Crítica | Calmaria

Por mais que esteja em seu terceiro filme atrás das câmeras, Steven Knight não é um nome qualquer dentro da indústria. Com uma indicação ao Oscar nas costas pelo roteiro de Coisas Belas e Sujas, o roteirista assinou, ao longo dos anos, o script de títulos de peso como Jornada Pela Liberdade e Senhores do Crime, assumindo a mesma função nos projetos onde o próprio se colocou na cadeira de direção, o estilizado Redenção e o excelente experimento de um personagem só Locke, além de ter sido o criador do seriado Peaky Blinders. Tendo tantos títulos em mente, se torna ainda mais impossível chegar numa conclusão que justifique a execução das ideias do próprio Knight dentro de um projeto que se define como um grande desperdício por todos os poros.

O que há de estimulante, de início, em Calmaria, é como os contornos de seus personagens, meros arquétipos de estereótipos tão comuns ao que há de mais formulaico na identidade hollywoodiana, não indicam o encaixe ideal da narrativa dentro de algum gênero. Por mais arremedada que seja, os primeiros minutos de Calmaria nos indicam um potencial de uma trama cujo desenho parece esconder mais do que aparenta. E realmente esconde. Talvez até demais. Mas até lá, vamos acompanhando o capitão do barco de pesca Serenity, Baker Dill (Matthew McCounaghey) e seu parceiro Duke (Djimon Hounsou), que trabalham levando turistas para a pesca em alto mar, apesar de seu principal interesse seja capturar o Justiça, um atum gigante que Dill persegue há anos. É quando sua ex-exposa, Karen (Anne Hathaway) surge inesperadamente com um pedido desesperado: em troca de 10 milhões, Karen pede que Dill mate e suma no mar com atual e violento marido, Frank (Jason Clarke), que abusa dela e do filho que Karen teve no passado com Dill.

Conforme o roteiro de Knight avança e revela seus reais objetivos, Calmaria assume ares tão bizarros em termos de concepção quanto confuso no que se refere a sua execução. O thriller dramático que se instaura rapidamente pula para um quê de ficção científica dentro de um plot twist que não se faz claro enquanto um ponto de virada ousado ou somente uma decisão desnorteada de um roteiro que não está sabendo que caminho tomar. Dentro de cada uma das ideias, ou mesmo na junção destas, Knight acaba mergulhando na própria confusão e subaproveita todas as camadas que seu filme poderia ter.

Knight igualmente não esconde suas referências, indo de Herman Melville para Ernest Hemingway e evocando os ares clássicos de Moby Dick e O Velho e o Mar, sem muito sucesso na atualização contemporânea da autoralidade dessas histórias. E tantos elementos dentro desse mesmo pacote dificultam ainda mais os esforços de Knight em condensar algo de concreto ou comunicativo em sua narrativa, o que só se agrava quando até mesmo humor surge de forma inacreditavelmente brega e deslocada, como no misterioso personagem de Jeremy Strong, um homem de terno e gravata que nunca consegue alcançar Dill por sempre chegar segundos atrasado ao cais.

E se não há material suficiente para que o elenco, no mínimo, ofereça algo além da superficialidade de seus personagens (reparem, em especial, no quanto a apresentação da personagem de Hathaway é plasticamente vergonhosa), o já mencionado plot twist e seu radicalismo pessimamente orquestrado somente afundam Calmaria num tédio inevitável diante de tantas decisões equivocadas por parte de Knight, que ao contrário do oceano onde navega, são rasas e nada cristalinas.

Calmaria (Serenity) – EUA, 2018
Direção Steven Knight
Roteiro: Steven Knight
Elenco: Matthew McCounaghey, Anne Hathaway, Jason Clarke, Djimon Hounsou, Diane Lane, Jeremy Strong
Duração: 106 min.

RAFAEL OLIVEIRA. . . .Somente há sinal de vida aqui quando o cinema está presente. E quando ele está, são as cores de Almodóvar, a frieza de Kubrick e o suspense de Shyamalan que me encantam. Um cinéfilo em constante construção.