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Crítica | Campo de Thiaroye

por Luiz Santiago
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Onze anos separam Ceddo (1977) de Campo de Thiaroye na filmografia do diretor Ousmane Sembène. Esse longo período do cineasta longe das câmeras se deu por motivos pessoais (tempo dedicado à carreira de escritor, tendo ele lançado dois livros nesse período: Le Dernier de l’Empire e Niiwam), mas principalmente pela dificuldade enfrentada por ele para conseguir emplacar um novo projeto. Ceddo teve distribuição barrada no Senegal e gerou desculpas no mínimo questionáveis do governo de Léopold Sédar Senghor, exigindo tempo e energia do diretor para negociar a distribuição da obra, considerada radical, em outros países. No caso de Campo de Thiaroye, também censurado no Senegal e barrado na França por 10 anos, esses problemas voltaram. Mas aqui, o chamado “pai do cinema africano” estava em uma companhia bem mais confortável.

Sembène se orgulhava bastante da produção de Thiaroye, que reuniu esforços do Senegal, Argélia e Tunísia, ou seja, sem um centavo de dinheiro europeu. O filme também trouxe uma novidade para o cineasta, sendo a primeira e única vez em sua carreira que dividiu os créditos de direção com um colega, nesse caso, o também senegalês Thierno Faty Sow. Na obra, que de certa forma dá continuidade ao que vimos em Emitaï (1971), acompanhamos um grupo de soldados que retornam da Europa, após lutarem, pela França, na 2ª Guerra Mundial.

Uma das primeiras situações que os diretores nos mostram é o quanto a guerra muda uma pessoa. Um dos soldados, apelidado de ‘Pays’, sofre de estresse pós-traumático e serve como prenúncio de tragédias e também de leitura das entrelinhas, recurso muitíssimo bem utilizado aqui, dando relevo ao real massacre de Thiaroye, realizado pelos franceses na madrugada de 1º de dezembro de 1944. Durante um certo tempo houve um debate a respeito da “legitimidade” da ação francesa, uma vez que os documentos oficiais afirmavam que o Exército apenas reagiu aos tiros disparados pelos senegaleses amotinados. Com investigações e com o recolhimento de diários, telegramas e alguns outros documentos mostrou-se justamente o contrário: foi um massacre. E detalhadamente premeditado.

O amadurecimento de Sembène na direção e também o fato de ter mais alguém dirigindo com ele faz desse filme um produto sensivelmente diferente em sua filmografia, e perceberíamos isso nos três longas que ele ainda assinaria: Guelwaar, Faat Kiné e Moolaadé. A administração do tempo fílmico, na primeira parte, serve como uma boa semeadura de ideias para a sangrenta colheita que temos no final. Falamos de organização político-social entre nações africanas para resistirem às injustiças externas (notem que os soldados são apelidados com o seu país de origem), falamos de diferença de tratamento e posterior reconhecimento de irmandade entre homens negros (Senegal e Estados Unidos) e até como a mentalidade colonial funcionava, indo do desprezível paternalismo (“eles são como crianças grandes!“) até o puro racismo revestido de “escolha civilizatória” (“fazemos isso em defesa do império“).

É também nesse tempo anterior ao massacre que os cineastas desenvolvem o lado psicológico dos soldados, e a direção tanto segmenta quanto une essas histórias, exibindo-as em atividades religiosas, de descanso, de consumo cultural e também de união fraternal para enfrentarem um problema. Temos a sensação de igualmente pertencer àquele grupo e de entender o pensamento desses homens após o seu retorno da Europa, num conflito entre mundos que pouco a pouco ganha espaço — destaque para o complexo de inferioridade revelado quando eles são obrigados a entregar o uniforme americano. É muito importante lembrar que a questão da identidade sempre foi um tema forte nos filmes de denúncia ou reflexão sobre a relação entre africanos e as populações de países colonizadores, isso desde os primeiros passos do cinema senegalês, como em África Sobre o Sena (1955) e também em E Não Havia Mais Neve… (1966).

Campo de Thiaroye tem uma nuance épica que não apenas mostra a perpetuação de uma opressão sobre um povo, como investiga muito de perto como essas relações se dão. O final do filme é devastador, tanto pelo massacre quanto pelo toque lírico, solene e também crítico que vemos na cena em que novos recrutas estão embarcando para lutarem na guerra de seus dominadores. A prova máxima de como a força econômica e militar geram uma ideologia que faz com que o dominado defenda e passe a crer piamente nos interesses daqueles que os oprimem. Ao longo de 2h30, Sembène e Faty Sow afasta esse manto e nos mostra uma perigosa, mas necessária, possibilidade de resistência.

Campo de Thiaroye (Camp de Thiaroye) — Senegal, Argélia, Tunísia, 1988
Direção: Ousmane Sembène, Thierno Faty Sow
Roteiro: Ousmane Sembène, Thierno Faty Sow
Elenco: Sidiki Bakaba, Hamed Camara, Ismaila Cissé, Ababacar Sy Cissé, Moussa Cissoko, Eloi Coly, Ismaël Lô, Pierre Londiche, Camara Med Dansogho, El Hadg Ndiaye, Thierno Ndiaye Doss, Oumarou Neino, Pierre Orma, Daniel Odimbossoukou, Ibrahim Sane
Duração: 157 min.

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