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Crítica | “Calmará” – Calmará

por Davi Lima
368 views (a partir de agosto de 2020)
Calmará

Zabelê vem cá
Deixe eu te perguntar
Onde é calmará
Onde é calmará?

Antes de comentar diretamente sobre o álbum homônimo da banda Calmará, é preciso compreender o que é o Coletivo Candiero. Esse grupo de músicos nordestinos, incessantes em querer desmistificar esse gênero Gospel mercadológico entre o meio cristão, eixo Rio-São Paulo, juntaram-se a liderança do cantor Marco Telles para formar um coletivo midiático, uma marca que reunisse e difundisse músicos nordestinos. Sem limitações para formação musical nas categorias de gênero melódico, forma-se a arte após o Gospel, como se chama o livro de Marco Telles, Vida Após o Gospel, que busca teoricamente, com visões teológicas e musicais da arte, compreender como a conjuntura estilística da música gospel se tornou unidirecional, sem pluralidade musical. A partir disso, o coletivo, reunindo artistas nordestinos, não apenas muda o cenário musical dos cristãos de maneira regional, como mostra que o gênero musical se une à letra simultaneamente, não a letra congregacional e eclesiástica se adapta ao gênero musical exclusivamente.

Diante disso, o álbum Calmará reflete tanto em letra quanto em estilo essa proposta do Candiero, dando voz a Paraíba, fazendo um mix quase experimental de estilos musicais entre e durante as faixas, como reflete a narrativa pessoal da banda quanto a maternidade que prega a palavra cristã como sonhos de esperança num mundo de percalços. Basta as duas primeiras músicas, “Sereno do Alarido” e “Patrícia, de Onde Vim” para compreender esses pontos citados. O terror de ouvir Sebastian Bach na “Tocata e Fuga em Ré Menor, BWV 565” ao som do acordeão na primeira música, junto com uma declamação de auto sobre uma mãe que se acorda para enfrentar a dor de todo dia, sem perder a esperança, reproduz bem qual é a narrativa de todo o projeto musical. Porém, a segunda música complementa até onde a banda Calmará tem espírito de resistência, como uma guerrilha que usa todos os instrumentos para fazer uma guerra musical peculiarmente singela, misturando rock, samba, baião e eletrônico até não haver mais estilo definido. 

Em geral, o efeito da correlação de temas sonoros associados a bases harmônicas de gêneros musicais, se bem feita tal correlação, é a formação de um estilo único. Entretanto, a banda insiste em cada música fazer partilhas sonoras para manter a liberdade da introdução, a liberdade das conjunções na letra de cada composição. Por exemplo, a faixa “É de Manhã”, que começa com um jazz sobre a perseverança da alegria no nascer de cada dia, parece desenhar um final com atmosfera mais comum do Gospel na ponte que mais parece segundo refrão, fazendo referência a música “Resplendor” de Marco Telles.

Como Marco Telles mesmo já descreveu sua própria música como brasileira de outras praias, ou até de inspirações gringas do gospel estadunidense, essa referência feita por Calmará, uma banda mais compromissada com estética musical nordestina, pode até criar um estranhamento, mas logo em sequência toca “Outra Vez Além (Zabelê)” que harmoniza com essa categorização estética que colocam a banda. Ou seja, a banda quer ter a liberdade de fazer rima de Jesus e Cruz, como uma vez o cantor Northon Pinheiro comentou na música “Carismatos” do seu álbum Alma Nua, para também poder cantar sobre um pássaro do Nordeste (que não se delimita na região geográfica), uma música alegórica que conversa com a intitulação da banda e do álbum.

Outro aspecto que torna essa obra musical diferenciada, é que o reflexo do Candiero e essa pluralidade de estilos como resistência ao Gospel hiper categorizado não se limita na forma artística, e sim no conteúdo mais direto da letra. A faixa “Hillsamba” é o material frontal crítico, mais do que a segunda música “Patrícia, de Onde Vim”, em que o título sonoramente falando conversa com o Rio-Samba, como se o Samba pertencesse a apenas ao Sudeste do Brasil, assim como literalmente o termo “Hill” dialoga com a banda gospel famosa da Austrália chamada Hillsong. Esse neologismo se entrelaça na forma e conteúdo da música, em que de fato há uma emulação caricata da Hillsong como crítica ao estilo Worship da banda ser majoritária como base Gospel contemporaneamente entre os cristãos. Além disso, a letra diz “cala teu coração” e que a razão “tem beleza”, falando exatamente do clichê espiritualizado que para uma música cristã ser legítima precisa ter uma atmosfera, com teclado repetindo notas, uma bateria básica acompanhando e um “ôôô” crescente. Como a letra diz: “eu fiz um samba, nem dá para hillsonguear. Como que faz para pegar, será que vai dar? (Não deu)”. Por isso o início e o fim da faixa é a emulação descrita, enquanto no meio a letra repete o refrão inúmeras vezes, como as músicas da Hillsong, mas tocada com um samba e reverbs de rock. 

Por fim, o álbum apresenta ainda investimentos em saxofone, no jazz forte da música “Volta a Alta Terra”, na calmaria de um álbum com nome Calmará, um dedilhado numa sequência de auto misturado com rock de letra concretamente cristã de esperança na faixa “Luz ia”, e um forró bastante “avexado” na interpretação dos cantores e testemunho vocal de uma senhora que não perde a fé na seca comum na região nordestina. Essa descrição toda é para explicitar como o alvorecer desses cristãos que se interessam por arte, por música, falando de redenção, de liberdade e alegria, refletem o cristianismo do mesmo jeito.

Assim, dentro da síntese de narrativa do álbum, da maternidade que inicia o álbum no terror, mas ainda com esperança, as músicas finais correspondem à calma materna que descansa na última declaração do auto. Porque os filhos da banda, que crescem, passam e transformam o meio, desatam o nó da pipa da criança na rua da esperança, como diz a letra. E com a infantil mistura de estilos musicais projetam o cheiro de saudade dos tempos que a mente captava o espiritual no musical, sem distinção de gêneros categorizados.

Aumenta!: Patrícia, de Onde Vim
Diminui!:
Minha canção favorita do álbum: Outra Vez Além (Zabelê)

Calmará
Artista: Calmará
País: Brasil
Lançamento: 1 de janeiro de 2021
Gravadora: Coletivo Candiero
Estilo: Nordestino

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2 comentários

Ebson Wilkerson 15 de março de 2021 - 00:36

Show! Esse álbum é incrível!

Responder
Davi Lima 15 de março de 2021 - 01:50

É demais mesmo!

Responder

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