Crítica | Buñuel no Labirinto das Tartarugas

Bunuel-in-the-Labyrinth- BUÑUEL E O LABIRINTO DAS TARTARUGAS PLANO CRÍTICO

Buñuel no Labirinto das Tartarugas é a adaptação da graphic novel de Fermín Solís sobre um momento no início da carreira do cineasta aragonês, mais precisamente logo após o lançamento de seu segundo filme, A Idade do Ouro (1930). Já tendo brigado com Salvador Dalí por conta de assuntos criativos, Luis Buñuel seguia perdido em relação ao que seria e quando seria o seu próximo filme. A procura de um tema e uma oportunidade foram imediatos, mas infrutíferos, até que algo completamente inusitado caiu nas mãos do jovem diretor. Uma oportunidade de filmar algo diferente do que ele havia feito em Um Cão Andaluz (1929) e L’âge d’or.

Envolvido artística e teoricamente com o surrealismo, Buñuel esperava seguir apenas com produções dentro desse gênero, de modo que um documentário lhe parecia bastante irreal naquele momento. Mas foi exatamente isso que lhe aconteceu. Impressionado com os estudos sobre a região da comarca espanhola de Las Hurdes, o diretor se aproximou do amigo Ramón Acín para estruturar o projeto. E após outra improvável ocorrência — o fato de Acín ganhar na loteria — a dupla se uniu ao fotógrafo Eli Lotar e ao diretor de segunda unidade Pierre Unik para filmar Terra Sem Pão (1933), obra inicialmente inspirada pelo estudo etnográfico de Maurice Legendre intitulado Las Jurdes: Étude de Géographie Humaine (1927), mas que acabou seguindo uma trilha bem diferente do convencional… afinal de contas, era um filme de Luis Buñuel.

Nesta animação, o espectador terá a oportunidade de ver como um “quase falso documentário” como Las Hurdes inspirou uma “quase falsa biografia”, num diálogo divertido e angustiante entre a ficção e a realidade que nos permite visualizar e contextualizar melhor a obra original, considerada por alguns como o primeiro mocumentário da História. O fato é que a expedição feita por Buñuel e sua equipe à região encontrou uma realidade triste, miserável, mas diante da qual o diretor queria interferir, filmar parte do que ele considerava como eventos que, mais dia menos dia, aconteceriam àquelas pessoas, àqueles animais, àqueles lugares. E é aí que tanto o quadrinho quanto a animação conseguem um tremendo resultado final, pois essa ideia é expandida e dela surgem os temas para o longa, que aborda as ‘dificuldades de produção’ do doc e, no meio do caminho, dá lugar aos conflitos emocionais do diretor homenageado.

Num primeiro momento eu não gostei muito da transição entre animação e a exibição de trechos de Terra Sem Pão, mas a estranheza durou bem pouco tempo, porque a dinâmica acaba ganhando sentido e força à medida que novas situações bizarras, cruéis e peculiares aparecem e o diretor se propõe a filmá-las, fazendo delas uma mensagem ensaiada para o público, uma forma de “salvar o povo daquela região” dando lugar ao lado cruel daquele que guiava todo o projeto. Os traços finos e o estilo mais simples da animação 2D ajudam a contextualizar o tempo histórico que representa, algo que vemos também nas cores com pouca saturação, exceto nos momentos de sonho ou nos trechos surreais que indicam passagens da imaginação de Buñuel.

A temática aqui vai muito além da simples homenagem, da simples brincadeira de mostrar a manufatura de outro filme. A bela trilha sonora composta por Arturo Cardelús (In a Heartbeat) fortalece a ideia de sonho, acrescentando doses de desalento em diversos momentos, sendo um dos pontos mais fortes do filme. Representar a criação de uma obra cinematográfica experimental e controversa é apenas uma das faces dessa animação. O espelho que ela faz daquilo que representa ao mesmo tempo que procura a sua própria identidade é algo digno de louvor. Uma homenagem e uma inspiração na obra de Buñuel que não se limita a ecoar o original, mas sabe criar algo novo em cima do então nascente Universo buñuelista.

Buñuel no Labirinto das Tartarugas (Buñuel en el laberinto de las tortugas) — Espanha, Países Baixos, Alemanha, 2018
Direção: Salvador Simó
Roteiro: Eligio R. Montero, Salvador Simó (baseado na graphic novel de Fermín Solís)
Elenco: Jorge Usón, Fernando Ramos, Luis Enrique de Tomás, Cyril Corral, Pepa Gracia, Rachel Lascar, Gabriel Latorre, Alex Martos, Philipp Nowicki, Victor Nuñez, Fermín Núñez
Duração: 80 min.

LUIZ SANTIAGO (OFCS) . . . . Após recusar o ingresso em Hogwarts e ser portador do Incal, fui abduzido pela Presença. Fugi com a ajuda de Hari Seldon e me escondi primeiro em Twin Peaks, depois em Astro City. Acordei muitas manhãs com Dylan Dog e Druuna, almocei com Tom Strong e tive alguns jantares com Júlia Kendall. Em Edena, assisti aulas de Poirot e Holmes sobre técnicas de investigação. Conheci Constantine e Diana no mesmo período, e nos esbaldamos em Asgard. Trabalhei com o Dr. Manhattan e vi, no futuro, os horrores de Cthulhu. Hoje, costumo andar disfarçado de Mestre Jedi e traduzo línguas alienígenas para Torchwood e também para a Liga Extraordinária. Paralelamente, atuo como Sandman e, em anos bissextos, trabalho para a Agência Alfa. Nas horas vagas, espero a Enterprise abordar minha TARDIS, então poderei revelar a verdade a todos e fazer com que os humanos passem para o Arquivo da Felicidade, numa biblioteca de Westworld.