Crítica | Cães de Aluguel (Trilha Sonora Original)

Cães de Aluguel (Trilha Sonora Original)

Cães de Aluguel é a primeira incursão industrial de Quentin Tarantino no cinema. No filme, um grupo de homens combinam um roubo espetacular, mas as coisas dão erradas e um clima de paranoia e desconfiança se estabelece. Da famosa cena de tortura aos flashbacks memorialísticos, o cineasta emprega o seu tom ácido, primeira etapa da famosa cinefilia que geralmente acompanha a estruturação e desenvolvimento de seus filmes. As trilhas sonoras de suas obras de arte audiovisuais são pensadas com bastante cautela, numa busca por maior emissão de traços narrativos que colaborem com a estetização da experiência. Cães de Aluguel, assim como todos os filmes de Tarantino após a sua explosão midiática, são filmes de culto.

A produção, por sinal, abriu as portas para a torrencial sequencia de filmes independentes no bojo da produção estadunidense. Particularmente, considero o filme sexista, homofóbico, racista, dentre outras nomenclaturas que designam uma narrativa que deve ser pensada além de seus aparatos estéticos, mas também no que concerne as suas dimensões receptivas. No entanto, para o desenvolvimento da análise musical do filme, manterei o olhar direcionado para os aspectos conteudistas e de ordem artística, tendo em vista não me desviar do foco estabelecido. Diante do exposto, vamos aos aspectos informativos. A trilha sonora traz elementos da era disco, country, R&B, funk, pop-rock, soul music e outros gêneros musicais, dominantes no tecido narrativo de Cães de Aluguel, um filme agressivo, tanto nas temáticas quanto nas dimensões audiovisuais.

As seguintes faixas compõem o álbum: “And Now Little Green Bag…” (performance extraída do diálogo de Steven Wright), “Little Green Bag” (The George Baker Selection), “Rock Flock of Five” (também extraída do diálogo de Steven Wright), “Hooked on a Feeling” (Blue Swede), “Bohemiath” (outra extração do diálogo de Steven Wright), “I Gotcha” (Joe Tex), “Magic Carpet Ride” (Bedlam), “Madonna Speech” (performance extraída do diálogo de Quentin Tarantino, Edward Bunker, Lawrence Tierney, Steve Buscemi e Harvey Keitel), “Fool for Love” (Sandy Rogers), “Super Sounds” (mais uma mixagem com diálogo de Steven Wright), “Stuck in the Middle with You” (Stealers Wheel), “Harvest Moon” (Bedlam), “Let’s Get a Taco” (performance extraída do diálogo de Harvey Keitel and Tim Roth), “Keep on Truckin'” (Steven Wright em edição de diálogos) , “Coconut” (Harry Nilsson), e “Home of Rock” (Steven Wright, mais uma vez).

Em Little Green Bag, interpretada por George Baker Selection, estabelece o clima sonora da trilha com a presença da bateria, baixo elétrico, teclado, sintetizadores e vocais enunciando alguém que está “à procura de alguma felicidade”. A faixa situa-se na abertura, antes dos créditos, sendo reconhecida no geral pelos seguidores do subgênero pop-rock. No entanto, tornou-se largamente conhecida depois da presença em Cães de Aluguel. Hoje, a lista de incursões na cultura pop é imensa, indo da condução sonora em episódios dos Simpsons aos vídeos publicitários da Heineken e Toyota, empresas que exalam a atmosfera do filme de Tarantino, isto é, material “produzido por homens e para homens, com olhar dos homens”.

Ao longo de I Gotcha, de Joe Tex, adentramos na zona do funk, gênero oriundo das comunidades afro-americanas, com algumas remissões ao som de James Brown. No ritmo, encontramos a mescla de traços sonoros do jazz, da soul music, do rhythm and blues, num feixe de produções musicais que dependem da manipulação de diversos instrumentos, tais como clavinete, bateria, guitarra elétrica, sintetizadores de grave, dentre outros. Nos versos, imperativos como “você me faz uma promessa e agora vai cumpri-la” e “você não deveria ter prometido o que não ia cumprir” são colocações bem pertinentes com o conteúdo narrativo, confluente com os temas da música R&B, country e disco, típicas da formação musical de Joe Tex.

Ademais, a balada Harvest Moon, rock acústico de Bedlam, traz um breve momento de introspecção; Fool For Love, de Sandy Rogers, tocada brevemente numa cena de Mr. Orange em seu apartamento, reflete bem uma tensão dual do perfil dramático do personagem; e Coconut, de Harry Nilsson, deliciosamente irônica, oferta o contraste com o conteúdo do momento de sua execução na trama, mas dialoga em tom jocoso nos versos “doutor, não há nada que eu possa tomar para aliviar essa dor de barriga”, expressão que de alguma maneira se relaciona com o personagem alvejado do trecho em questão.

A presença do artista na trilha traz para Cães de Aluguel a sonoridade do pop barroco, do soft rock e do pop psicodélico, gêneros que gravitaram em torno da carreira de Nilsson. No caso do pop barroco, a mescla do rock com a música clássica permite o alcance de tons majestosos e orquestrais, repleto de gestos musicais dramáticos. Do soft rock, destacam-se a melodia exuberante, oriunda da região sul da Califórnia nos anos 1960. E por fim, no caso do pop psicodélico, temos a reflexão sobre a experiência consciente, num estilo musical profundo, demarcado pelo uso de técnicas da música indiana, tais como os “pedais” e a “raga”.

A trilha reflete o legado do filme: a violência das relações, o clima paranoico, a estetização das insatisfações, dentre outras possibilidades interpretativas. No álbum, podemos acompanhar os diálogos de Cães de Aluguel, mixados e reajustados para composição da trilha de um filme que abriu as portas para a entrada de um cineasta que ao longo de sua experiência como roteirista, ator e diretor, trouxe novas perspectivas estéticas e temáticas para oxigenação do ciclo viciado de produções no sistema de realização hollywoodiano.

Reservoir Dogs (Original Motion Picture Soundtrack)
Compositor:
Various Artists
País: EUA
Ano: 1992
Gravadora: MCA
Estilo: pop-rock, folk, funk, pop psicodélico, soul music

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.