Crítica | Cães de Aluguel

estrelas 4,5

É raro que o primeiro trabalho de um diretor em longa-metragem resulte não só em um filme inesquecível, definidor de seu tempo, como ele também acabar tornando-se uma espécie de padrão para todas as suas obras seguintes sem que, porém, frescor e originalidade deixem de se apresentar a cada novo lançamento. Cães de Aluguel, de Quentin Tarantino, é, sem medo de errar, um dos mais importantes débuts cinematográficos dos anos 90 e o filme-base para toda a filmografia de um dos melhores diretores americanos ativos.

Sei que, como é moda, muitos revirarão os olhos para o uso do termo “originalidade”, pois Tarantino notoriamente mais do que se inspira em obras cinematográficas anteriores, com Cães de Aluguel sendo, dentre outros, fortemente galgado no excelente O Grande Golpe, de ninguém menos do que Stanley  Kubrick e no divertido Perigo Extremo, de Ringo Lam. No entanto, esse rolar de olhos não só é esnobe, como também injusto, pois o diretor nunca escondeu suas influências e sempre soube, desde esse começo aqui, empregar sua característica visão para cada uma de suas criações. Vale até relembrar que, na época em que Tarantino visitava o escritório do hoje proscrito (com razão) Harvey Weinstein para convencê-lo a distribuir Cães de Aluguel, o produtor perguntara ao diretor se ele vivera em lugares perigosos ou nos arredores do crime organizado para escrever algo tão vívido quanto o roteiro sobre sua mesa. E a resposta de Tarantino foi sucinta e direta: “Não. Mas eu vejo filmes.”

Aliás, essa característica do diretor está discretamente presente no soberbo preâmbulo de Cães de Aluguel, em que, com diversas tomadas lentas e circulares, somos organicamente apresentados a todo o elenco em um diner característico dos EUA em que eles conversam sobre amenidades logo antes do assalto a uma loja de diamantes, algo que só descobrimos mais tarde. Dentre os assuntos, há duas reinterpretações de canções, ou melhor, uma reinterpretação e um esclarecimento. Like a Virgin, de Madonna, é explicada por Mr. Brown (Tarantino) não como uma história pueril de amor, mas sim como uma mulher que encontra um homem muito bem dotado que a faz sentir como uma virgem quando transam. Em seguida,  “Nice Guy” Eddie Cabot (Chris Penn), um dos mandantes do crime, revela que, ao recentemente escutar o programa radiofônico K-Billy Super Sounds of the 70s (que acompanha toda a fita com a narração de Steven Wright), ele descobriu que, em The Night the Lights Went Out in Georgia, é a cantora que atirara em Andy, para a surpresa de todos. Parece-me muito claramente Tarantino avisando que seu trabalho é exatamente esse: de reinterpretação e de esclarecimento de clássicos.

Em uma brilhante elipse – graças ao trabalho de montagem da super-parceira do diretor, Sally Menke, que o acompanharia até Bastardos Inglórios, falecendo no ano seguinte – somos levados diretamente para o desfecho da tentativa mais do que fracassada de roubo, com Mr. Orange (Tim Roth), sangrando litros no banco de trás de um carro dirigido por Mr. White (Harvey Keitel) e é aí que a história efetivamente começa, com a característica montagem não-linear de Tarantino e Menke tomando de assalto o filme, o que permite voltas a diversos momentos passados dos personagens, inclusive ao roubo em si, que mesmo assim nunca realmente vemos. Orange e White, em razão das circunstâncias, estabelecem laços mais estreitos, inclusive revelando seus respectivos nomes verdadeiros, proibição básica de todo o planejamento. Essa conexão é quebrada com a entrada do paranoico Mr. Pink (Steve Buscemi) no armazém que é o ponto de encontro dos “Cães”, que imediatamente passa a elucubrar sobre um traidor entre eles. Mais a frente, é a vez do psicótico Mr. Blonde (Michael Madsen), que traz a tiracolo um policial refém em quem ele começa a despejar toda sua frustração e sadismo.

O crescendo de desequilíbrio e desconfiança em um espaço confinado – a ação presente é toda no armazém, algo que Tarantino voltaria a fazer de forma ainda mais incrível em Os Oito Odiados – é o grande destaque da obra, com o diretor extraindo o melhor de cada um de seu elenco, valendo especial destaque para Roth, que faz 100% de seu trabalho (no presente) deitado e sangrando e Keitel, um poço de sanidade (algo que ele repetiria como Mr. Wolf, em Pulp Fiction) entre espíritos completamente contaminados por raiva, desejo de vingança e inimizades. O armazém de caixões funerários (reparem na decoração de fundo) é a proverbial panela de pressão que o espectador sabe que acabará explodindo de uma forma ou de outra, em um trabalho fenomenal de construção de tensão que espanta pela simplicidade de execução, algo visto até mesmo nos figurinos básicos – ternos pretos – de cada personagem.

Outro ás que Tarantino tira de sua manga é sua capacidade quase inigualável de fazer a curadoria de canções para seus filmes e a seleção para Cães de Aluguel é o começo de tudo. Se o grande destaque vai para, claro, para Stuck in the Middle With You, canção que, hoje, é inseparável de atos de sadismo, especialmente aqueles relacionados com orelhas, é impressionante ver como o diretor – que, reza a lenda, toca as músicas no set de filmagens para que todos entrem no clima – consegue pontilhar trechos de Little Green Bag, Magic Carpet Ride, Hooked on a Feeling e outras de tal maneira que cada canção parece ter sido composta para sua obra.

Alguém pode estar perguntando se, em razão de todos os elogios acima, a avaliação em estrelas não deveria ser a mais alta. E, de fato, talvez ela pudesse ser. No entanto, mesmo depois de tantas revisões do primeiro longa de Tarantino, ainda não consigo gostar completamente dos flashbacks dedicados ao Mr. Orange. Apesar de a impressão geral da película ser de que cada minuto foi muito bem utilizado, sinto que as voltas ao passado desse personagem não agregam muito à narrativa e até quebram um pouquinho o ritmo narrativo. Mas não é nem de longe algo que desabone a obra como um todo.

Cães de Aluguel é a amálgama do estilo Tarantino de filmar, algo que muitos erroneamente afirmam não ser mais do que a cópia de trabalhos de terceiros, sem perceber que esse estilo tornou-se a base pela qual filmes policiais e de máfia das décadas seguintes passaram a almejar e a ser comparados. O diretor estabelece sua escola aqui, já em sua estreia, e, a partir dela, passaria a trafegar entre gêneros com maestria quase incólume. Não é toda obra de estreia que tem esse mérito.

Cães de Aluguel (Reservoir Dogs, EUA – 1992)
Direção: Quentin Tarantino
Roteiro: Quentin Tarantino
Elenco: Harvey Keitel, Tim Roth, Michael Madsen, Chris Penn, Steve Buscemi, Lawrence Tierney, Randy Brooks, Kirk Baltz, Edward Bunker, Quentin Tarantino, Steven Wright
Duração: 99 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.