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Crítica | Califórnia

por Gisele Santos
217 views (a partir de agosto de 2020)

estrelas 4

Ser adolescente é viver uma descoberta a cada dia. Descobre-se o amor, a paixão, seus gostos musicais, as amizades, os ídolos, a vida. É sobre descoberta, não somente nessa fase da vida, que se trata Califórnia, estreia de Marina Person no cinema de ficção (ela havia feito o documentário Person, que conta a vida de seu pai em 2007). A ex-VJ da MTV traz um retrato emocionante e delicado dos anos 80, da AIDS e das incertezas da juventude nesse filme que tem como grande trunfo uma trilha sonora eletrizante e nostálgica.

A história gira em torno de Estela (a ótima Clara Gallo) e seu sonho de conhecer a Califórnia, nos Estados Unidos. É que seu tio Carlos (Caio Blat) vive na cidade ensolarada e de lá traz todo o tipo de referências musicais e culturais para a vida da sobrinha que vê nele um ídolo. A vida da adolescente se resume as paqueras com um dos meninos mais populares da escola, a companhia das amigas inseparáveis e a descoberta de sua sexualidade. A menina troca a tradicional festa de 15 anos por uma viagem para conhecer o tio e viver uma grande aventura, que acaba frustrada quando ele retorna dos Estados Unidos de forma repentina, muito magro e debilitado, portador de uma doença que pouco se sabia na época.

Marina imprime em tela um pouca da sua história de vida. O amor pelo rock, e principalmente pelo The Cure (que tem papel importante na trama) fez parte da vida da recente cineasta. Tanto que ela pediu diretamente para o vocalista Robert Smith a liberação para usar a música “Killing na Arab” no longa. O problema é que Smith não autoriza o uso da canção há anos, principalmente depois que grupos usaram a música com propósitos xenofóbicos. A canção foi inspirada no livro O Estrangeiro de Albert Camus, onde um franco-argelino chamado Mersault mata um árabe e não sente nenhum remorso pelo ato.

O livro, que também aparece no filme, é dado para Estela por um colega novo na classe, o gótico JM (Caio Horowicz) que começa como o freak da turma e aos poucos vai ganhando a confiança e a amizade da garota.

A abertura de Califórnia mostra a ousadia dessa novata no cinema nacional com um plano-sequência de deixar muito diretor veterano com inveja. Ela ainda recria muito bem os anos 80 retratados na trama, mesmo com um orçamento muito apertado. Ela disse em entrevistas que a música foi uma das formas encontradas de deixar essa ambientação mais fiel, já que a grana era curta para figurinos mais elaborados e locações da época oitentista.

O que se vê na tela é um filme cheio de sensibilidade, o nascimento de uma promissora cineasta, que assim como a sua protagonista está buscando se encontrar no meio de tantas descobertas de vida. A doença do tio, o primeiro fora, a perda da virgindade, os questionamentos sobre o futuro: tudo isso é tratado de forma adulta por Marina, mesmo que estejamos falando do futuro de uma adolescente de apenas 17 anos. É tudo levado à sério, com a importância que isso tem na nossa vida com essa idade. Afinal, como o personagem de Caio Blat diz em determinado momento do filme: “Nossos problemas parecem maiores pois são nossos.”

A única crítica que tenho não é ao filme, pelo contrário, a ele só faço elogios. Ótima trilha sonora, fotografia competente, direção acertada e uma grata surpresa de ver nascer uma cineasta cheia de talento (de família, diga-se de passagem). Minha crítica é a nós, espectadores. Vi o filme em um sábado à tarde em um grande cinema de Porto Alegre. Além de mim e da minha companhia havia apenas mais quatro pessoas na sala. Sim, QUATRO! É chocante como os brasileiros não prestigiam o nosso cinema. Sei que você pode pensar que o brasileiro não vai ao cinema ver seus filmes, pois o nosso cinema é ruim. MENTIRA! Cada vez mais o Brasil vem trazendo grandes títulos, melhores do que muito filme americano por aí. Pode ser aquele velho complexo de vira-lata que volta e meia toma conta de nós. Mas quem perde é o cinema e você, espectador, que deixa de assistir a esse lindo e tocante retrato da juventude, um filme sensível e honesto, maduro, que merece ser visto e revisto. E viva o cinema nacional. Obrigada Marina!

Califórnia – Idem, 2015 – Brasil
Direção: Marina Person
Roteiro: Marina Person, Francisco Guarnieri, Mariana Veríssimo
Elenco: Clara Gallo, Caio Blat, Paulo Miklos, Virginia Cavendish, Giovanni Gallo, Letícia Fagnani, Caio Horowicz
Duração: 90 minutos

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13 comentários

Marcellofn 19 de outubro de 2020 - 09:38

Finalmente assistido. Como não sorrir num filme com uma trilha sonora dessas? The Cure, Joy Division, Siouxsie and The Banshees, Metrô, Kid Abelha… o roteiro não é espetacular, tem grandes falhas de previsibilidade, personagens unidimensionais (o pai, o irmão, o garoto popular) ou mal aproveitados (o tio), mas se percebe vivamente a paixão, o tesao da Marina Person em contar essa história de amadurecimento e descobertas. Além de ter um casal de protagonistas ótimos, principalmente a Clara Gallo (que atualmente surpreende positivamente, talvez único, na série Todxs Nos). há uma sensibilidade ímpar, que faz ser um filme agradável de se assistir. E como da saudades dos bons tempos da MTV brazuca.

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Camila Amaro 7 de dezembro de 2015 - 19:42

Não achei tão justa a crítica assim, até porque não me pareceu uma crítica ao filme. Acho legal ter gostado do filme, mas em nenhum momento disse o que gostou no filme e o que realmente deve me fazer gastar dinheiro com esse filme. Como você mesma disse a única crítica que tem a fazer é ao público, mas felizmente não é você ou a indústria que escolhe o que o público assiste ou não. Se o filme deveria ser mais assistido ou não, não somos nós que decidimos. Acho que o que podem fazer (quem trabalha na indústria) é mostrar o conteúdo que pode ser interessante do cinema brasileiro e você como “crítica” deveria mostrar ao público razões que fazem desse filme bom. Apenas isso. Já que acredito seja a função de uma crítica de filme. Não me sinto confortável em ler uma crítica que em vez de criticar o filme em questão, ME crítica, sem ao menos me conhecer.

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Gisele Santos 7 de dezembro de 2015 - 20:47

Oi Camila, tudo bem? Dei várias razões pelas quais gostei do filme: o roteiro é ótimo, assim como o elenco, a direção, a trilha. Cada um escolhe o quite deseja ver, da mesma forma que eu, como crítica, decido quais pontos devo abordar na minha análise. A crítica que fiz ao público é algo que sempre faço nos filmes nacionais pois realmente o brasileiro não vê seus títulos e acaba perdendo ótimos filmes. Não critico você em especial, de forma alguma, crítico a audiência de forma geral e aí me incluo também. Mas obrigada pelo ponto de vista, não precisamos concordar em tudo é sempre é bom temos críticas construtivas. Abraço

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Camila Amaro 7 de dezembro de 2015 - 21:51

Olá Gisele, tudo ótimo e com você? Na verdade, não deu razões nenhuma para o filme ser bom. Citar que o roteiro é bom não é mostrar porque ele é bom, falar que o elenco está ótimo não é explicar porque ele está ótimo. Exatamente como crítica teria que saber me contou (enquanto eu lia) uma boa parte da história e das motivações da Marina, mas não me mostro como o filme faz pra ser bom. E uma questão, se ele é tão bom por que deu apenas 4 estrelas? Afinal não achou defeito algum. A sua falta de crítica e justificativas no texto fez com que a sua “única” crítica fosse inválida, infelizmente. Abraços também

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Gisele Santos 8 de dezembro de 2015 - 14:26

Oi Camila, não querendo me alongar. O que falei do filme você encontra vendo o trailer ou mesmo lendo a sinopse, não dei spoilers pode ficar tranquila! Se com o meu relato tu não se sentiu atraída é assistir ao longa, eu entendo e pode ficar tranquila que recebo bem críticas, faz parte do trabalho do jornalista. Crítica é pessoal, é a minha visão sobre esse filme e você pode buscar muitas outras visões pesquisando o que demais críticos falaram sobre esse mesmo filme. O fato de o filme ser bom ou ruim é também algo subjetivo. Não existe uma verdade absoluta, muito menos quando se trata de percepções de um filme, que às vezes toca fundo mesmo não sendo uma obra-prima! 🙂 Ah, dei 4 estrelas pois como repito crítica é pessoal e para ganhar as minhas 5 estrelas eu preciso sair do cinema totalmente hipnotizada, não foi o caso, foi quase, por isso as 4! 🙂

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Daniel Moreno 7 de dezembro de 2015 - 19:02

É absurdo a partir de qualquer ponto de vista “culpar o público” pelo fracasso comercial de um filme. Espectadores decidem o que ver ou não segundo seus próprios critérios – por mais eventualmente absurdos que possam parecer. Isso se chama liberdade de escolha; temos aqui, mas na Coreia do Norte eles não têm. Além disso, chega a ser ridículo reclamar do “brasileiro” que, no final das contas, é o contribuinte que financiou esse abacaxi.

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Gisele Santos 7 de dezembro de 2015 - 20:53

Daniel. Tudo bem ? Acho cedo falar em fracasso, afinal o filme acabou de estrear. E mais, o fato de ele ter uma boa bilheteria não significa que seja um bom filme, não é mesmo? Lógico que cada um decide o que quer ver, apenas lamentei o fato de na sessão que eu estava apenas 6 pessoas estarem presentes. uma pena, pois como disse, na minha opinião o filme merecia mais. Minha crítica é ao fato de as vezes estamos condicionados a assistirmos sempre a mesma coisa e eu acho que deveríamos abrir mais a nossa mente para o novo. Mas é a minha opinião. Claro que você não precisa concordar com ela. Mas obrigada pelo comentário, mesmo que tenhamos opiniões diferentes em relação ao filme que achei realmente ótimo. Abraços

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Daniel Moreno 8 de dezembro de 2015 - 15:20

Olá Gisele! Conforme você deve saber, grandes filmes já tiveram grandes bilheterias, e maus filmes também. Outro filmes horríveis fizeram sucesso, enquanto ainda outros eram ruins e não deram dinheiro. Enfim, a questão não é essa, seria o mesmo que dizer que “chuva molha”, é algo evidente a priori. Quem resolveu fazer uma “críticas aos espectadores” foi você, afinal, não foi isso que você escreveu? Eu só estou aqui para sugerir a você que informe os leitores: filmes nacionais como esse custam bem caro no bolso do contribuinte, uma vez que são pagos com recursos públicos de variadas fontes diretas e indiretas. Assim sendo, reitero, é absurdo querer que, além de pagar pelo filme, o pobre do contribuinte tenha de assisti-lo também, se não é do seu interesse. Além disso, você não pode dizer que é “mentira” que o “cinema brasileiro é ruim”, uma vez que tal colocação é impossível de ser provada. Você poderia dizer que é “mentira” se alguém escrever que a capital do Brasil é São Paulo, por exemplo: isso é de fato uma mentira. Mas quanto a um juízo de valor subjetivo a respeito de um tema bem vasto como “cinema brasileiro”, você poderia argumentar longamente a esse respeito, mas jamais determinar como mentirosa uma afirmativa, repito, que é impossível de ser confirmada ou refutada (pois haverá sempre alguém insistindo que é ruim, ou que é bom, sem chegarmos jamais a um consenso). Da mesma forma, o simples fato de que o público não veja um filme em específico não significa, conforme você escreveu, que ele está com a mente “fechada ao novo”. Uma coisa, repito, não tem nada a ver com a outra. O espectador simplesmente escolhe o filme que lhe interessa, segundo critérios próprios (ou critério nenhum), ainda que filmes nacionais como esse a respeito do qual você não só escreveu, como defendeu veementemente (chegando até a agradecer à diretora..rs), continuem tendo poucos atrativos para a maioria das pessoas (a despeito, repito, de críticas tão laudatórias quanto a sua). Abraço.

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Gisele Santos 9 de dezembro de 2015 - 15:04

Daniel, não acho que eu precise te convencer a assistir nada. Falei da questão do sucesso pq você mesmo disse que o filme era um “fracasso” não sei bem baseado em que, já que ele acaba de estrear. Minha crítica ao filme é pessoal e ao público também. Não entendo pq você se incomodou tanto com isso (já de antemão te peço desculpas se te ofendi ou algo assim). E sigo batendo na tecla sim, como crítica e jornalista, que o cinema nacional está em uma ótima fase e que sim, ótimos filmes são feitos em solo brasileiro. Mas se você acha que ele não deve ser visto, eu entendo e respeito. É o seu dinheiro que será investido no ingresso. Invista ele naquilo que você gosta e pronto. Eu defendo o cinema nacional de qualidade e agradeço sim a uma diretora estreante que fez um filme lindo, que me tocou. E sim, invisto o meu dinheiro em ingressos para filmes nacionais (O Lobo atrás da porta, O Som ao Redor, Que horas ela volta? todos vi na sala escura e saí com um sorriso no rosto). Tenho esse direito né?

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atrapalhado com sidequest 6 de dezembro de 2015 - 19:36

Estive esperando ansioso pelo filme, assisti ontem, aqui em São Paulo, e digo que a situação não foi muito diferente, lamentável.
O filme é sensacional, em nenhum momento é criado suspense no que está para a acontecer na vida da Estela, tudo fica claro desde a primeira vista; nem feita uma extensão exagerada em resposta ao que dá errado.
Num todo a mensagem de que nem tudo sai como planejado, e que isso não é totalmente ruim pois coisa boas acontecem nesse tempo é passada sem soar clichê.
E trilha é perfeita, me faz sentir saudades de um tempo que não vivi.

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Gisele Santos 7 de dezembro de 2015 - 16:51

Poxa, achei que em São Paulo e cidades maiores as pessoas fossem prestigiar mais. Uma pena mesmo, pois o filme é muito interessante. Bem isso que você pontua, o fato de não entregar nada de bandeja e não cair nos clichês próprios de filmes desse gênero. Bom, a trilha é um presente a parte! <3

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Clark-Rio2 6 de dezembro de 2015 - 17:11

Gisele,

Gostei muito da sua critica, mas serei muito sincero…nem sabia da existência desse filme.
E costumo evitar filmes brasileirosobre no cinema…muito por causa dos filmes de comédia tão ruins.
Eu os assisto em casa…e alguns já me fizeram me arrepender de não ter ajudado com a compra do ingresso, mas tento reparar isso com compra do blu-ray…Quando lançado (Cidade de Deus, que o diga…tenho o meu importado).

Tentarei assistir esse…Não só por sua crirtica, mas pela Person…que era uma das minhas VJs gatas favoritas…rsrs
Sou futil…rsrs

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Gisele Santos 6 de dezembro de 2015 - 18:38

Assista e depois conte o que achou. Realmente a Marina era uma VJ incrível, talvez a melhor dos bons tempos MTV.

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