Crítica | Buick 8, de Stephen King

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Embora possua uma produção bastante prolífica, o grande talento de Stephen King não está em inventar obras completamente novas (até por que isso nem existe), e sim em conseguir abordar de diferentes perspectivas os itens e temas que lhe interessam. E é justamente isso que encontramos em Buick 8.

O ponto de partida do romance é a morte do patrulheiro rodoviário Curtis Wilcox, que é atropelado por um motorista bêbado enquanto conferia os pneus de um caminhão. Seu filho, Ned, começa a frequentar o quartel do Regimento D, onde o seu pai trabalhava, como uma forma de se sentir mais próximo dele. Lá, Ned acaba descobrindo um segredo guardado há vinte cinco anos pelos policiais do Regimento D, um carro modelo Buick 8, cujo motor e o painel não funcionam; tem um volante enorme, e parece ser indestrutível. Através dos velhos colegas de seu pai, Ned fica conhecendo a história do misterioso carro que intriga e assombra os policiais do Regimento desde que foi abandonado em um posto de gasolina por um desconhecido décadas atrás, e de como o mistério envolvendo o Buick se tornou a obsessão do falecido Curtis Wilcox.

Muitos podem achar que Buick 8 é uma reciclagem de outra obra do escritor, o mais famoso Christine: O Carro Assassino, já que ambos os romances de Stephen King giram em torno de carros assombrados. Mas tirando este fato, tratam-se de dois livros bem distintos, não só pela natureza dos veículos malignos, já que diferente de Christine, que era uma força do mal por si só, o Buick é mais um meio para o mal chegar até o nosso mundo, mas por sua proposta dramática. Se Christine era uma história de terror mais direta, Buick 8 mistura essas passagens de terror com passagens mais dramáticas e cadenciadas das histórias que os policiais do Regimento D contam a Ned sobre o seu pai.

Nesta obra, King se entrega a uma forte influência lovecraftiana, não apenas na descrição das bizarras criaturas que passam a ser paridas pelo carro, mas também na curiosidade obsessiva em relação ao carro e seus segredos, que passa a tomar conta de alguns personagens — assim como muitos dos protagonistas de Lovecraft. Buick 8 também usa a sua história de horror e mistério para criar uma metáfora sobre a dificuldade que o ser humano tem para lidar com questões que simplesmente não possuem respostas ou justificativas. Se no passado, o policial Curtis Wilcox ansiava por uma explicação para a existência do Buick e das criaturas que ele libera, no presente, seu filho Ned busca com a mesma angústia uma justificativa para o seu pai ter morrido em um acidente tão estúpido. O livro de King não é apenas sobre o fascínio que o sobrenatural exerce sobre o ser humano, mas sobre a angústia que eventos trágicos aleatórios provocam.

Outro ponto interessante do livro é a forma como King organiza a estrutura narrativa. Como 80% da história são os relatos que Ned ouve dos colegas do pai (a trama de Ned funciona quase como uma história-moldura), cada capítulo é contado do ponto de vista de um personagem diferente. Desta forma, o autor consegue fazer com que o leitor simpatize com cada um dos policiais do Regimento D e sinta a forte união que existe entre aqueles homens e mulheres, como se eles fossem uma verdadeira família.

Buick 8 está longe de ser o livro mais inspirado do King, e talvez até tivesse funcionado melhor como uma noveleta do que como um romance, já que possui alguns trechos que poderiam ter sido dispensados. Mas ainda é uma leitura agradável, com um desfecho bastante coerente com o que havia sido apresentado até então. Vale a conferida, especialmente pelos carismáticos personagens e pela metáfora que faz sobre a nossa relação com o desconhecido e o inexplicável.

Buick 8 (From a Buick 8)- Estados Unidos. 2002
Autor: Stephen King
Editora: Suma de Letras
Tradução: Adalgisa Campos da Silva
358 páginas

RAFAEL LIMA . . . Sou Um Time Lord renegado, ex-morador de Castle Rock. Deixei a cidade após a chegada de Leland Gaunt. Passei algum tempo como biógrafo da Srta. Sidney Prescott, função que abandonei após me custar algumas regenerações. Enquanto procurava os manuscritos perdidos do Dr. John Watson, fiz o curso de boas maneiras do Dr. Hannibal Lecter, que me ensinou sobre a importância de ser gentil, e os perigos de ser rude. Com minha TARDIS, fui ao Velho Oeste jogar cartas com um Homem Sem Nome, e estive nos anos 40, onde fui convidado para o casamento da filha de Don Corleone. Ao tentar descobrir os segredos da CTU, fui internado no Asilo Arkham, onde conheci Norman Bates. Felizmente o Sr. Matt Murdock me tirou de lá. Em minhas viagens, me apaixonei pela literatura, cinema e séries de TV da Terra, o que acabou me rendendo um impulso incontrolável de expor e ouvir ideias sobre meus conteúdos favoritos.