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Crítica | Brother – A Máfia Japonesa Yakuza em Los Angeles

Então é guerra.

por Ritter Fan
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Brother (ignorarei o ridiculamente didático e longo subtítulo nacional) é a primeira e até agora única incursão hollywoodiana de Takeshi Kitano como diretor, roteirista e ator. Não é uma produção pura dos EUA, já que há participação de seu país natal além do Reino Unido e França na sempre complexa teia de financiamento cinematográfico, mas, em termos de estrutura narrativa, seu longa de 2000 é inegavelmente seu mais americano de longe, com o cineasta quase que tratando o público da maneira mais didática possível para ampliar as chances de sua obra ser aceita por lá.

Kitano declarou não gostar do resultado e ele tem razão nessa conclusão, mas não que Brother seja um filme ruim, mas sim porque simplesmente não é um filme inteiramente com sua marca, com seu estilo. Sim, há inegavelmente elementos contemplativos e melancólicos ao longo da história de Yamamoto, membro da Yakuza que é obrigado a fugir para Los Angeles depois que seu chefe é assassinado e ele se recusa a chegar a um acordo com a família em comando, já que o personagem de Kitano é o típico homem simples e estoico que ele costuma viver em seus longas, com uma evidente camada niilista, no caso quase que completamente suicida de verdade, que se recusa a se desviar de seus princípios, por mais destrutivos que eles possam ser, mas o longa é uma sucessão simples e, portanto, incomum para Kitano, de eventos que levam Yamamoto de um fugitivo a um líder da Yakuza na cidade que adotou a partir de seu reencontro com seu irmão mais novo, um traficante de drogas local.

O roteiro pega na mão do espectador e o leva em uma direção bastante objetiva e direta de “construção de império” que, claro, só pode ter um resultado na medida em que ele sobe na hierarquia local. Até mesmo a montagem do próprio Kitano não recorre à sua abordagem entrecortada, por vezes até dura e inesperada, mas sim segue o manual básico da técnica, com apenas alguns arroubos criativos como o momento em que o protagonista esbarra violentamente em Denny (Omar Epps), que se tornaria seu grande e leal amigo além de seu irmão Ken (Claude Maki). Em outras palavras, o diretor e roteirista se auto impõe limites e transita de forma razoavelmente desconfortável por uma cartilha hollywoodiana comum, já vista antes algumas dezenas de vezes.

No entanto, mesmo prendendo-se a essa camisa de força – e eu não duvido nada que ela tenha sido imposta de cima para baixo em razão da estrutura de coprodução – Brother não é um filme descartável, da mesma forma que não é um longa inteiramente comum na categoria “yakuza nos EUA”. Mesmo com Kitano seguindo uma estrutura comum, ele sabe lidar com espaços cênicos diferentes, que privilegia disposições de elenco, cenário e objetos de maneira a criar uma composição quase poética, algo que fica mais evidente no quartel-general de sua gangue na segunda metade do longa. Há uma mistura entre distanciamento frio e convite à observação que poucos cineastas são capazes de colocar em tela naturalmente, com a montagem do diretor privilegiando um pouco o desnorteamento visual para que jamais fiquemos acostumados com o local e sempre, a todo momento, entendamos exatamente qual é o único resultado possível das ações de Aniki (ou “irmão mais velho”) como Yamamoto é carinhosamente chamado especialmente por Denny. Não nenhuma tentativa de surprender o espectador e o banho de sangue que vai em um crescendo cada vez mais inevitável é 100% telegrafado, mas nunca de maneira ruim, que impeça o aproveitamento do longa por quem quiser ser mais “ocidentalmente” introduzido ao estilo Kitano de filmar e atuar.

Por vezes em me pego imaginando como Brother poderia ser sem que as cercas hollywoodianas erigidas ao seu redor existissem. Havia um incrível potencial para uma abordagem radicalmente diferente para a história de um gângster que só sabe viver um tipo de vida, vida essa que tem que estar sempre ao lado, de mãos dadas, com a morte, quase como se uma fosse a única coisa que tornasse a outra realmente valiosa por puro contraste. Kitano, compreensivelmente, porém, tentou começar devagarinho do outro lado do Pacífico, somente para jamais aceitar novamente esse cabresto.

Brother – A Máfia Japonesa Yakuza em Los Angeles (Brother/ブラザー/Burazā – EUA/Reino Unido/Japão/França, 2000)
Direção: Takeshi Kitano
Roteiro: Takeshi Kitano
Elenco: Takeshi Kitano (Beat Takeshi), Omar Epps, Tetsuya Watari, Claude Maki, Masaya Kato, Susumu Terajima, Royale Watkins, Lombardo Boyar, Ren Osugi, Ryo Ishibashi, James Shigeta, Tatyana Ali, Makoto Otake, Kouen Okumura, Naomasa Musaka, Rino Katase, Joy Nakagawa, Amaury Nolasco, Tuesday Knight, Tony Colitti, Antwon Tanner
Duração: 114 min.

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