Crítica | Cadáver (2018)

Em Possessão e Exorcismo: Da Prática do Jesus Histórico a Atualidade, o pesquisador Irineu José Rabuske afirma que desde os tempos mais remotos do pensamento humano, existem formas diferenciadas de possessão (demoníaca). Paralelos existiam, também, desde os tempos imemoriais, mecanismos de defesa contra a possessão, entre eles o exorcismo. Para o especialista, os demônios e seu mundo não só constituem um aspecto da Teologia ou da doutrina cristã, mas também povoam o universo cultural que se desenvolveu nos dois últimos milênios de nossa história.

Cadáver, dirigido por Diederik Van Roojjen, cineasta que teve como base o roteiro de Brian Sieve, pega carona neste “universo” cultural, mas ao contrário dos bons exemplares do subgênero “exorcismo”, comete mais heresias que o demônio que habita o corpo da possuída Hannah Grace (Kirby Johnson). O enredo do filme é simples, com uma proposta diferenciada, renegada logo na abertura do filme, uma colagem de tudo que já vimos antes: corpos flutuantes, objetos consagrados desrespeitados, um padre, juntamente com um pai e seu assistente, a tentar salvar ao menos a alma de uma pobre garota possuída.

Sem querer cometer os vícios de parte da crítica cinematográfica contemporânea, incoerente ao exigir que um filme sempre apresente argumentos “novos”, reforço que nem sempre é preciso descobrir fórmulas inéditas para que uma produção seja minimamente interessante, no entanto, torna-se necessário saber utilizar bem elementos já saturados. A franquia Invocação do Mal é um bom exemplo do uso de imagens clichês com revestimento próprio, personagens esféricos e necessidades dramáticas mais profundas, além do excelente exercício da linguagem cinematográfica, o que não acontece em Cadáver.

A produção abre com o exorcismo da garota citada anteriormente e depois do festival de efeitos sem qualquer impacto no espectador já conhecedor da temática, corta para a protagonista Megan Reed (Shay Mitchell), policial “afastada” por conta de problemas com álcool e drogas. Em busca de tranquilidade e silêncio, Reed aceita uma oferta para trabalhar no necrotério de um hospital. Sem a agitação das ruas acometidas pela violência urbana, a jovem tem a oportunidade de repensar a sua vida e retomar a trajetória desvirtuada por conta do vício.

Da sua casa ao necrotério, o diretor de fotografia Lennert Hillege investe em enquadramentos e movimentos burocráticos, num trabalho de iluminação que investe no perfil psicológico da protagonista, repleto de cenas de pouca iluminação e estabelecimento de uma atmosfera sombria ao longo de quase todos os 86 minutos de filme. Destaque para a cenografia de Kim Leoleis, cuidadosa na concepção do espaço de recepção dos corpos sem vida, numa demonstração da eficiência do design de produção gerenciado por Paula Loos, infelizmente sem força para delinear o caráter dramático da “heroína” interpretada por Shay Mitchell, já com “defeito de fabricação” desde a concepção do roteiro.

Certa noite, Reed precisa dar entrada no corpo de uma jovem repleta de marcas profundas, como se alguém tivesse tentado esquartejar a sua “carcaça” para uma distribuição macabra das partes do corpo. Nós, detentores das informações necessários, sabemos se tratar do cadáver de Hannah Grace, a garota da abertura do filme, vítima de um ritual de exorcismo mal sucedido, o que pode ter permitido a presença da entidade no corpo mesmo depois da morte. Ao passo que o corpo começa a se reconstituir, a policial acredita estar adentrando num bifurcado caminho de alucinações. Como fazer as pessoas acreditarem em sua história, haja vista o histórico com drogas?

É aí que entra o paciente namorado Andrew Kurtz (Grey Damon), “afastado” do relacionamento prejudicado pela mesma situação que danificou as atividades profissionais da policial. Apesar dos problemas, ele é atencioso, gentil e bem formulado pelo roteiro, numa história que curiosamente delineia melhor os coadjuvantes, mas esquece de deixa-los mais tempo em cena, o que também prejudica a história carregada por uma protagonista com menos “pulsão” que o cadáver que se recompõe. Tudo isso, culpa do roteiro de Brian Sieve, já irregular desde a concepção da série Scream, versão televisiva da franquia Pânico.

Mecânica e forçada, a história avança rumo ao desfecho que pretende ser surpreendente, mas que só reforça a fragilidade do material dramático geral. Lotado de cenas com jumpscare, Cadáver é também uma prova cabal dos problemas oriundos da realização contemporânea de materiais de divulgação, responsáveis por entregar as “melhores cenas” dos filmes já nos trailers, o que impede qualquer surpresa quando a história é contada ao público. Surpreendente como é mais assustador ler a matéria sobre o coveiro que matou a esposa e enterrou junto ao corpo do “cliente” que sepultava, ou então, o misterioso sumiço da cabeça de um morto, decapitado num necrotério em Nova Iorque, em 1986. Isso sim é história de cadáveres! Medo e calafrios certeiros.

De volta ao que reflete o pesquisador Irineu José Rabuske, a presença do exorcismo como tema na contemporaneidade demarca a persistência de uma estrutura demonológica de cunho quinhentista/seiscentista que geralmente acomete mulheres, justamente numa época conhecida pela “liberação feminina”. Madre Joana dos Anjos, Regan MacNeil, Emily Rose, Hannah Grace, dentre outras, mulheres acometidas pela presença de entidades demoníacas que assumem o comando de seus corpos aparentemente vulneráveis, o que permite uma discussão interessante, fruto de nosso subtexto cultural, algo que Cadáver não consegue dialogar adequadamente para embasar uma reflexão.

Cadáver (The Possession of Hannah Grace/Estados Unidos – 2018)
Direção: Diederik Van Rooijen
Roteiro: Brian Sieve
Elenco: Adrian M. Mompoint, Arthur Hiou, Gijs Scholten van Aschat, Grey Damon, J.P. Valenti, Jacob Ming-Trent, James A. Watson Jr., John Sarnie, Kenneth Israel, Kirby Johnson, Larry Eudene, Lexie Roth, Louis Herthum, Maximillian McNamara, Mickey Gilmore, Ralph Ayala, Shawn Fitzgibbon, Shay Mitchell, Stana Katic
Duração: 86 min

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.