Crítica | Cadernos Negros – Os Melhores Poemas

Representação da militância da comunidade intelectual negra no Brasil, nação onde o racismo se espalha como um rizoma e ganha dimensões gigantescas, Cadernos Negros – Os Melhores Poemas é o ar fresco necessário para a respiração da cultura dos afro-brasileiros, sufocada há eras pelo preconceito social e racial que frequentemente se instala nas dinâmicas sociais. Com poemas que fazem uma profunda reflexão sobre a situação do homem negro e da mulher negra, a coletânea traz poemas que versam sobre fome, feminismo, exclusão social, violência urbana, dentre outras discussões relevantes.

Um detalhe que vale ressaltar, no entanto, é o tom esperançoso da obra. Há traços de tristeza, decepção, mágoa e dor nas exaltações líricas, mas a sensação geral é de paixão, compreensão de que as coisas podem em algum momento melhorar, isto é, a indicação de que é preciso manter a luta como meta constante. Outro detalhe: é política, mas não deixa de ser artística, como bem delineia o ensaísta Luiz Silva em O Leitor e o Texto Afro-brasileiro. A primeira versão da coleção, publicada em 1978, veio na esteira de alguns protestos que culminaram na tiragem anual, alternada entre poemas e contos que refletem as condições da população negra.

Eu-Mulher, de Conceição Evaristo, aparece como um dos grandes destaques. Em 2018, a professora, pesquisadora e escritora perdeu a vaga na Academia Brasileira de Letras para Cacá Diegues, numa escolha polêmica e complexa, mas na “ousada” versão do Exame Nacional do Ensino Médio deste mesmo ano, surgiu homenageada na capa das provas de Códigos, Linguagens e Suas Tecnologias. Respeitada e premiada nacionalmente, Evaristo assina um dos poemas mais marcantes da coletânea que em sua totalidade, contrapõe-se aos parâmetros da literatura legitimada que atende aos padrões eurocêntricos comuns à dialética da produção-consumo de literatura brasileira.

Há, na primeira estrofe, palavras como “leite”, “sangue” e “seio”, palavras que nos remetem ao que se discute sobre a questão feminina, isto é, a mulher negra como uma máquina reprodutora de escravos, silenciadas constantemente pelo homem machista e pela sociedade. Em sua escrita libertária, Conceição Evaristo deixa transparecer a necessidade da mulher em vislumbrar outras possibilidades para a sua existência, reforçadas em sua escrita literária.

Outro poema que merece destaque é Linhagem, de Carlos de Assumpção, poema que retrata a constante batalha dos africanos ancestrais que resistiram em muitas lutas em prol de suas respectivas condições precárias diante da presença do homem branco opressor. Com traços históricos que podem fazer referências aos conflitos de Palmares, o poema entrelaça a desigualdade racial e social dos negros em nossa sociedade.

É Tempo de Mulher, assinado por Cuti, analisa a busca das mulheres negras por amor e espaço no mundo masculino, repleto de posturas opressoras e fincadas na segregação.  Para o poeta, a literatura negra produzida por mulheres é uma estratégia ousada que busca driblar duas barreiras desafiadoras: a raça e o gênero, numa trajetória marcada pela subjetividade, caminho percorrido por mulheres que partilham experiências de segregação.

Esteticamente, podemos ressaltar a musicalidade dos versos, muitas vezes carregados do peculiar ritmo oriundo das tradições africanas. Erguido pela memória dos responsáveis pelas composições poéticas, Cadernos Negros – Os Melhores Poemas é uma valiosa seleção que leva em consideração a importância da comunidade afro-brasileira na constituição do Brasil enquanto “nação imaginada”, numa abordagem focada na dimensão social e histórica de um dos povos que faz parte do nosso caldeirão multicultural.

Com prefácio de Benedito Cintra e introdução de Cuti, a coletânea traz o lirismo de Abelardo Guimarães, Celinha, Éle Semog, Esmeralda Ribeiro, Jamu Minka, Jônatas Conceição, Jorge Siqueira, Landê Onawale, Lepê Correia, Lia Vieira, Marcio Barbosa, Mirian Alves, Oliveira Silveira, Oswaldo de Camargo, Oubi Inaê Kibuko, Sônia Fátima, Teresinha Tadeu e Waldemar Euzébio Pereira. Com projeto editorial da Quilombhoje, Cadernos Negros – Os Melhores Poemas é um conjunto de poesias fundamentais para a compreensão da “questão” da população negra na contemporaneidade, numa associação lúdica com o passado para o entendimento dos mecanismos que engendram o presente.

Cadernos Negros – Os Melhores Poemas (Brasil, 1998)
Autor: Vários
Editora: Editora Quilombhoje
Páginas: 144

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.