Crítica | Brinquedo Assassino (2019)

“Isso é pelo Tupac!”

A cada grande invenção ou revolução, novas tecnologias terminam sendo antagonizadas em prol de mais inspirações para as ficções científicas. O medo do desconhecido ora ou outra reaparece para incorporar o imaginário coletivo. Mas, como sempre, não parte da tecnologia em si os males, mas a maneira como é usada. Ora, tecnologia é mero vetor. Nesse sentido, a inteligência artificial aparece como parte de uma zona mais explícita de demonização tecnológica, porque assegura a personificação do meio. O espaço ocupado por Brinquedo Assassino nessa discussão, porém, não é necessariamente o mais maniqueísta de todos. Chucky (Mark Hammil), diante da retomada da franquia icônica de horror, não é mais um boneco possuído, no entanto, uma espécie de serviço multimídia, que pode ligar televisões, tocar músicas, se conectar aos mais variados equipamentos da empresa Kaslan e até mesmo ser o seu melhor amigo. Por sinal, o brinquedo agora é da marca Buddi, ao invés de ser um Good Guy como era nos filmes anteriores. Chucky, portanto, pode ser qualquer coisa, o que inclui até ser um assassino. Apesar da inteligência artificial ter um papel na recriação do personagem, a perda de uma identidade pré-determinada ao boneco ressignifica a quantidade de atribuições que ele pode ganhar. Quando o brinquedo acaba parando nas mãos de um garoto solitário, Chucky será o seu Buddi até o fim – e mais que um Buddi, o seu melhor amigo.

Diferentemente dos demais bonecos desta marca, o de Andy (Gabriel Bateman), no entanto, teve os seus comandos humanamente manipulados – o que exemplifica, ademais, a inerência de uma interferência das pessoas para os meios serem vilanizados. Em vista de tais novidades, o roteiro de Tyler Burton Smith recorre a uma liberdade muito maior que os longas originais para pensar Chucky, não precisando se ater a um caráter maquiavélico mais unidimensional. O personagem representa, entretanto, algo bem maior, que, como a tecnologia, pode ser usado tanto para o bem quanto para o mal. Assim, o brinquedo necessita de uma mediação externa para entender os seus passos, mas já carrega em sua premissa uma missão específica: ser realmente um amigo de Andy. Contudo, o que é amizade, e o que os pedidos de socorro do garoto significam? Em meio a um cenário doméstico problemático – a sua mãe, interpretada por Aubrey Plaza, está namorando um crápula, e a sua rotina, sem ter amigos, é muito sozinha -, Andy passa por problemas diários que chamam a atenção de seu mais novo companheiro, interpretando à sua maneira o que deve fazer. Os problemas em si não são muito aprofundados, contudo, o carinho, quase obsessivo de Chucky, é uma pontuação da obra competente em ser crível. Em um jogo de ambiguidades contínuas, que externalizam a linha tênue entre o bem e o mal, a antecipação pelo sangue acompanhará tal longa.

Ao assistir produções de horror – como o excelente O Massacre da Serra Elétrica 2, muito mais histérico que o antecessor -, as gargalhadas de adolescentes às cenas tão criativas dos filmes são compreendidas pelo personagem como um culto à violência. Longe da obra querer ser moralista, porém. Em contrapartida a evidenciar sintomas mais absolutos para os males sociais, Brinquedo Assassino não quer condenar antecipadamente essas mídias, até porque Palhaços Assassinos do Espaço Sideral é um dos pôsteres que ocupam as paredes do quarto do protagonista. Do contrário, percebe-se um longa que incorpora as paranoias contemporâneas em uma só consciência. Como ela é defeituosa e sem quaisquer filtros, as percepções do brinquedo sobre o mundo tornam-se completamente esquizofrênicas. Então, da ruptura da privacidade a um serviço de transporte sem motorista – prevendo já por agora os possíveis carros automaticamente conduzidos -, inúmeros pensamentos acerca do mundo moderno são colocados em cheque simultaneamente. Assim, em oposição a uma abordagem que anseia ser sisuda, Brinquedo Assassino prefere um universo de incertezas para brincar, pensando mortes e antagonistas que trazem uma visão de delírio através do imprevisível. O longa, portanto, diagnostica esse descontrole humano frente às tecnologias com precisão, como na cena em que Andy começa a atacar os seus próprios equipamentos eletrônicos.

O diretor Lars Klevberg transfere tal dubiedade, assim sendo, aos gêneros do longa. Brinquedo Assassino embarca em doses cômicas notórias, que realçam o quão mais preocupada em ser espirituosa a obra está do que em proclamar uma moral condenatória. De certo que as relações humanas ganham uma prioridade em detrimento de um mundo integralmente digital – por sinal, os amigos que Andy cria na trajetória são até pouco explorados. Porém, Lars nunca se limita a isso, abrindo espaço para cenas de tensão que dependem da tecnologia para o bem e para o mal – o celular torna-se vital no embate entre as forças. Em paralelo a isso, o humor ajuda a concretizar o relacionamento complexado entre o protagonista e o seu boneco. Desse modo, o longa não se repete e não se esgota rapidamente, por estar ainda saboreando as expectativas dos espectadores com o que será do relacionamento central. De momentos engraçados, a simpatia pelo brinquedo se estabelece, ao passo que suas motivações também são coerentes por conta das mínimas deixas necessárias para que seu comando assassino seja ativado. Entretanto, a própria vertente grotesca do horror, como acontece nessas obras supracitadas, tem consigo um componente mais lúdico que sóbrio. Tão viscerais são as mortes quanto instigantes, partes de uma dinâmica criativa que, por ser bem livre, não se preocupa mais em separar o que é brincadeira e o que é coisa séria.

De tanto que as coisas se confundem e se misturam, a obra compreende o desnorte na discussão sobre os perigos das tecnologias: os desabafos de Andy são entendidos equivocadamente e os interesses jocosos dos amigos do protagonista são vistos como sérios. Ora, quando que as mídias passam de amigas para nossas inimigas? Esse brinquedo assassino, apesar de tão mortal quanto a sua outra versão, nunca soou, por isso, tão simpático. O visual do personagem, por exemplo, é uma anormalidade, mas que coerentemente se encaixa em um espaço entre a inocência, incapaz de violentar alguém, e a perversão. Hammil também contribui a esse conjunto de ambiguidades, com uma voz que captura uma indecisão acerca da natureza de Chucky, carismático e igualmente sinistro. Da disposição, ao mesmo tempo, de uma iluminação pautada basicamente nas cores azul e vermelho, a contraposição do bem contra o mal se esclarece ainda mais – e a cinematografia enaltece certeiramente esse contraste. Mesmo assim, esta polarização que Brinquedo Assassino entende igualmente prevê uma disrupção, que ocasiona a paranoia, não assumida apenas como parte de um discurso, contudo, pelo entretenimento que Lars resgata dos filmes mais sórdidos e também divertidos. Chucky irá renascer, porém, não por ele ser inexoravelmente uma presença maligna, mas por alguém não ter usado-o cuidadosamente. Então, na próxima vez, brinque direito.

Brinquedo Assassino (Child’s Play) – EUA, 2019
Direção: Lars Klevberg
Roteiro: Tyler Burton Smith
Elenco: Mark Hamill, Aubrey Plaza, Brian Tyree Henry, Gabriel Bateman, David Lewis, Ty Consiglio, Beatrice Kitsos, Hannah Drew, Kristin York, Carlease Burke
Duração: 90 min.

GABRIEL CARVALHO . . . Sem saber se essa é a vida real ou é uma fantasia, desafiei as leis da gravidade, movido por uma pequena loucura chamada amor. Os anos de carinho e lealdade nada foram além de fingimento. Já paguei as minhas contas e entre guerras de mundos e invasões de Marte, decidi que quero tudo. Agora está um lindo dia e eu tive um sonho. Um sonho de uma doce ilusão. Nunca soube o que era bom ou o que era ruim, mas eu conhecia a vida já antes de sair da enfermaria. É estranho, mas é verdade. Eu me libertei das mentiras e tenho de aproveitar qualquer coisa que esse mundo possa me dar. Apesar de ter estado sobre pressão em momentos de grande desgraça, o resto da minha vida tem sido um show. E o show deve continuar.