Crítica | Breaking Bad – 4ª Temporada

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Em um determinado momento do último episódio da quarta temporada, Walter White, temendo por sua vida, mas precisando voltar para sua casa, liga para sua vizinha Rebecca, que guarda uma cópia de sua chave, e pede que ela verifique se por acaso o fogão não teria ficado ligado, tudo com o objetivo de descobrir se os capangas de Gus Fring estariam por ali à espreita. Isso é, em resumo, tudo o que é necessário o espectador saber sobre a personalidade perturbada do protagonista que, há muito tendo deixado cair seu manto de chefe de família prestes a morrer que faz de tudo para deixar dinheiro para sua esposa e filho, agora é um homem egoísta, obsessivo, vaidoso e capaz de sacrificar, de caso pensado, quem quer que seja.

Saliento esse aspecto, pois me espanta muito a defesa que vejo fazerem de Walter White, algo que muitas vezes é acompanhado de comentários negativos em relação a Skyler e, por incrível que pareça, a Jesse, este praticamente a única pessoa que realmente sofre psicologicamente com tudo o que é obrigado a fazer e a testemunhar nesse mergulho ao inferno desde que ele concordou em cozinhar metanfentamina com o “Sr. White” na já distante primeira temporada. Não que os dois sejam inocentes, pois não são, mas Vince Gilligan realmente conseguiu o que queria desde o início: transformar o herói em vilão, mas não só um vilão e sim o grande vilão dessa história toda.

É bem natural gostarmos e torcermos por vilões icônicos do audiovisual como Darth Vader, Cersei Lannister e até Hannibal, mas esses e vários outros são vilões inalcançáveis, fabulescos e distantes dos seres humanos comuns. O que diferencia Walter White dos demais – e é aí que a criação de Gilligan chega a ser até maquiavélica – é que o ex-professor de química realmente poderia ser um vizinho nosso que nos ligaria para pedir um favor como o que descrevi acima. Walter White é tão real quanto possível e essa proximidade é incômoda e dolorosa, pois, de certa forma, o que o showrunner faz é a seguinte pergunta: será que nós passaríamos por transformação semelhante dadas condições parecidas? A resposta não é tão fácil quanto parece. Ah, e só para terminar, sim, meus caros, Skyler e Jesse – que, repito, também não são anjos – são vítimas das circunstâncias criadas, potencializadas e manobradas por Walter White.

E essa quarta e penúltima temporada mostra isso muito claramente na revelação do plano sinistro do protagonista para matar Gus Fring não só para defender Jesse, mas primordialmente para se safar, para livrar-se da ameaça que o chefão das drogas tornou-se para ele. Qualquer plano que passe pelo envenenamento de uma criança inocente precisa ser classificado imediatamente de doentio, covarde, abjeto e absolutamente inaceitável sob qualquer ponto de vista. Walter White consegue, com isso, graduar-se daquele vilão que adoramos amar para o vilão que passamos a temer acima de qualquer outro, muito mais do que Gus, esse sim um vilão da primeira categoria, muito mais próximo de um Darth Vader do que de um Walter White.

Mas eu sei que comecei pelo final, mas não tinha como. Essa temporada é um espetacular exemplo de progressão de queima-lenta que vai em um crescendo vagaroso, mas constante a cada episódio abrindo lentamente a válvula da tensão que vai se acumulando com os em princípio pequenos acontecimentos que, incrivelmente, quase em sua totalidade partem diretamente do grande cliffhanger da temporada anterior: o assassinato à queima-roupa de Gale Boetticher por Jesse Pinkman. É uma verdadeira sinfonia “roteirística” que Gilligan rege a partir desse ponto de ignição, com encaixes absolutamente perfeitos que levam a outros eventos também dentro de toda a lógica da série, contribuindo para o desenvolvimento – e a involução, claro – de absolutamente todos os personagens.

Uma série de menor calibre resolveria o assassinato de maneira burocrática, logo partindo para outra ação bombástica, fazendo o espectador viver de espasmos e basicamente de jump scares e equivalentes, artifícios dos mais amadores possíveis, mas que tantos cineastas insistem em usar por aí. No entanto, muito ao contrário, o brutal assassinato é fonte direta para o profundo trauma de Jesse que não só retorna para as drogas e para a vida desregrada, como cada vez mais se afasta de Walter White. Além disso, depois que Gus corta o pescoço de Victor como sua própria válvula de escape pela frustração com a morte de Gale, Walter White tem seu nível de paranoia aumentado para o nível 11, passando a desconfiar de tudo e de todos, inclusive Jesse, o que, por tabela, aumenta a paranoia de Skyler para manter sua família “limpa” e “segura”. E, como se isso não bastasse, o assassinato cometido por Jesse ironicamente reativa a investigação de Hank sobre Heisenberg, levando-o diretamente até Gus.

Como tramas macro trazidas por outras pontas narrativas que não diretamente o assassinato de Gale, temos, apenas, a recuperação física e mental lenta de Hank, mas que é ajudada pela citada investigação; a intensificação das retaliações do cartel de Don Eladio às operações de Gus e a investigação da Receita Federal americana em cima de Ted Beneke. O efeito dominó do conjunto, porém, é irretocável, já que todas as pontas se conversam e se cruzam, valendo especial destaque para o magnífico plongée focado em Walter White no subsolo de sua casa no momento em que descobre que o dinheiro que tão desesperadamente precisava para comprar novas identidades para sua família sumir foi entregue por Skyler a Ted para que ele pagasse a multa da Receita e, com isso, evitasse suspeitas para cima dela, como a contadora da empresa. Essa sequência, com direito à risada maníaca de Walter enquanto Skyler atende o telefone de Marie que lhe conta sobre a ameaça à Hank, é tão satisfatória quanto o momento em que encaixamos a última peça no meio de um quebra-cabeças de cinco mil delas que levamos três meses para montar.

E os detalhes narrativos são igualmente importantes. Um deles é até poético. Quando Skyler assume de vez sua postura de “lavadora de dinheiro”, largando sua falsa moralidade por completo sob a desculpa de “proteger essa família do homem que protege essa família”, vemos Marie voltar à cleptomania visitando casas à venda e furtando pequenas lembranças. É como um coral grego comentando e ironizando as atitudes de Skyler como aconteceu anteriormente na série, só que não em momentos temporalmente paralelos como aqui.

Talvez abordar as atuações da série mais uma vez seja chover no molhado, pois o elenco é, todo ele, afinadíssimo, com Bryan Cranston e Aaron Paul isolados nas duas primeiras posições, mas seguidos vigorosamente por Anna Gunn, Giancarlo Esposito, Jonathan Banks, Mark Margolis, Dean Norris e assim por diante. Há uma espécie de harmonia que impressiona nas interações, mesmo considerando que elas são, quase todas, completamente litigiosas e beligerantes. Basta ver, por exemplo, Norris fazer seu personagem mergulhar na depressão e na fixação em sua coleção de pedras… digo, minerais, constantemente brigando com sua esposa e deixando-a desesperançosa, somente para ele sair do outro lado revigorado com as descobertas que faz sobre o super-laboratório de Gus. O personagem de Esposito, por seu turno, ganha imensa profundidade com um passado traumático envolvendo a morte de seu namorado e sócio pelas mãos de Hector Salamanca a mando de Don Eladio, emprestando outra roupagem para sua empreitada no Novo México que desemboca em uma surpreendente vingança que, por sua vez, o leva a seu inesquecível fim na Casa Tranquila (mais uma vez as pontas se juntando suavemente!). E eu poderia falar de cada um deles interminavelmente, mas não quero exagerar da paciência do leitor, até porque nem cheguei a comentar da fotografia esplendorosa da temporada.

Se o ano anterior já havia alcançado a perfeição, esse aqui vai um, talvez dois degraus acima por saber cozinhar pacientemente o espectador, servindo pequenas porções saborosas que se tornam um inestimável e rico banquete ao final. Minha única reclamação é que essa temporada, talvez com a adição de uns dois ou três episódios que, claro, levassem à queda final de Walter White, era a oportunidade absolutamente perfeita para que a história como um todo fosse encerrada. Mas isso fica para a crítica da derradeira temporada…

Breaking Bad – 4ª Temporada (EUA, de 17 de julho a 09 de outubro de 2011)
Criação e showrunner: Vince Gilligan
Direção: Adam Bernstein, Michelle MacLaren, David Slade, Colin Bucksey, Michael Slovis, Peter Gould, Johan Renck, Terry McDonough, Scott Winant, Vince Gilligan
Roteiro: Vince Gilligan, George Mastras, Sam Catlin, Moira Walley-Beckett, Thomas Schnauz, Gennifer Hutchison, Peter Gould
Elenco: Bryan Cranston, Anna Gunn, Aaron Paul, Dean Norris, Betsy Brandt, RJ Mitte, Bob Odenkirk, Giancarlo Esposito, Jonathan Banks, Ray Campbell, Lavell Crawford, Maurice Compte, Steven Michael Quezada, Emily Rios, David Costabile, Christopher Cousins, Nigel Gibbs, Mark Margolis, Marius Stan, Michael Shamus Wiles, Steven Bauer, Bill Burr, Charles Baker, Jim Beaver, Jeremiah Bitsui, Jere Burns, Javier Grajeda, Matt L. Jones
Duração: 613 min. (13 episódios)

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.