Crítica | Californication – A Série Completa

Ilações são alguns dos mecanismos de identificação mais pedagógicos quando desejamos explicar as semelhanças e diferenças entre coisas distintas. No caso de Californication, série exibida entre 2007 e 2014, podemos dizer que a trajetória de Hank Mood (David Duchovny) se assemelha com as aventuras das quatro amigas de Sex and The City, salvaguardadas, obviamente, as suas devidas proporções. O sexo é desmedido, as peripécias em busca do amor também, mas o programa protagonizado por Duchovny passa por uma curva de perda de qualidade do meio ao final que o distancia da atração de seis temporadas da HBO, lideradas por Sarah Jessica Parker.

Assim, a temática do sexo como parte dos conflitos é o que relaciona um programa ao outro e nos faz contemplá-los dentro de um mesmo segmento. Ah, e claro, o protagonista escritor. Fora isso, a série criada por Tom Kapinos segue sua própria trilha de insanidade, piadas politicamente incorretas, dentre outros tópicos específicos de sua estrutura narrativa. Com episódios de 28 minutos em média, o programa exibido pelo canal Showtime nos apresenta a caminhada de Hanky Mood, escritor novaiorquino de sucesso que passa longo tempo com uma crise de inspiração e precisa reconquistar não apenas o seu dom, mas a sua amada esposa.

Karen (Natascha McEllone) é a esposa do passado que o abandonou depois de se cansar do comportamento imaturo de Hanky. Ela ainda o ama, comprova isso em suas ações ao longo das sete temporadas, mesclando o afastamento e a proximidade em doses similares. Cuidadosa, ela constantemente ensina a sua filha Becca (Madeleine Martin) a respeitar o pai em qualquer situação. Personagem com longo arco, Becca vai da infância ao período adolescente de descoberta da sexualidade, haja vista o extenso número de temporadas que a acompanha. Charlie (Evan Handler) é o seu amigo de todas as horas, também paciente e sempre ao lado de Hanky para ampará-lo em suas loucuras.

Marcy (Pamela Adlon), esposa de Bill, segue o mesmo padrão, mas mantém-se mais ao lado de Karen. Mia (Madeline Zima), personagem com quem Hanky tem relação sexual no episódio piloto, sem saber que é menor e filha de Bill (Damian Young), conflito que se estabelecerá ao longo de outros episódios, nos anos seguintes. Em sua primeira temporada Hanky encontra-se separado de sua esposa. Vive um cotidiano boêmio, regado ao álcool, sexo e drogas. Escrever, que é bom, nada. Envolve-se com a filha do novo marido de sua desejada antiga esposa. Precisa manter a relação com a filha que ainda acredita que o pai não seja um cafajeste como parece.

Na segunda temporada, ele continua envolvido sexualmente de maneira promíscua. É contratado para escrever a biografia de uma celebridade e se envolve em muitas confusões, principalmente com Karen. Mia, depois das chantagens do ano anterior, rouba uma de suas histórias e se passa como escritora, numa fama desmerecida, mas reconhecida pela mídia como sucessora do estilo Hank Mood. Na terceira temporada, Hank mantém a sua postura de mulherengo e não deixa oferta alguma escapar. O álcool e as drogas continuam a acompanha-lo em sua trajetória, agora com maiores responsabilidades, pois Karen viajou à trabalho para Nova Iorque e Becca está sob a sua responsabilidade.

A menina, por sinal, começou a desenvolver as forças de seus hormônios e comporta-se de maneira cada vez mais complexa. No ano seguinte, Hanky continua a agir como um idiota, adulto que não amadurece, sem evoluir porque no final das contas, Karen, Becca e os demais continuam a “passar a mão pela sua cabeça”. Acusado de estupro, adentra numa fase amarga que perdura para a temporada seguinte, o quinto ano. Ao longo da sexta temporada, Hanky ainda colhe os frutos da colheita destrutiva dos anos anteriores. Ainda protegido por suas amadas, embarca numa clínica de reabilitação, alternativa para melhoria que não dá certo. Na sétima temporada, ele atua como um roteirista de uma série de TV.

Para acompanhar essa jornada, esteticamente, contamos com a direção de fotografia assinada por profissionais competentes e em constante diálogo narrativo. Peter Levy, Andy Graham, Michael Weaver assumem a maioria dos episódios. O design de produção, bem conectado com os aspectos litorâneos de muitas cenas, é bem conectado com as necessidades narrativas da série, isto é, as diversas casas de praia, as livrarias e escritórios, os bares e restaurantes, bem como as residências de Hanky Mood e do elenco coadjuvante, espaços que expressam as suas características dramáticas. Os personagens são acompanhados pela condução sonora também eficiente de Tyler Bates e Tree Adams, em especial, o tema de abertura nostálgico e atraente. São imagens envolventes e editadas de maneira dinâmica, com episódios que não se alongam demais.

Em seus quatro primeiros anos, Californication foi um emaranhado de textos afiados, derrocada encontrada a partir da quinta temporada, quando a qualidade do programa cai vertiginosamente. Com diversos roteiristas responsáveis pelo texto, Tom Kapinos assumiu a maior parte do material, dirigido por um grupo extenso de diretores, dentre eles, Adam Bernstein, Michael Lehman, John Dahl, Bart Freudlich, David von Ancken, além de Helen Hunt e Eric Stoltz, um episódio cada. Com suas blasfêmias, debates tratados sem pudores, posturas propositalmente misóginas, tendo em vista alcançar o tom irônico desejado, bem como seu excelente elenco coadjuvante, Californication foi uma jornada televisiva de altos e “muitos voos baixos”, mas ainda assim se fez memorável com sua forma cativante, humorada e ácida de narrar alguns comportamentos humanos tidos como universais.

Californication – A Série Completa – EUA, 13 de agosto de 1007 a 29 de junho de 2014
Showrunners: Tom Kapinos
Direção: Adam Bernstein, Michael Lehman, John Dahl, Bart Freudlich, David von Ancken, Helen Hunt, Eric Stoltz
Roteiro: Tom Kapinos
Elenco: David Duchovny, Natascha McElhone, Evan Handler, Madeleine Martin, Madeline Zima, Pamela Adlon, Rachel Miner, Damian Young, Paula Marshall
Duração:  28 min (cada episódio – 84 episódios no total)

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.