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Crítica | Breaking Bad – 3ª Temporada

por Ritter Fan
90 views (a partir de agosto de 2020)

  • Há spoilers. Leia, aqui, as críticas de todo nosso material do Universo Breaking Bad.

É impressionante notar a estrada sombria que Breaking Bad segue sem perder o passo. A ótima primeira temporada esboça um fascinante começo de universo, mas sem deixar entrever completamente sua magnitude, algo que só fica mais evidente na sensacional segunda temporada que tem como principais funções colocar todas as peças no tabuleiro e armar um jogo que, porém, permanece razoavelmente encoberto, preparando surpresas e entregando um final de cortar o coração, com o assassinato de Jane Margolis por Walter White que catalisa o acidente aéreo que é usado como artifício de enquadramento narrativo e para mostrar o efeito dominó das escolhas tomadas ao longo da série.

A terceira temporada vem, portanto, para agressivamente movimentar as peças no cada vez mais complexo tabuleiro, tornando Walter White alvo, ao mesmo tempo, da fúria dos Salamancas, com os silenciosos assassinos gêmeos Marco e Leonel (Luis e Daniel Moncada) sendo introduzidos na série e da estratégia de Gus Fring para dominar a fabricação de metanfetamina com um convite para que o professor de química cozinhe para ele em um laboratório subterrâneo ultramoderno. Em paralelo, Jesse, depois de se recuperar de seu vício, decide voltar a cozinhar sozinho, à revelia de Walt, o que atrai a atenção de Hank e Skyler, desconfiada de seu marido, o coloca contra a parede e, finalmente, descobre a verdade sobre seu “empreendimento” secreto.

E olha que a tentativa de sinopse logo acima nem de longe cobre a longa cadeia de acontecimentos da temporada, mas isso não interessa, na verdade. O que é realmente impressionante constatar é como Vince Gilligan comanda tudo como o regente virtuoso de uma orquestra de roteiristas e diretores iluminados que fazem tudo funcionar com perfeita sincronia e encadeamento de notas. Não há nada realmente fora do lugar e nada que pudesse ser contado de maneira tão eficiente de outra forma. Do brilhante retcon que dá ao espectador outra visão sobre a compra do trailer, algo que parece trivial, mas que é de extrema importância para a temporada, passando pelos altos e baixos do relacionamento de Walter e Jesse e a relação de dependência entre Gustavo Fring e Walter e chegando à toda a narrativa paralela de Skyler (aliás, Anna Gunn de novo merece aplausos) tendo um caso com seu chefe como uma forma de vingança contra o marido, tudo, absolutamente tudo só existe porque há uma função por trás.

Até em retrospecto isso é verdade. Se muitos reclamam que a cleptomania de Marie desaparece magicamente, é porque talvez não percebam que essa característica da personagem não está ali para ter um fim em si mesmo. Os dividendos dessa inserção aparentemente estranha nos roteiros das temporadas anteriores tem como objetivo comentar e ironizar a postura de Skyler White primeiro em não tomar medidas contra os crimes fiscais de seu chefe que ela detecta durante seu trabalho. Sim, ela se recusa a assinar a papelada como contadora certificada, mas não faz mais do que isso. Depois, claro, Skyler torna-se cúmplice do marido ao aceitar suas atividades criminosas e a ativamente ajudá-lo na lavagem de dinheiro. O raciocínio para isso é pragmático e tem lógica, mas é tão imoral e errado quanto a escolha de Walt de tornar-se fabricante de metanfetamina. Se a superioridade moral de Skyler a impedia sequer de aceitar um distúrbio de Marie, ela agora passa a fazer algo incomparavelmente pior.

A construção de tensão é outro aspecto que merece comenda. O trabalho inicialmente perfeito e suave de Walt no laboratório juntamente com o simpático e falastrão Gale Boetticher (David Costabile) muito rapidamente descarrila de forma que Walt possa salvar sua própria pele salvando Jesse. Novamente, o jogo de causa e consequência é impressionantemente bem estabelecido, notadamente a maneira como o orgulho de Walt é ferido por um Jesse que se atreve a cozinhar Blue Sky sem ele e, depois, afagado quando Gus demonstra que precisa de seu gênio, oferecendo-lhe milhões e um laboratório altamente tecnológico. Se Bryan Cranston já havia mostrado sua capacidade dramática que foi capaz, de maneira crível, de transformar um pacato professor de química com câncer que entra no mercado de metanfetamina para prover para sua família em um verdadeiro vilão detestável, aqui ele termina de brilhar ao fazer com que seu Walter White quase que literalmente salive ao ver seu “mundo criminoso” abrir-se ainda mais.

E talvez nenhum episódio seja melhor para demonstrar essa transformação do que o muitas vezes incompreendido A Mosca (Fly – 3X10). Dirigido pelo autoralíssimo Rian Johnson antes de entrar no cinema mainstream com Looper (e que depois viria a dirigir o reverenciado Ozymandias), o episódio encapsula todo o orgulho, preciosismo, perfeccionismo e, mais precisamente, toda a obsessão maníaca de Walter White querendo evitar a contaminação de sua “obra-prima”. Vemos traços de loucura no protagonista, algo que Jesse demora a acreditar, mas também vemos traços fortes de remorso que quase leva Walter a confessar o crime que cometera contra Jane, algo que Jesse, em sua inocência – porque sim, ele é o inocente ali – nem de longe conseguiria imaginar. Se alguém tinha dúvida sobre a personalidade profundamente perturbada do tão “adorado” Walter White, sua caçada a uma singela mosquinha em seu imenso laboratório está lá para dissipá-la.

É também nessa temporada que fica patente a facilidade com que Walter comete crimes. Não bastasse a racionalização fajuta para a fabricação de drogas – tudo pela família! -, ele não hesita sequer por um segundo em matar dois traficantes de Gus para salvar Jesse. Sim, é verdade que isso demonstra que ele se importa por Jesse, mas é também verdade que matar, para ele, tornou-se parte do “custo do negócio”. Se vemos a tortura psicológica de Jesse a cada ato que ele acaba tendo que cometer, cada vez mais levando-o para próximo da beirada do abismo, o mesmo não acontece com Walt, bastando ver a relativa tranquilidade com que ele pede a cabeça de Gale, oferecendo-se para cometer o assassinato.

O frágil Jesse, que Aaron Paul incorpora com extrema profundidade nessa temporada, por mais que já fosse um drogado antes mesmo de os eventos da série começar, não tinha e continua não tendo o ímpeto de fazer o que for preciso que Walt demonstra e ele, dessa forma, funciona como a bússola moral de toda a narrativa, potencialmente a única da série junto talvez com Hank, se considerarmos que Skyler, aqui, vai para o lado sombrio. E o grau de seu sofrimento indica ao espectador o grau da vilania crescente de Walt, em um balanço antitético muito bem construído.

Mas obsessivo é um adjetivo aplicável não só a Walter White, como também – e talvez principalmente – a Vince Gilligan. Como o maestro dessa sinfonia audiovisual, ele não deixa nada fora do lugar. Sua mania por espelhamentos, simetrias, cores fortes e distribuição de elementos cênicos resulta em uma série que poderia ter a grande maioria de seus fotogramas recortados, ampliados e colocados em uma moldura. É como ver um quadro em movimento no processo de ser pintado, ainda que diretores do quilate do já citado Johnson, mas também Michelle MacLarenAdam Bernstein, consigam imprimir sua própria assinatura, ainda que a impressão de conjunto seja absolutamente monolítica, sem solução de continuidade entre um episódio e outro.

A terceira temporada de Breaking Bad coincidiu com o momento em que a série ganhava tração na televisão e ampliava seu público, atraindo a audiência que realmente merecia e que poucas séries alcançam enquanto ainda estão passando. Muita gente que embarcou a essa altura na criação de Gilligan teve a oportunidade de ver mais um importante ponto de virada na chamada Era de Ouro da Televisão, tudo graças a um vilão que não se consegue verdadeiramente odiar, como, aliás, são os melhores vilões das artes. E olha que ainda teria muito mais para acontecer ao longo da estrada desse épico moderno sobre desespero, obsessão e ganância.

Breaking Bad – 3ª Temporada (EUA, de 21 de março a 13 de junho de 2010)
Criação e showrunner: Vince Gilligan
Direção: Bryan Cranston, Adam Bernstein, Michelle MacLaren, Scott Winant, Johan Renck, John Shiban, Colin Bucksey, Michael Slovis, Rian Johnson, Adam Bernstein, Vince Gilligan
Roteiro: Vince Gilligan, Peter Gould, George Mastras, Sam Catlin, Moira Walley-Beckett, John Shiban, Thomas Schnauz, Gennifer Hutchison
Elenco: Bryan Cranston, Anna Gunn, Aaron Paul, Dean Norris, Betsy Brandt, RJ Mitte, Bob Odenkirk, Giancarlo Esposito, Jonathan Banks, Mark Margolis, Jeremiah Bitsui, Daniel Moncada, Luis Moncada, Steven Michael Quezada, Charles Baker, Christopher Cousins, David Costabile, Michael Shamus Wiles, Jere Burns, Matt L. Jones, Javier Grajeda, Emily Rios, Carmen Serano, John de Lancie, Larry Hankin, Tess Harper, Tom Kiesche, Krysten Ritter, Rodney Rush, Marius Stan, Danny Trejo
Duração: 611 min. (13 episódios)

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