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Crítica | Bright: Alma de Samurai

Uma quest no Japão Imperial.

por Kevin Rick
1.408 views (a partir de agosto de 2020)

A Netflix surpreendeu todo mundo quando lançou o trailer de Bright: Alma de Samuraispin-off do mal-recebido filme Bright, de 2017, que estrelava Will Smith e um Orc em uma espécie de buddy cop de fábula urbana com pitadas de crítica social. É um filme completamente insano que funde uma penca de gêneros e formas narrativas, virando uma salada descerebrada que até consegue divertir. O spin-off/prelúdio não se distancia tanto dessa loucura, nos levando para o Japão em 1868, ano japonês marcado pela Restauração Meiji, um evento político que deu fim ao Período Edo e sua sociedade feudal isolada comandada pelo Xogunato, para iniciar uma época imperial que aderiu ao sistema moderno de nação-estado, além de ser influenciado pelo Ocidente na rápida industrialização, abertura do comércio, pluralidade religiosa, entre outras mudanças sociais.

O período de transição histórica japonesa é utilizado no anime para trazer mais comentários sociais que a franquia gosta de abordar – me pergunto se teremos mesmo uma franquia. O uso de diferentes espécies fabulares (orcs, elfos, duendes), é a tentativa de emular a vida real com o preconceito racial, e, aqui, adicionar algumas camadas sobre servidão, vassalagem (em seus estágios finais, mas ainda existente), cultura samurai, entre outros aspectos do cotidiano nipônico durante o início do Período Meiji. Eu acho bacana essa ideia de vincular temas sociais e históricos com o fantástico. O problema está na execução do roteiro de Michiko Yokote, que precisa jogar na cara do espectador a crítica social a cada dois minutos com diálogos expositivos e literalidade dos assuntos que quer tocar, sem nenhuma nuance, subtexto ou profundidade.

Fica difícil nos identificarmos com comentários sociais bobos – Orcs fedem; humanos só gostam de humanos; etc – , em que o drama dos nossos protagonistas, o samurai Izou (Yūki Nomura) e o Orc mercenário Raiden (Daisuke Hirakawa), nunca se torna empático ou emocionante. Aliás, a dinâmica entre a dupla também não funciona. A animação basicamente copia o mote do filme de 2017, nos levando por uma jornada entre um humano e um Orc que acabam numa missão maluca envolvendo uma elfa e uma varinha mágica, e durante o percurso se tornam parceiros. No entanto, não existe qualquer tipo de conflito desenvolvido para o arco dramático dos personagens. Izou até ganha alguns flashbacks, mas nada realmente substancial.

A Grande Onda de Kanagawa (神奈川沖浪裏Kanagawa oki nami ura), de Katsushika HokusaiExemplo de técnica  mokuhanga (木版画).

A narrativa não está interessada em tornar seus personagens memoráveis ou complexos. Poderíamos ter qualquer samurai errante ou outro Orc que não faria diferença narrativa, o que é um fator extremamente negativo pensando em como a história em si já é bastante simplória. O fiapo narrativo de Yokote parece mais uma desculpa para o diretor Kyohei Ishiguro fazer uma expansão de mitologia para uma franquia que ninguém liga. Podemos ver isso desde a escolha estética do Japão feudal e do samurai (chamar o público de animes), até a maneira como o filme se desenvolve como uma quest de videogame.

Usando uma animação 3D com estilo de arte da xilogravura japonesa – o mokuhanga que vocês podem ver na imagem acima -, o cineasta japonês acaba criando uma interessante mescla de “pintura móvel” com o encadeamento de um jogo de videogame. Eu até gosto da arte pensando em termos de pura estética (o esquema de cores aquarela e o sombreamento são lindos) e também imersão visual do Japão clássico – apesar da trilha sonora pop atrapalhar -, mas a fluidez da animação fica estranhíssima. Seja movimentos faciais básicos, ou então a coreografia das lutas, tudo parece estático, às vezes até travado como um bug de videogame, o que detrai bastante da experiência visual do filme.

Ishiguro consegue melhorar (disfarçar?) a fluidez ruim com um trabalho de câmera vertiginoso, cheio de zooms, viradas rápidas durante combates, às vezes até acompanhando personagens de planos do chãoContudo, o cineasta peca enormemente em sequências de conversação ou de transição (e aí a crítica vai para a montagem também), nas quais o filme parece assumir por completo a linguagem de games com o modelo de cut-scenes. Por fim, Bright: Alma de Samurai relembra o filme original em termos de problemas de proposta, querendo fazer bastante coisa e enfiar várias boas ideias, com criadores que não sabem equilibrá-las ou executá-las com qualidade. Entre a interessante expansão de mitologia para um ambiente histórico diverso e a técnica intrigante, há o que se gostar em alguns conceitos, mas que no fim são totalmente mal trabalhados.

Bright: Alma de Samurai (Bright: Samurai Soul) – Japão, EUA, 12 de outubro de 2021
Direção: Kyōhei Ishiguro
Roteiro: Michiko Yokote
Elenco: Yūki Nomura, Daisuke Hirakawa, Shion Wakayama, Miyavi, Maaya Sakamoto, Kenjiro Tsuda, Chafurin, Mamoru Miyano, Kenichi Suzumura
Duração: 80 min.

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