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Crítica | Caminhos da Memória

por Davi Lima
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Como início de texto, pode-se apontar alguns fatores positivos de cara no filme Caminhos da Memória: as três camadas que a diretora e roteirista Lisa Joy constrói com o tema da memória – memória vista em primeira pessoa, memória panorâmica do acontecimento e memória que vai sendo construída para o espectador acompanhar o filme dramaticamente; uma média construção fantasiosa de uma Miami distópica com computação gráfica chamativa que tem água submergindo prédios na mesma associação metafórica da necessidade dela para adormecer nas memórias; e uma alternativa de desenvolvimento de personagens em elipses e voltas de tempo para espaçar o super expositivo roteiro.

Por que não dá um valor para isso de primeira? Todavia, as aparências fúlgidas escondem as desarmonias desse blockbuster “telefilmesco” com cara de produção de médio orçamento lançado no cinema pelo retrospecto “nolanesco” para o sinal verde do estúdio. Com um verniz noir e uma romantização bordeaux/art deco com câmera lenta, além da gravata deslocada que Hugh Jackman veste, que parece ajeitada demais para figurar um protagonista e herói desesperado, esse sci-fi com máquinas de reviver memórias confunde verossimilhança com romantização distópica.

Apesar de ter um caráter aristocrático de engajamento que busca autoconscientizar memórias, falar sobre drogas lícitas, ilícitas e sobre conflito de heranças de famílias ricas de Miami, Caminhos da Memória parece distante da realidade. Mesmo numa fórmula de montagem e fotografia realista, ainda assim se mostra uma obra desapegada de seus temas sociais. Mas como a diretora Lisa Joy não permite que seu filme pare num plano por mais que cinco segundos – parecendo ter medo de planos abertos da fotografia para esconder do espectador alguma possível desconcentração das complementações visuais geradas por computador (CGI) ao redor no cenário – ela consegue que o impacto das três camadas da memória na narrativa se abstraiam de serem julgadas pelo espectador por falta de profundidade.

A linguagem televisiva, de direção ilustrativa do roteiro, foge da responsabilidade dramática das suas citações sociais de Miami, transpondo para o próprio engajamento do espectador com o filme ser julgado na sua relação com a exposição das memórias e a narração contextual. Quando Lisa parece querer alcançar uma grande reviravolta intelectual sobre a fuga da realidade pela nostalgia e o caminho da memória contra infelicidade fatalista – chegando em meandros defraudadores para quem assiste para formar a terceira camada da memória – há uma amenização de resoluções românticas e de desenvolvimento de personagens que se apoiam no conceito da falta de linearidade das memórias inseridas na narrativa.  Não que haja problema nessa escolha mais simples de tratamento para uma linguagem televisiva, mas sim na não criatividade da direção desses artifícios em Caminhos da Memória, uma obra que se baseia na clareza arquitetônica romântica de um conceito da memória para magnetizar o espectador, tentando desenvolver uma distopia desde a primeira cena com computação gráfica. 

Assim, o filme nem afasta e nem aproxima, uma obra fugaz pelo próprio conceito romântico da memória. Nisso se constrói uma mediocridade suportável como experiência para o filme, em que a construção de uma Miami futurista banhada por água e desnivelada pelos barões ricaços, após uma guerra referenciada na narração do longa-metragem, parece vistosa para que se prenda a atenção minimamente. Nessa mesma linha de dar o mínimo chamativo, a presença de Hugh Jackman – como o investigador protagonista Nick Bannister – e Rebecca Ferguson – como a amante Mae – são como os brincos bonitos e brilhantes que a história tanto usa como macguffin para se continuar acreditando no amor dos personagens. Esse romantismo é “tão refinado”, tão imaginado nas proporções esterelizadas do filme que a cena de sexo entre os personagens se representa orgasticamente com água caindo da bancada da cozinha. A ironia disso não se refere a ausência de algo mais explícito, e sim como essa tentativa de efetivar algo mais romântico parece uma cota, somente, de composição para uma história noir, em que o filme se satisfaz com palavras e cenas bonitas iluminadas pelo sol, ou o toque no corpo dos personagens na montagem curta.

Pensando em como o filme busca ser noir a todo instante, mesmo os irmãos Nolan tendo Memento na mira da filmografia deles, Lisa Joy acaba acertando algumas memórias, na verdade, do contemporâneo e infeliz neo noir London Fields de 2018, porém, com menos transgressões morais, que a paródia de Matthew Cullen intentou para impressionar hollywood no primeiro trabalho de cinema, e com muito mais pacotes de beleza pomposa de orçamento de lentes e CGI.

Com as cenas de ação mal dirigidas, por serem inseridas para ocupar espaço de não exposição dramática, apenas como uma ponte, ou uma pausa necessária para uma venda de blockbuster; as sugestões sexuais e as roupas de Ferguson parecem ser uma checklist do subgênero noir, não a concretização da criatividade da ideia da diretora no roteiro, mesmo com a aparência compatível com o design do longa-metragem de matemática aplicada romântica alá art deco. Aliás, é preciso ressaltar que tais cenas mal dirigidas são assim adjetivadas pela dessincronização sonora, dificuldade de compreensão espacial mínima e facilidade de expor dublês, ou a evidência de escondê-los. Sem falar na falibilidade musical que não soam incidentes, sim muletas estimulantes para efetivas tais sugestões sexuais e românticas, ou as cenas de ação.

E se o romantismo e a direção não vão além em qualidade, ao menos sobra o grande lance da diretora e roteirista Lisa Joy em dar um tratamento diferente para a femme fatale de Rebecca Ferguson. A resolução simples e romântica desse tratamento de inversão na narrativa até consta certo aparelhamento temático, em como a narração de Nick declama sua paixão com maior engajamento. Porém, medindo a proporção de fatores que compõem o filme, que buscam alcançar com suas cenas de ação e escopo “miamesco” social uma suposta sujeira para se discutir o tal pecado misterioso da mulher e dos chefões da cidade, tanto esse fatores não incomodam a narrativa com conflito agregante ao conceito da memória apresentado na obra, como servem a uma trama de redenção apenas assistida, não participativa emocionalmente com os personagens.

Quando uma obra almeja a necessidade de quem assiste co participar, de prestar atenção no que o protagonista Nick está procurando nas memórias de outras pessoas, porque ele mesmo presta atenção pela sua profissão de investigador, se existe uma desconexão dessa co participação, isto, na verdade, é causado pelo descuidado com a quebra da suspensão de alta passividade desenvolvida com a seleção do que se deve se atentar no filme pela direção. Quando esse contrato é quebrado, entre a obra e o espectador, na função de completar uma lacuna narrativa ausente da própria individualidade heroica do investigador apaixonado, não se baseando nas pistas para quem assiste, tratando como uma nova informação que o espectador lembra antes do investigador; o romance da descoberta nesse processo todo já não reflete uma simultaneidade entre o protagonista e quem assiste, perde-se a conexão.

Esse tipo de contrato advém da “escola Nolan de cinema e roteiro”, especialmente no filme A Origem, ou O Grande Truque,. Os conceitos de sonho e ilusão, respectivamente aos filmes citados, se baseiam na dimensão da atenção de quem assiste para que a resolução explicativa seja o suficientemente satisfatório, mesmo que desmagnetizar a relação ativa temporária que o filme produza para o mistério-conceito. A diretora Lisa Joy usa a mesma ideia quanto às memórias assistidas num grande palco presente em Caminhos da Memória, utilizando até mesmo o mesmo efeito visual das linhas gravitacionais de Interstellar. Essa ideia roteirística, no entanto, é perigosa pela acusação da abordagem expositiva demasiada. No caso desse filme produzido por Jonathan Nolan, a sensação é ainda mais grave quando o conceito envolve visualizar imagens, as memórias num palco, não apenas experimentar o conceito-mistério. 

Por isso, Nick perde o centro dramático do herói, deslocando-o para o canto que o espectador assiste mais a trama, desenrolando, se expondo e resolvendo para ele do que experimentar o drama sendo concluído por identificação empática do protagonista resolver. Pois, pontos da narrativa investigativa se desconectam em timing das três camadas. A sensação possível para quem assiste é que se espera o filme acabar para Nick, assisti-lo vendo um filme, não assistir o final de Caminhos da Memória.

Até certo ponto a montagem e o conceito da memória embaralhada minimamente preserva uma compreensão da necessidade simplória desse efeito na experiência do público, dessa individualidade e passividade do protagonista, especialmente com a conclusão romântica e a importância feminina da maternidade da personagem Watts (Thandie Newton), parceria de Nick. Mas em verdade, eufemiza-se tudo isso, restando uma simples romantização de conto de fadas que não ofende, mas esconde as pretensões da diretora. Essa pretensão pode ser encontrada na cena bem ilustrada nas visuais exposições do giro de câmera, que sobrepõe dois personagens no ato final com uma memória específica, indicando um suspiro de criatividade além da rígida montagem televisiva. Só que ainda é muito pouco.

Caminhos da Memória é como a tal gravata de Nick, no estilo torto desarrumada, como os raros filmes de médio orçamento do momento, com um brilho lustroso da cor preta que a torna menos desajeitada de verdade, apontando o alto orçamento. Nisso, nessa contradição simbólica da gravata, com foco visual na história, desestimula-se a crença no romance dos protagonistas que querem sair do inferno, não tão arrebatador em sofrimento, para memórias ainda menos críveis de se assistir em melosidade da memória. caminhos caminhos

Caminhos da Memória (Reminiscence) – EUA, 2021
Direção: Lisa Joy
Roteiro: Lisa Joy
Elenco: Hugh Jackman, Rebecca Ferguson, Thandie Newton, Cliff Curtis, Marina de Tavira, Daniel Wu, Mojean Aria, Brett Cullen, Natalie Martinez, Angela Sarafyan, Javier Molina, Sam Medina, Norio Nishimura, Roxton Garcia, Giovanne Cruz, Woon Young Park, Han Soto, Rey Hernadez
Duração: 116 minutos

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