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Crítica | Cadê Você, Bernadette?

por Gabriel Carvalho
111 views (a partir de agosto de 2020)

“Você acha que está chato agora? Então, apenas fica mais chato.”

Mesmo que ambos carreguem virtudes notórias, Bernadette (Cate Blanchett), assim como o longa-metragem que protagoniza, é problemática. Dentre as suas qualidades, ao mesmo tempo que ela se comporta como a melhor amiga de sua filha, Bernadette guarda em sua cabeça a genialidade de uma arquiteta sem precedentes. Uma conversa rápida entre a personagem e uma estranha aponta essa grandeza da mulher, por meio de uma boa sugestividade, porém, que se desmancha posteriormente, quando a exposição gratuita de seu triste passado ganha mais peso. Entretanto, a rispidez no comportamento da protagonista atua em paralelo com o seu cotidiano, cada vez mais prejudicado por uma depressão tão silenciosa quanto escandalosa – os problemas com as demais mães e o contato confessional com uma completa estranha marcam isso. Bernadette chega ao ponto, como o filme contextualiza bem, de ser má, embora essa caracterização não diminua o grau de empatia que se constrói entre espectador e personagem. Bernadette, antes de qualquer coisa, é uma pessoa perdida, que precisa se encontrar – e ser encontrada também, após sumir do nada. Logo, de todas as possíveis complicações que o seu longa, uma adaptação da obra de Maria Semple, termina enfrentando, ao menos mantém-se um carinho pela protagonista e suas dores em um campo dramático competente, que engrandece – mais outra vez – o talento por trás da direção.

Dentre os problemas carregados pelo terceiro longa-metragem que Richard Linklater dirige depois do grande sucesso conquistado com Boyhood: Da Infância à Juventude, sua estrutura narrativa é o maior. Para uma obra que começa tratando do desaparecimento de Bernadette, justo a premissa do longa-metragem, o que surge depois da primeira cena é decepcionante. Ora, com o começo do filme – numa cena da mulher na Antártida, mas sem rumo -, e o voice-over de Emma Nelson, que interpreta a filha da artista, o que se entende é uma busca dos que amam Bernadette por ela. No entanto, esse segmento do enredo só retorna bem mais tarde, em vista de um rejeito por se construir trama a partir dele. Nem o voice-over de Bee consegue manter coerência, representando, contudo, um didatismo excessivo que contraria o minimalismo de Linklater. As pequenas cenas, as menores decisões, são as suas mais competentes no fim das contas. De qualquer maneira, esse projeto, com várias desventuras pela Antártida, é um passo curioso na carreira do cineasta. Essa rápida amostra do que está por vir para a personagem perde lugar, porém, para um esquema procedural mais simples. Parece que alguém mexeu na montagem. O longa, então, retorna ao passado, mas já sabendo do que o aguarda, sem grandes surpresas no caminho no que tange a sua protagonista, que esperneia uma necessidade por ajuda sem conseguir realmente expressá-la.

Os relacionamentos da personagem enquanto mãe e esposa são essenciais para o drama, mesmo que, no fim das contas, seja o relacionamento da mulher consigo o que precisa ser encontrado. Quando, no encerramento, Linklater explora o que os principais coadjuvantes, tanto Bee quanto o marido Elgin (Billy Crudup), sentem por Bernadette naquele momento, comprova-se uma riqueza sentimental explorada pelo cineasta. O papel de Crudup, por sinal, é precioso para complexar as emoções e razões em jogo, em especial numa cena de confronto num restaurante. De um possível arquétipo narrativo – o marido que se distancia -, a obra o reinventa para alguém tão parte quanto do caos familiar – embora a sua trama particular seja menos empolgante. Mesmo com engasgos, Linklater, no entanto, consegue concretizar o seu propósito derradeiro, que é o arco narrativo da personagem principal. Os demais coadjuvantes, como a garota que não aceita que sua maior amiga seja problemática, por sua vez, assessoram a mãe, esposa e artista que Bernadette é a ser quem ela é, precisando passar por um processo prático e extremamente complicado: procurar ajuda. O desmoronamento nas relações interpessoais de Bernadette, como a sua inércia perante a sua própria natureza problemática, é encenado minuciosamente por Linklater, partindo do cachorro que se aprisiona sem querer em um armário, até chegar na fuga que impulsiona a jornada contada.

Em suma, Cate Blanchett precisa convencer como uma personagem excêntrica, mas, ao mesmo tempo, extremamente depressiva – uma caracterização que, em certos casos, por parte de outros cineastas, recai para o campo da caricatura. A artista, por sua vez, desenvolve sua personagem com nuances que a torna crível, como, por exemplo, quando ela enfim demonstra um conforto perante o ambiente ao seu redor. De alguém extremamente constrangida em estar em meio a pessoas ou agressiva frente a outras que querem a ajudar ou querem ajuda dela, Blanchett cresce em conjunto com Linklater, que é um cineasta conhecido por sustentar conversas entre pessoas. Por sinal, os monólogos de Cate, mesmo que reiterados algumas vezes e estruturados pela ótica da verborragia, capturam parte do excelente processo de construção da personagem. Linklater retira o cerne do seu longa de conversas conduzidas com extrema precisão por ele, tanto num âmbito particular a Bernadette, no que se refere a exemplificar os sentimentos dela, quanto no contexto familiar complexo, permeado por um desencontro entre pessoas que moram, na verdade, juntas. Num pequeno filme, que não ganhará o espaço de outros projetos de Linklater e nem de Blanchett, o diretor repete o que tão bem propiciou em demais momentos de sua carreira. Cate Blanchett – como se isso fosse alguma novidade – é um monstro, mas Richard Linklater também é.

Cadê Você, Bernadette? (Where’d You Go, Bernadette) – EUA, 2019
Direção: Richard Linklater
Roteiro: Richard Linklater, Vincent Palmo Jr., Holly Gent Palmo (adaptado de obra de Maria Semple)
Elenco: Cate Blanchett, Emma Nelson, Billy Crudup, Kristen Wiig, Judy Greer, Laurence Fishburne, Troian Bellisario, Jóhannes Haukur Jóhannesson, James Urbaniak
Duração: 103 min.

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