Crítica | Cabo do Medo

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Na ocasião de lançamento de Cabo do Medo, Martin Scorsese já era um cineasta bem estabelecido no sistema industrial de produção, tendo ainda ao seu favor os críticos de uma era onde a informação especializada contava muito para o sucesso ou fracasso de uma obra. Admirador confesso de Alfred Hitchcock, o cineasta já havia referenciado elementos estruturais do mestre do suspense em outras ocasiões, mas na refilmagem do clássico Círculo do Medo, de 1962, a presença de Frenesi, A Sombra de Uma Dúvida, Psicose e Um Corpo Que Cai é abordada pelas instâncias visuais e dramáticas, isto é, além de emular traços estéticos, há segmentos narrativos que fazem a homenagem aos clássicos hitchcockianos.

A trama versa sobre um estuprador que após a sua condenação e cumprimento da sentença de 14 anos, liberta-se da prisão com “sangue no olho” e parte para vingança contra o advogado de defesa que “permitiu” o seu encarceramento. Acompanhados pela trilha sonora de Bernard Hermann, reorganizada por Elmer Berstein, os personagens trafegam por uma via de loucura, perversidade, traição, instabilidade, assédio e vingança, um tema que cairia na violência banal se não tivesse em sua execução um cineasta cuidadoso com as histórias que conta. Logo nos créditos de abertura, Scorsese traz para a formulação o experiente Saul Bass, conhecido por criar os primeiros momentos de alguns filmes respeitados de Alfred Hitchcock.

Logo mais, acompanhamos as apresentações estabelecidas pelo enredo. Max Cady (Robert DeNiro) é o antagonista em busca de vingança. Seus conflitos e necessidades dramáticas giram em torno do extermínio de Sam Bowden (Nick Nolte) e sua família, composta por sua esposa Leigh Bowde (Jessica Lange) e sua única filha, Danielle Bowden (Julliete Lewis). A filha, por sinal, será a porta de entrada para o esfacelamento do tradicional “clã” Bowden. A sua saída da prisão catalisa as crises que já pairam na atmosfera de um casamento em declínio. A ira do personagem, uma criatura que utiliza a religião como um meio de se redimir diante das atrocidades que comete, transborda por conta do excepcional desempenho de Robert DeNiro.

Ele vai se dedicar ao trabalho minucioso de trazer tempestade para o convívio do trio, algo que é transmitido ao espectador não apenas por conta do desempenho dramático do ator que já havia comprovado as suas habilidades há tempo, mas também por conta de sua composição visual, haja vista as tatuagens pelo corpo e o tratamento dentário para deixa-lo com aparência asquerosa, investimento louvável, pois conseguiu trazer, junto aos elementos estéticos, uma aura de horror e paranoia para Cabo do Medo. Em sua sétima parceria com Scorsese, o ator nos apresenta um personagem que mescla o fascínio e a repulsa concomitantes.

Ao longo dos 128 minutos de filme, talvez o único elemento narrativo comprometedor, pois amplia demais a narrativa que continuaria excelente com uma extensão menor, Cabo do Medo traz desempenhos dramáticos de excelência, acompanhados por escolhas de ordem estética que transforma o filme num deslumbrante espetáculo de horror. A trilha já mencionada emula o clima de mistério dos filmes de horror clássicos, adorno das imagens expostas por meio de cortes frenéticos incomuns na cinematografia de Scorsese. Adotado pela editora Thelma Schoonmaker, o ritmo dinâmico de algumas passagens não impede o espectador de contemplar o excelente design de produção de Henry Bumstead, captado e apresentado por meio da direção de fotografia de Freddie Francis, eficiente no uso dos enquadramentos, na composição temporal dos planos e na movimentação sofisticada.

Diante do exposto, Cabo do Medo dialoga com temas complexos e polêmicos, tais como estupro e o tabu das relações sexuais, além de trazer a insegurança diante de uma polícia ineficaz, uma esposa para ser decifrada, dentre outros elementos que ressoam do legado hitchcockiano. Com sua masculinidade testada diante dos desafios múltiplos, o personagem de Nick Nolte viverá momentos de instabilidade física e emocional, além da sensação de impotência em ter que enfrentar a soma de todos os seus medos, numa situação que o faz sentir-se o “homem errado”, salvas as suas devidas proporções, afinal, o termo oriundo dos filmes de Hitchcock possui significados mais abrangentes.

A sua filha é tão distante e apática quanto a filha de Lester em Beleza Americana. A esposa, insatisfeita, exala a possibilidade adultério por todos os poros. É nesse clima de tensão que o personagem segue a sua vida, ameaçada pela onipresença de Max Cady, cada vez mais adaptada para o contato físico, anunciado entre o meio e o desfecho, através da histérica e sensacional trilha sonora, orquestração do horror ideal para o embate na curva dramática numa região pantanosa. Dentre tantos filmes retratados por homenagens visuais, narrativamente, Cabo do Medo está bem próximo de Frenesi, penúltimo suspense de Hitchcock. Na produção, o cineasta avança no sexo e sangue velados anteriormente, haja vista os códigos de censura, numa trama que retrata um assassino solto em Londres. Reviravoltas, um personagem no lugar e hora errada, além do espectador como agente ativo da condução dos conflitos.

Caso conheça outros filmes de Hitchcock, perceberá referências que ilustram a maneira adequada de um cineasta homenagear um antecessor brilhante. Observe a cena de caminhada da personagem de Juliette Lewis em direção ao fatídico encontro com o antagonista: é uma adaptação da famosa passagem de um corredor que esconde o indesejável em O Homem Que Sabia Demais. Algumas posturas da personagem de Jessica Lange nos remete diretamente ao comportamento e postura cenográfica de Marnie – Confissões de Uma Ladra. A polêmica cena de erotismo velado em A Sombra de Uma Dúvida ganha ressonâncias explícitas em Cabo do Medo, passagem que causa repulsa e ao mesmo tempo curiosidade, principalmente se fosse algo realizado na atualidade, mergulhada em discussões sobre a exaltação ficcional da cultura do estupro.

O que dizer da virada da suposta empregada de um personagem? A referência ao encontro da personagem de Vera Miles com o que restou da Sra. Bates no porão da casa de Norman em Psicose é acionada de imediato. Não é um feixe de referências vulgares e sem função narrativa. Isso torna o filme digno de se manter entre os melhores filmes de suspense da década em que foi lançado. Em 2010, Scorsese voltou a emular Alfred Hitchcock em Ilha do Medo, suspense baseado no romance de Denis Lehane. A atmosfera paranoica e os enquadramentos do realizador de Psicose, Janela Indiscreta e Disque M Para Matar, dentre outros, compõem a linguagem audiovisual proposta e trabalhada pelo cineasta em Cabo do Medo e retomada por outros realizadores ao longo dos anos 1990, época fértil para releituras, refilmagens, referências equivocadas e plágios da obra hitchcockiano. Se você já assistiu Invasão de Privacidade ou Um Crime Perfeito, por exemplo, saberá do que estou falando.

Cabo do Medo (Cape of Fear/Estados Unidos, 1991)
Direção: Martin Scorsese
Roteiro: James R. Webb, Wesley Strick
Elenco: Nick Nolte, Robert De Niro, Jessica Lange, Juliette Lewis, Catherine Scorsese, Charles Scorsese, Craig Henne, Domenica Cameron-Scorsese, Edgar Allan Poe IV, Elizabeth Moyer, Forest Burton, Fred DaltonThompson, Gar Stephen, Gregory Peck, Illeana Douglas, Jackie Davis
Duração: 128 min.

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.