que HCF é espetacular!!!

Abs,
Ritter.

Jadiel 5 de abril de 2020 - 08:17

Um episódio que me marcou bastante quando assisti essa temporada pela primeira vez foi aquele que o Jesse vai na casa dos drogados pra pegar o dinheiro de volta e acaba encontrando só uma criança. Foi nesse episódio que passei a encarar o Jesse de outra maneira. E a cena em que a cabeça do cara é esmagada foi uma das que mais me marcaram em toda a série, principalmente porque não esperava de jeito nenhum que aconteceria algo do tipo. Além disso, a cena final do Jesse levando o garoto pra fora da casa e pedindo pra ele não entrar em hipótese alguma é de cortar o coração. Acho esse episódio maravilhoso, assim como a temporada e a crítica.

Responder
planocritico 5 de abril de 2020 - 15:07

Esse é o episódio que define Jesse. Muito bom. E é de cortar mesmo o coração, especialmente ao imaginar que existem milhares (milhões?) de crianças vivendo em condições semelhantes…

Abs,
Ritter.

Responder
Rafa El 5 de abril de 2020 - 01:35

Boa análise. Apenas alguns anos em atraso. Kkk

Responder
planocritico 5 de abril de 2020 - 01:35

Está no lucro. Há dois dias eu publiquei a crítica de um filme com 66 anos “de atraso”…

Abs,
Ritter.

Responder
Diretor visionário 5 de abril de 2020 - 12:18

Por falar nisso, será que vocês poderiam fazer a crítica de Das Boot (a versão uncut)? Assisti um dia desses, gostei bastante e vim ver se tinha crítica aqui, mas, infelizmente, não tinha.

Responder
planocritico 5 de abril de 2020 - 15:07

Você diz a de 308 minutos que foi lançada no formato de minissérie pela BBC?

Eu só vi a versão do diretor de 208 e gostei muito, mas é um esforço hercúleo…

Abs,
Ritter.

Responder
Diretor visionário 5 de abril de 2020 - 17:06

Sim, essa versão mesmo.

planocritico 5 de abril de 2020 - 17:06

Ela está em minha lista há anos. Não tive coragem ainda de pegar para ver… Mas está no radar!

Abs,
Ritter.

Antonio Bastos 4 de abril de 2020 - 20:03

Que presente essa crítica em plena quarentena!
Gosto muito de Breaking Bad e a segunda temporada é realmente muito boa.
A cena da morte da Jane até hoje é uma das que mais me marcaram. Gostava muito da personagem, mas entendo bem seu propósito na série.
Gosto muito tbm do episódio em que eles passam um final de semana cozinhando no deserto. É excelente!
Abraço!

Responder
planocritico 5 de abril de 2020 - 01:07

Que bom que gostou!

Concordo. A cena da morte de Jane é angustiante, desesperadora e marca o ponto sem volta de WW.

E o episódio dos dois no deserto sem poder voltar porque o Jesse deixou a chave na ignição e a bateria morreu é excelente mesmo. Mostra o quão duro e insensível WW pode ser (antes do que ele faz com Jane, claro…).

Abs,
Ritter.

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