Crítica | Brooklyn – Sem Pai Nem Mãe

PLANO CRÍTICO BROOKLYN SEM PAI NEM MÃE

Quando os créditos iniciais são ocupados por uma citação maquiavélica sobre poder e tirania, Brooklyn – Sem Pai Nem Mãe (Motherless Brooklyn) se estabelece como um jogo de influências e controle. Tudo é dominado por uma luta pelo poder que está em todas as esferas. É um conflito mental e político. Que existe no ambiente micro e no macro. Entre id, ego e superego. Uma política higienizadora racista contra uma resistência popular.

O ambiente do filme dirigido (e estrelado) por Edward Norton é uma Nova York dos anos 50 degradada. O fantasma da quebra da Bolsa de Valores em 1929 e as recentes feridas da guerra estão constantemente sendo mencionadas pelos personagens. Por outro lado, o jazz está ali, surgindo e ganhando força. É uma cidade em transição, que é uma ponte entre o presente e o passado. Entre o pessimismo e o otimismo.

Não se trata apenas de uma ponte metafórica, já que a disputa por pontes literais é o que move a trama. Elas representam o símbolo do progresso em Brooklyn – Sem Pai Nem Mãe. Moses Randolph (Alec Baldwin) é um membro do governo que está construindo pontes e viadutos na cidade, ao mesmo tempo que propõe uma higienização e remoção das favelas (e os negros) daquela região. Após ver seu parceiro morrer enquanto investigava esses esquemas, Lionel Essrog (Edward Norton), um detetive com síndrome de Tourette, assume o caso.

Por conta da doença, vemos que o personagem é é repleto de tiques, tanto gestuais (que vão desde o arrancar de um fio do casaco até encostar no ombro das pessoas) e verbais (sempre quando nervoso, ele grita a palavra “se” (if) e enuncia pensamentos impróprios em voz alta). Não é preciso estar muito atento para perceber que Lionel é a representação dessa Brooklyn conflituosa. Aliás, o próprio protagonista recebeu o apelido de “Brooklyn Sem Pai Nem Mãe” de Minna (Bruce Willis), seu mentor. Tanto o protagonista quanto a cidade estão largados e vivem uma luta diária.

Tentando emular o que se passa na cabeça de Lionel, Edward Norton propõe uma mise-en-scène bem caótica. A montagem é extremamente frenética e os close-ups são claustrofóbicos. De mesmo modo, um jazz em rápida velocidade ocupa a trilha sonora como um constante zumbido em sua cabeça, enquanto uma narração em off indica sua guerra interna. O próprio desenvolvimento e resolução da investigação principal não são fáceis de se assimilar, tudo é muito rápido e intenso, como se o próprio Lionel tivesse dificuldade em acompanhar aquilo tudo.

Aliás, ainda que não seja proposital, curioso como Brooklyn – Sem Pai Nem Mãe coloca o espectador (pelo menos, me colocou) na mesma situação que o protagonista. Em diversas cenas, um enorme ímpeto de rir surgia, já que a falta de tato social de Lionel gera uma situações hilárias. Todavia, eu constantemente reprimia essa vontade, já que sabia que era errado. Assim como este crítico que vos escreve, Lionel não consegue controlar suas pulsões primitivas. Ao encontrar uma mulher, ele precisa fazer um comentário sobre seus peitos. Já quando está apanhando de criminosos ou estudando em uma biblioteca silenciosa, ele não consegue deixar de soltar um grito. Em um certo momento, ele diz que é como se em sua cabeça vivesse um anarquista, mas que quer botar as coisas no lugar.

O roteiro escrito pelo próprio Norton também vai muito em cima dessa disputa de influências. Não há harmonia entre os personagens, estão todos buscando uma brecha para o êxito de seus objetivos. A trama até parece perder o foco quando começa a mostrar as intrigas políticas entre Moses e os outros políticos, mas faz tudo parte desse jogo. Frank Mitta quer fazer dinheiro, o jornalista quer publicar um furo, o detetive quer ficar com a mulher do outro, o personagem de Willem Dafoe quer ser famoso. É como se a Nova York fosse esse grande tabuleiro de War e todos estão buscando preencher suas casinhas.

Por isso, é muito interessante ver como Lionel, chamado de aberrações por todos, é a única pessoa genuinamente altruísta naquele ambiente. Neste sentido, Edward Norton chega até a emular um pouco os tiques de sua persona em Duas Faces Para um Crime. Só que diferente deste, há aqui uma pureza única no protagonista. Ele é o único que não consegue se adaptar neste cabo de guerra de influências, não se subvertendo diante convenções sociais de uma sociedade já contaminada.

Por fim, Brooklyn Sem Pai Nem Mãe talvez não traga a resolução dos sonhos para os espectadores com maior senso de justiça, mas não é disso que a narrativa trata. Edward Norton explora e subverte os mitos do gênero noir, trazendo aqui um protagonista que não quer vencer o jogo e botar o bandido na cadeia, mas só quer sair dele e viver em seu próprio mundo.

Brooklyn – Sem Pai Nem Mãe (Motherless Brooklyn) – EUA, 2019
Direção: Edward Norton
Roteiro: Edward Norton (baseado na obra de Jonathan Lethem)
Elenco: Edward Norton, Gugu Mbatha-Raw, Alec Baldwin, Bobby Cannavale, Willem Dafoe, Bruce Willis, Ethan Suplee, Cherry Jones, Dallas Roberts, Josh Pais, Radu Spinghel, Fisher Stevens, Peter Gray Lewis, Robert Wisdom, Michael Kenneth Williams
Duração: 144 min.

MICHEL GUTWILEN . . . Já toquei uma gaita com Sergio Leone, lutei contra o sistema com Ken Loach, me apaixonei com James Gray, xinguei minha mãe com Xavier Dolan, tive uma crise de ansiedade com Darren Aronofsky, fui a um baile de máscaras com Stanley Kubrick e nasci do útero de de Naomi Kawase. Um constante indeciso. Acredito que não há verdades absolutas na crítica cinematográfica, com uma exceção: Star Wars - The Last Jedi é maravilhoso e isso é irrefutável — leve essa última frase na brincadeira....ou não.