Crítica | Bullying (2009)

estrelas 3,5

Em meu artigo anterior sobre a violência física e social discutidas a partir do filme Distúrbio eu salientei as características morais e de formação do problema, por isso, em Bullying (2009), direcionarei minha análise mais para o campo dos fatores psicológicos e humanos, com atenção especial para o suicídio.

Bullying conta a história de Jordi, um garoto de 15 anos que acaba de perder o pai e é recém-chegado à cidade em companhia da mãe. Já nos primeiros dias de aula um grupo de alunos liderados pelo dissimulado Nacho começa a fazer a vida de Jordi um inferno, até que o sofrimento e a desesperança do jovem superam o seu amor à vida e o filme termina em uma “tragédia inevitável”.

O roteiro de Ángel García Roldán cerca o tema e consegue instigar o espectador a pensar sobre o problema central da película. E não é para menos: cenas chocantes e desumanas acompanham as torturas diárias e cada vez mais insuportáveis sofridas pelo protagonista. O que chama atenção no filme é a denúncia também dos omissos e um certo ar didático que pontua o miolo da obra. Nesse sentido, o filme é bastante “educativo”, porque cita estatísticas europeias e faz uma pequena análise sociológica do problema.

Em algumas críticas que li sobre o filme, figurava a possível falta de semelhança com a realidade trabalhada pelo diretor, algo que discordo enfaticamente. Talvez a intensidade com que são postas no filme as torturas ao adolescente não esteja algo muito próximo do cotidiano, mas é certo que toda a trama de Bullying encontra espaço nas escolas de hoje, e digo isso como profissional do ramo.

Diferente de algumas abordagens ao tema, San Mateo optou por uma linha narrativa humanista, que mostra não só o lado escolar do jovem Jordi, mas também o início do seu amadurecimento como homem, o seu amor e defesa à mãe, poupando-a de saber de seus problemas fora de casa e seu caráter solidário e explosivo. Ou seja, o filme não foca o bullying como o soberano motivo do drama, mas cria o enredo do cotidiano da vítima, o que dá maior sustentação à denúncia.

A direção de atores de San Mateo não é louvável, mas consegue manter uma linha mediana de qualidade durante toda a projeção do filme. O que ajuda a dar o ar dramático necessário é a planificação espirituosa das cenas. A cidade de Bercelona é vista sob outro ângulo, o do cotidiano suburbano. É interessante como o diretor cria um ar claustrofóbico altamente simbólico e pertinente à trama, usando o ambiente citadino.

A moderadíssima trilha sonora ilustra o espírito das cenas e nunca está lá para compensar alguma falta – fenômeno, infelizmente, muito comum nos dramas de hoje.

O filme alerta não só para a importância imperativa da denúncia ao bullying, como também mostra ao espectador que tipo de vida se perde quando um grupo de jovens que se autodenominam bons demais e, entediados, acham sempre no mais fraco uma alternativa criminosa de “diversão”. E se alguém acha que há excessos nesse filme espanhol, sugiro que passe um mês acompanhando as aulas de qualquer escola pública e constate que, além do que está posto no filme, uma grande máfia assombra e se encarna na educação, algo que não é segredo, mas se tornou “normal” como a maior parte das nossas mazelas atuais.

A questão do suicídio entra aqui como um tabu renovado e reforçado pela escatologia: aproxima-se o fim dos tempos e a pior coisa a fazer é dar cabo de sua própria vida, já que ela “não pertence a ninguém”. Não quero levantar questões a respeito do tema, até porque este não é nosso foco aqui, mas gostaria que os leitores pensassem a respeito dos motivos acumulados que empurraram Jordi de cima daquele prédio e levassem em conta o pensamento de David Hume a respeito dessa ação.

O bullying é um problema social contemporâneo que cresce assustadoramente no mundo todo, o que nos faz pensar em que tipo de sociedade vivemos e que futuro nos espera– haja visto que a maior parte dos agressores são jovens. Nesse âmbito, um filme como Bullying faz-nos ver não só a monstruosidade da ação como também a cadeia de ódio, intolerância, depressão e destruição de vidas e famílias que elas causam. Se o fim das coisas ruins está próximo, ele vem tarde demais.

Bullying (Espanha, 2009)
Direção: Josetxo San Mateo
Roteiro: Piti Español, Ángel García Roldán
Elenco: Nadeska Abreo, Marcos Aguilera, Osvaldo Ayre, Albert Carbó, Yohana Cobo, Laura Conejero, Joan Carles Suau
Duração: 95min.

LUIZ SANTIAGO (OFCS) . . . . Após recusar o ingresso em Hogwarts e ser portador do Incal, fui abduzido pela Presença. Fugi com a ajuda de Hari Seldon e me escondi primeiro em Twin Peaks, depois em Astro City. Acordei muitas manhãs com Dylan Dog e Druuna, almocei com Tom Strong e tive alguns jantares com Júlia Kendall. Em Edena, assisti aulas de Poirot e Holmes sobre técnicas de investigação. Conheci Constantine e Diana no mesmo período, e nos esbaldamos em Asgard. Trabalhei com o Dr. Manhattan e vi, no futuro, os horrores de Cthulhu. Hoje, costumo andar disfarçado de Mestre Jedi e traduzo línguas alienígenas para Torchwood e também para a Liga Extraordinária. Paralelamente, atuo como Sandman e, em anos bissextos, trabalho para a Agência Alfa. Nas horas vagas, espero a Enterprise abordar minha TARDIS, então poderei revelar a verdade a todos e fazer com que os humanos passem para o Arquivo da Felicidade, numa biblioteca de Westworld.