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Crítica | Caçada ao Outubro Vermelho

por Ritter Fan
468 views (a partir de agosto de 2020)

estrelas 4,5

Jack Ryan é um analista militar da C.I.A. criado pela mente do romancista americano Tom Clancy (falecido em 2013), especializado em obras de tons militarísticos. De certa forma, assim como James Bond é o alter-ego de Ian Fleming, Ryan é o alter-ego de Clancy, ainda que o autor nunca tivesse efetivamente se envolvido em espionagem como Fleming. No entanto, como historiador e graduado em literatura, ele embarcou, em seu tempo livre, enquanto trabalhava em uma seguradora (que viria a adquirir mais tarde), no hábito de escrever.

Seu primeiro livro foi exatamente Caçada ao Outubro Vermelho, publicado em 1984, em que criou Jack Ryan como um herói circunstancial e não por vocação. Ryan raramente se envolve em ações de campo. No entanto, suas análises arriscadas, mas normalmente certeiras, acabam levando-o para o centro da ação.

O filme, dirigido por John McTiernan, que domina ação como poucos (dirigiu ícones oitentistas como O Predador e Duro de Matar), é um filho dessa década, ainda que ele tenha sido lançado em 1990. A trama é recheada de heróis e vilões – sem tons de cinza – e com fortes pitadas de crítica ao comunismo, daquelas bem simples e objetivas que nos fazem revirar os olhos (ainda que todas procedentes, vejam bem!). No entanto, é mesmo o material estratégico retirado do livro de Clancy que acaba elevando essa fita para além da “ação descerebrada” que poderíamos esperar, transformando-o em um pequeno clássico que merece ser relembrado.

Para começar, grande parte da ação se passa dentro de submarinos. Ou estamos no Outubro Vermelho do título, enorme submarino nuclear russo comandado por Marko Ramius (Sean Connery) ou no menor, mas ágil USS Dallas, comandado por Bart Mancuso (Scott Glenn). E todos nós sabemos como é difícil fazer um filme de ação engajantes dentro de ambientes confinados como esses.

McTiernan trabalha uma câmera que está sempre “no meio” da ação, fazendo o espectador participar desde a mais prosaica refeição dentro do Outubro Vermelho até a tensão da sala do sonar do Dallas. Com isso, efetivamente participamos da ação e da tensão e conseguimos nos identificar com um grande número de personagens, sejam eles russos ou americanos. Sem dúvida alguma, porém, é Sean Connery que facilita e humaniza essa selva de botões e de linguagem hermética de navegação de submarinos e navios. Sua presença literalmente comanda todas as sequências em que está presente, quase fazendo de Jack Ryan (Alec Baldwin) um mero coadjuvante em seu próprio filme.

Mas essa foi uma escolha acertada. Precisávamos de um mecanismo que nos fizesse torcer por Ramius e a escalação de Connery foi precisa. E isso se torna tanto mais importante quando notamos que o efetivo protagonista, Ryan, é vivido por Baldwin que, naquela época, ainda lutava para se fixar como um astro. Além disso, pela já mencionada “passividade” de seu personagem, que trabalha muito mais com o cérebro do que com os punhos, o desvio da atenção para Ramius foi uma escolha inteligente de McTiernan.

Em termos de roteiro, Larry Ferguson (Highlander – O Guerreiro Imortal) e Donald Stewart (Desparecido – Um Grande Mistério) conseguem eficientemente reduzir o peso do jargão militar que carrega a obra de Clancy para algo perfeitamente palatável ao espectador, sem fazer uso exagerado de diálogo expositivo. Aprendemos que Ramius pretende desertar para os EUA, levando o Outubro Vermelho consigo, um submarino como “motor de esteira” absolutamente silencioso e, portanto, indetectável por sonar e perfeito para ser instrumento de “primeiro ataque” durante a Guerra Fria (o filme se passa em 1984). Diferente do que se pode imaginar – e do que provavelmente seria feito nos dias de hoje – as razões por trás dessa decisão de Ramius não são esmiuçadas no roteiro, mas sim apenas deixadas para a conclusão do espectador. Apenas a análise estratégica de Ryan é explicada, mas, mesmo assim, dentro de uma estrutura narrativa natural, já que ele tem que convencer os militares e políticos americanos que a intenção de Ramius é mesmo desertar e não atacar independentemente os Estados Unidos.

O elenco de apoio também ajuda muito nossa identificação com os personagens. Sam Neill como Vasili Borodin, o imediato braço-direito de Ramius e James Earl Jones como o Almirante Greer, chefe de Ryan, são muito convincentes em seus respectivos papeis, assim como Tim Curry, Scott Glenn e Stellan Skarsgård. Também vale especial destaque para o brilhante operador de sonar Jones (Courtney B. Vance) que traz um lado fortemente humano para a rigidez da operação militar em seu submarino (o USS Dallas).

A poderosa trilha sonora de Basil Poledouris (Conan – O Bárbaro) sabe quando elevar a tensão ou apenas contribuir discretamente para a tensão que permeia toda a película. É um de seus grandes trabalhos, ainda que relativamente pouco conhecido.

Caçada ao Outubro Vermelho é a melhor introdução possível ao universo “ryanesco” criado por Tom Clancy e o verdadeiro patamar que os filmes seguintes tentariam alcançar, sem o mesmo resultado.

Caçada ao Outubro Vermelho (Hunt for Red October, EUA – 1990)
Direção: John McTiernan
Roteiro: Larry Ferguson, Donald Stewart (baseado em romance de Tom Clancy)
Elenco: Sean Connery, Alec Baldwin, Scott Glenn, Sam Neill, James Earl Jones, Joss Ackland, Richard Jordan, Peter Firth, Tim Curry, Courtney B. Vance, Stellan Skarsgård, Jeffrey Jones, Timothy Carhart
Duração: 134 min.

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3 comentários

Diogo Maia 4 de outubro de 2020 - 13:46

Gosto muito do trabalho do McTiernan, mas este aqui talvez seja seu filme mais fraco. Ele dirige bem as cenas de ação, que sempre são difíceis de filmar dentro de espaços apertados como os interiores dos submarinos, e a direção dos atores é adequada, mas uma obra que se baseia ufanisticamente numa deserção de um oficial da marinha da União Soviética, que sonha em passar o resto da vida pescando nos Estados Unidos, é, no mínimo, constrangedora. Ponto para o Sean Connery, que mesmo com aquele sotaque todo, consegue se passar bem por um experiente militar da Lituânia.

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planocritico 4 de outubro de 2020 - 13:48

Não vejo nada de ufanista nisso. É a realidade. Houve vários casos de deserção de oficiais da União Soviética, de gente comum fugindo de Cuba, tudo para morar nos EUA ou outros países sem ditaduras…

Abs,
Ritter.

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Diogo Maia 4 de outubro de 2020 - 22:53

Mas vindo do Tom Clancy, sei não…

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