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Crítica | Caçadores de Duna, de Brian Herbert e Kevin J. Anderson

por Ritter Fan
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Fui apresentado à hexalogia Duna, de Frank Herbert, ainda adolescente, não muito tempo depois do falecimento do autor e devorei os livros todos apesar de sua complexidade. De forma a trazer as críticas para o site, assumi a tarefa de relê-los décadas depois e considerei minha missão completamente cumprida, pois jamais me passou pela cabeça ler – e muito menos escrever – os livros co-escritos por Brian Herbert, filho de Frank, e Kevin J. Anderson, em um projeto ambicioso iniciado na forma de prelúdios, com o primeiro, Casa Atreides (House Atreides), lançado em 1999. A razão do meu desinteresse? Puro preconceito, sou o primeiro a admitir, o mesmo preconceito que me impede de ler obras de Sherlock Holmes escritas por pessoas diferentes de Arthur Conan Doyle e assim por diante.

Foram necessários muito tempo e um desaforado desafio de meu colega Kevin Rick como parte de um projeto de cobertura máxima desse universo em razão da nova adaptação cinematográfica de Denis Villeneuve, para que eu, mesmo resmungando e esperneando, encarasse não os prelúdios (quem sabe um dia?), mas sim os dois livros que a dupla de escritores lançou em 2006 e 2007 para encerrar a saga iniciada em 1965 com Duna e deixada em aberto e com um gigantesco cliffhanger em 1985 com Herdeiras de Duna. Segundo Brian Herbert, as linhas gerais do que acabaria sendo Caçadores de Duna (Hunters of Dune) e Vermes da Areia de Duna (Sandworms of Dune) vieram de algo como duas páginas escritas por seu pai que ele achou entre o material que herdara. Se isso é verdade, jamais descobriremos. E, se for, restaria saber que nível de detalhe havia nesse material, algo que também nunca saberemos, mas pelo menos pode-se dizer que existe um final para o épico, o que talvez seja melhor do que nenhum.

Claro que meu preconceito reinou no começo da leitura de Caçadores de Duna, o primeiro volume da chamada Dune Sequels (cada projeto multi-volume de Herbert e Anderson tem uma denominação dessas), pelo que devo logo começar por um conselho óbvio, mas mesmo assim importante: o leitor que se aventurar por esses volumes deve, para ter chance de apreciá-los, despir-se de qualquer ideia de que está lendo algo que mesmo de longe faça a mímica do estilo literário de Frank Herbert. Quando já estava para acabar a leitura, concluí que Brian Herbert e Kevin J. Anderson fizeram bem em imprimir seu próprio estilo narrativo, até porque tentar chegar no nível do mestre não é algo aconselhável para meros mortais e poderia soar artificial e pedante.

Portanto, logo de largada, ainda que o livro comece imediatamente após o final de Herdeiras de Duna (ok, três anos depois, mas é um intervalo de tempo curtíssimo, considerando os milhares de anos que se passaram desde a chegada dos Atreides em Arrakis), Caçadores de Duna é, apenas, um romance de ficção científica e não um romance de ficção científica, se é que me entendem. No lugar da espetacular filosofia de Frank Herbert e da forma quase poética com que ele escrevia seus textos, deixando tudo muito mais no campo das ideias, das suposições e das meias-palavras que precisavam ser quase que estudadas com paciência para que houvesse alguma chance de serem efetivamente compreendidas, o que o supostamente sétimo volume da saga oferece é algo muito mais objetivo e mastigado, sem que Brian e Kevin deixem espaço para elucubrações por parte dos leitores. É o “pão pão queijo queijo” literário do cotidiano sci-fi que tantos outros autores escrevem como em uma linha de montagem, com o evidente diferencial de tudo ser decorrente do absolutamente fascinante universo criado e desenvolvido por décadas pelo autor original.

E isso não é, vejam bem, um demérito. Claro que eu gostaria de ter lido o final da saga nas palavras do próprio Fran Herbert. Quem não gostaria, não é mesmo? Mas o ponto é que isso infelizmente não é possível e Caçadores de Duna, apesar de muito claramente ser uma história mais acessível para o publico geral, ou seja, uma espécie de denominador comum, ainda oferece uma continuidade lógica para os acontecimentos de Herdeiras de Duna, com a separação da narrativa em diversos núcleos que mantem-se separados durante todo o romance: há, grosso modo, o núcleo da nave batizada de Ithaca que foge de Chapterhouse ao final do romance anterior com a autointitulada Madre Superiora Sheeana no comando de outras Bene Gesserits, os gholas Duncan Idaho e Miles Teg, o último mestre Bene Tleilax Scytale e o grupo de judeus refugiados, além de alguns vermes da areia e quatro Futars; o núcleo no próprio planeta Chaptershouse com a também autointitulada Madre Comandante Murbella que continua em sua incessante e perigosa tarefa de reunir as Bene Gesserit e as Honradas Matres em uma irmandandade só, gerando naturais e algumas vezes insanáveis conflitos internos; o núcleo quase solitário composto por Uxtal, um dos Tleilaxu Perdidos que voltaram da Dispersão, que passa a ser basicamente escravo dos Dançarinos Faciais que ganharam desenvolvimento próprio, em um projeto de criação de novos gholas no que restou de Tleilax, agora comandado pela Honrada Matre Hellica.

Mas, como pano de fundo onipresente, há as duas misteriosas figuras que Frank Herbert apresentou ao final de Herdeiras de Duna, o casal de idosos Daniel e Marty que, diz a lenda, representam a forma como Frank Herbert e sua esposa Beverly, que foi parte fundamental na criação da saga, observam o mundo. Eles perseguem a Ithaca pelo universo, forçando Duncan e Miles a usarem o motor de dobra da nave na base do instinto para escapar da “rede” que eles lançam e também representam o Inimigo contra quem Murbella quer tanto se preparar, com a reunião das Bene Gesserit e Honradas Matres sendo parte de um plano maior que inclui a aquisição de enorme quantidade de equipamentos bélicos que ela paga com a agora muito rara especiaria (já que a tecnologia dos Tleilaxu para a fabricação artificial da substância se perdeu, existindo apenas na Ithaca) de seus reservatórios e do que é fabricado naturalmente pelos ainda jovens vermes da areia em uma Chapterhouse em constante processo de desertificação.

O que os autores procuram fazer em Caçadores de Duna é revelar todos os grandes segredos da saga para preparar o leitor para o grande final no livro seguinte. Com isso, eles fazem de tudo para abordar cada questão que permanece “misteriosa”, especialmente a fascinante origem das Honradas Matres, talvez a mais bem desenvolvida ideia da obra e que se encaixa tão perfeitamente com todo o restante que eu não ficaria surpreso se isso – e apenas isso – fosse oriundo das anotações de Frank Herbert achadas por seu filho. Mas os Futars são também abordados, assim como o próprio Inimigo, esta em uma revelação que cria um movimento circular interessante, mas que talvez exija a leitura dos prelúdios de Brian Herbert e Kevin J. Anderson e, por isso, não funcionam tão bem aqui. Mas, no afã de tornar tudo muito didático e compreensível sem que o leitor tenha que pensar sequer por um segundo (o tal denominador comum que mencionei mais acima), eles inegavelmente se perdem em explicações redundantes e cansativas que só realmente aumentam o número de páginas sem maiores justificativas como quando o processo de criação de gholas é abordado (mesmo que eles sejam elementos fundamentais deste volume e literalmente preparam o que está por vir). Além disso, há personagens que tem função duvidosa na narrativa como as duas reverendas madres – uma Bene Gesserit e outra Honrada Matre – que são forçadas a trabalhar juntas por Murbella e que ganham enorme destaque sem nenhuma função narrativa clara e que avançam até certo ponto somente para então pararem de ser utilizadas na história em decisões estranhas e frustrantes.

Pode-se dizer, sem medo de errar, que Caçadores de Duna não é mais do que um prelúdio para o fim feito por dois escritores esforçados, uma forma que os autores encontraram para arrumar o tabuleiro para os embates finais nesse fascinante futuro distante. E eles surpreendentemente cumprem bem essa função, com uma leitura fluida, mas também talvez fácil e explicada demais que o leitor dos livros de Frank Herbert simplesmente terá que compreender como sendo o final possível diante das circunstâncias. O que ficou mesmo para mim como uma lição é que o preconceito bobo que eu tinha, originado de purismo e lealdade ao autor original, não tinha razão de ser. Brian Herbert e Kevin J. Anderson podem não chegar aos pés da qualidade narrativa de Frank Herbert, mas existe uma inegável satisfação em ver uma grande obra ganhar um penúltimo capítulo que consegue fazer jus ao que veio antes de sua própria maneira.

Caçadores de Duna (Hunters of Dune – EUA, 2006)
Autores: Brian Herbert, Kevin J. Anderson (baseado em obras de Frank Herbert)
Editora: Tor Books
Data de lançamento: 17 de outubro de 2006
Páginas: 644

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