Crítica | Cable & Deadpool: Se Olhares Matassem

CABLE E DEADPOOL PLANO CRITICO Se Olhares Matassem

Quando a gente pega um quadrinho com um título indicativo de parceria, existe uma promessa embutida que precisa ser cumprida pelo roteiro. Não existe “&” sem uma boa história de interação entre personagens, especialmente quando falamos de parcerias malucas e com indivíduos tão diferentes como Cable e Deadpool. Histórias de vida, poderes e visões de mundo completamente diferentes. Agendas diferentes. Contatos e contratações, missões ou pedidos de ajuda diferentes. Ou seja, a cooperação Cable & Deadpool foi, por tabela, concebida para colocar em choque as realidades dos dois mutantes, o que parece ser apenas uma sugestão longínqua neste Se Olhares Matassem, arco de abertura da série iniciada em 2004.

Após uma breve introdução dos protagonistas em seus ambientes particulares (compreensível opção de Fabian Nicieza para iniciar a história), vemos a trama se afunilar para o inevitável “primeiro encontro” dos dois heróis — para todos os efeitos, vamos assumir essa nomenclatura aqui — na Sunic Pharmacopoeia (base de operações em Berlim). Ambos procuram a mesma coisa, o Facade Virus, mas para fins diferentes, algo que ganhará uma boa, mas auto-boicotada discussão moral e ética em dado ponto do arco. É aí que o roteiro encontra o seu verdeiro ponto de conflito, momento a partir do qual a história começa a ganhar maior força e dar aos personagens os motivos certos e errados para correrem, tentarem matar, baterem um no outro.

A questão é que esse motivador, que pelo mistério inicial e pelas boas gracinhas de Deadpool, nos prende durante a primeira edição, mas vai perdendo força de maneira impressionante. De um lado, podemos atribuir isso à inclusão indiscriminada de personagens no texto, uma clara tentativa do autor em dar um significado épico para toda a narrativa, já pensando no braço da saga que poderia puxar para o futuro. Ao final da sexta edição do arco, entendemos que era justamente esse o propósito, algo que poderia tranquilamente ser colocado para depois. Tivesse feito isso, a história não precisava ser tão alongada e focaria apenas nos elementos que marcam a relação entre Cable e Deadpool, o segundo e último conceito que realmente funciona acima da média até o fim. O outro é o desenvolvimento pessoal dado a Cable.

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Quando o jantar não cai bem…

Enquanto Deadpool passa por estranhas mudanças à guisa de um “elemento dramático” (desnecessário até mesmo para a própria dinâmica do arco — se a dupla de “parceiros de ocasião” fosse formada 25 páginas antes, o resultado seria muitíssimo melhor), Cable recebe um tratamento sólido, diálogos que mais sentido fazem para a história e o melhor fio condutor possível, com exceção de uma certa conversa que ele tem com um mutante bastante poderoso, algo que, no fim das contas, é jogado na narrativa. No decorrer dos eventos, chega um ponto em que esperamos as boas piadas de Deadpool e como ele vai se comportar diante de Cable, mas o que temos é uma divisão da história em blocos que se alternam em qualidade e funcionam apenas parcialmente. Aquele que deveria ser o ponto cômico acaba abrindo um precedente incômodo que dá cria a partir do meio do enredo, caindo em armadilhas de redenção e birrinha juvenil para um personagem como o Deadpool, tratamento difícil de aceitar.

Fora as capas exageradas de Rob Liefeld, existe um bom projeto visual aqui, principalmente nos quadros de destruição e personagens espalhados em primeiro, segundo e terceiro planos, ou em sequências temporais diferentes mostradas em um mesmo espaço. A diagramação também tem bons momentos, saindo da caixa quando a arte mais precisa, dando fluidez visual às lutas e à movimentação causada pelo vírus. É pena que o roteiro não cresça tanto, mesmo tendo a faca e o queijo na mão. Pelo menos as provocações entre os protagonistas garantem boas risadas, mas para um arco de seis revistas, certamente precisávamos e merecíamos bem mais. Assim como Cable e Deadpool.

Cable & Deadpool: Se Olhares Matassem (If Looks Could Kill) — EUA, maio a outubro de 2004
Contendo: Cable & Deadpool #1 – 6
No Brasil: Wolverine #15 a 20 (Panini, 2006)
Roteiro: Fabian Nicieza
Arte: Mark Brooks, Patrick Zircher
Arte-final: Mark Brooks, Rob Ross, Alan Tam, M3th
Cores: Shane Law, Chris Stevens, Kevin Yan
Letras: VC’s Cory Petit, Rus Wooton
Capas: Rob Liefeld, Patrick Zircher, Mark Brooks
Editoria: Tom Brevoort, Nicole Wiley, Andy Schmidt
24 páginas (cada edição)

LUIZ SANTIAGO (OFCS) . . . . Após recusar o ingresso em Hogwarts e ser portador do Incal, fui abduzido pela Presença. Fugi com a ajuda de Hari Seldon e me escondi primeiro em Twin Peaks, depois em Astro City. Acordei muitas manhãs com Dylan Dog e Druuna, almocei com Tom Strong e tive alguns jantares com Júlia Kendall. Em Edena, assisti aulas de Poirot e Holmes sobre técnicas de investigação. Conheci Constantine e Diana no mesmo período, e nos esbaldamos em Asgard. Trabalhei com o Dr. Manhattan e vi, no futuro, os horrores de Cthulhu. Hoje, costumo andar disfarçado de Mestre Jedi e traduzo línguas alienígenas para Torchwood e também para a Liga Extraordinária. Paralelamente, atuo como Sandman e, em anos bissextos, trabalho para a Agência Alfa. Nas horas vagas, espero a Enterprise abordar minha TARDIS, então poderei revelar a verdade a todos e fazer com que os humanos passem para o Arquivo da Felicidade, numa biblioteca de Westworld.