Crítica | Brightburn – Filho das Trevas

Brightburn - Filho das Trevas (2019) plano critico

Não há absolutamente nenhum segredo em relação à aproximação de Brandon Breyer, o garoto encapetado interpretado por Jackson A. Dunn em Brightburn – Filho das Trevas, com a história do Superman. Produzido por James Gunn e dirigido por David Yarovesky, este filme tem uma série de características interessantes (até lembra um pouco Maligno), a começar pelo baixo orçamento que não impediu que se fizesse aqui um filme divertido e com um número de problemas bem menor do que em produções muitíssimo bem financiadas. E para nós, cinéfilos, esse tipo de iniciativa — de fazer muito com pouco — é uma daquelas excelentes notícias para se festejar.

É interessante observar como o terror tem encontrado caminhos muito interessantes para se desenvolver nos últimos anos. Não que esse tipo de febre horrífica e criativa seja uma novidade no cinema (por isso, esqueçam essa bobagem insana de “neo-terror” e similares), é apenas uma outra Era tecnológica e de possibilidades de abordagem assumindo riscos e tomando caminhos criativos que diretores, produtores e roteiristas também tomaram em Hollywood (mas não só!) nos anos 30 e 40 e depois nos anos 70 e 90. E essa febre de criatividade, cíclica, como todos sabemos, tem nos trazidos exemplos que realmente garantem boas sessões, sendo este Brightburn um deles.

Ao subverter o ideal de paz e justiça trazido pelo Azulão com um demoníaco “o que aconteceria se…?“, os roteiristas Brian Gunn e Mark Gunn (porque nepotismo pouco é bobagem) fizeram bem o trabalho básico de criar a mitologia do personagem maligno espelhando a história que conhecemos desde a Action Comics #1. É uma premissa excelente e com um princípio cinematográfico muito bom, jogando de modo rápido com algumas referências e partindo para o desenvolvimento desse novo Universo, momento no qual os problemas do filme começam a aparecer.

Ok, vocês podem me chamar de chato (eu sou mesmo) ou muito exigente em termos de narrativa, mas vamos pensar juntos numa situação. Pensem por um momento que você irá mudar o alinhamento moral de um personagem, qualquer personagem. Nessa troca, você tem a liberdade de fazer o que quiser com ele nesse novo espaço, com essa nova característica. Mas talvez com medo de que as pessoas não entendam o recado (???) você se prende ao padrão conhecido e adiciona apenas ações isoladas dessa mudança moral. Ou seja, você poderia mergulhar fundo, mas ficou apenas tomando banho de espuma e areia. É no mínimo decepcionante. Traduzindo para Brightburn,  o que temos é um roteiro cheio de ideias sensacionais que não dá corda para aquilo que ele tem de melhor: o Super-Alien-Demônio.

Percebam como o filme cresce toda vez que o menino faz um ato de maldade (a maquiagem e os efeitos práticos para essas cenas são incríveis) e como faltam, para essas mesmas cenas, uma continuidade narrativa até mesmo em questões de consequências! Antes da sequência final, não há uma única cena em que o roteiro permite uma ação de Brandon ter consequências fixas de aprendizado para o próprio personagem, cuja percepção dos poderes se dá de maneira unicamente provocativa e cujo possível dilema moral (“mãe, eu quero ser bom, eu juro…“) é totalmente afogado pela falta de desenvolvimento do personagem em si. O texto se vale da ótima ideia e de algumas boas cenas de ação — nem todas são bem dirigidas, vale dizer — para sustentar uma ideia que só deslancha mesmo no final, com a sugestão de uma continuação e referências indiretas à Mulher-Maravilha, ao AquamanCaçador de Marte e Crimson Bolt, o personagem de Rainn Wilson em Super (James Gunn, 2010).

Arriscar uma brincadeira como essa, ainda mais com um personagem como o Superman, não é algo fácil. Em Brightburn – Filho das Trevas, vemos como é possível trabalhar diversas situações super-heroicas através de uma premissa totalmente oposta ao que um herói originalmente representa e, mesmo com problemas de percurso e muitas ações questionáveis dos personagens (os policiais e principalmente os pais de Brandon, que o mimam demais e fecham os olhos para o fato de o filho ser a encarnação de um horror — algo que acontece o tempo inteiro na vida real, convenhamos), o filme consegue divertir, assustar e se torna uma boa promessa. O bom uso do vermelho como “cor externa” para a composição do personagem, a assustadora máscara e a desfaçatez dele ao final completam bem o pacote de “Ser Maligno” bem disfarçado no meio da humanidade, sempre embalado por uma fantástica e medonha trilha sonora. Se é para ter uma continuação, então que a qualidade esteja daqui para cima. Enquanto isso, na Sala de Justiça…

Brightburn – Filho das Trevas (Brightburn) — EUA, 2019
Direção: David Yarovesky
Roteiro: Brian Gunn, Mark Gunn
Elenco: Elizabeth Banks, David Denman, Jackson A. Dunn, Abraham Clinkscales, Christian Finlayson, Jennifer Holland, Emmie Hunter, Matt Jones, Meredith Hagner, Becky Wahlstrom, Terence Rosemore, Gregory Alan Williams, Elizabeth Becka, Annie Humphrey, Steve Agee
Duração: 90 min.

LUIZ SANTIAGO (OFCS) . . . . Após recusar o ingresso em Hogwarts e ser portador do Incal, fui abduzido pela Presença. Fugi com a ajuda de Hari Seldon e me escondi primeiro em Twin Peaks, depois em Astro City. Acordei muitas manhãs com Dylan Dog e Druuna, almocei com Tom Strong e tive alguns jantares com Júlia Kendall. Em Edena, assisti aulas de Poirot e Holmes sobre técnicas de investigação. Conheci Constantine e Diana no mesmo período, e nos esbaldamos em Asgard. Trabalhei com o Dr. Manhattan e vi, no futuro, os horrores de Cthulhu. Hoje, costumo andar disfarçado de Mestre Jedi e traduzo línguas alienígenas para Torchwood e também para a Liga Extraordinária. Paralelamente, atuo como Sandman e, em anos bissextos, trabalho para a Agência Alfa. Nas horas vagas, espero a Enterprise abordar minha TARDIS, então poderei revelar a verdade a todos e fazer com que os humanos passem para o Arquivo da Felicidade, numa biblioteca de Westworld.