Crítica | Campo do Medo

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Perde-se dentro do próprio campo.

Terceira adaptação de um conto de terror de Stephen King feito para a Netflix, conta com uma premissa claustrofóbica ideal para seu realizador, Vincenzo Natali, voltar às origens de Cubo – seu primeiro longa-metragem – e promover novamente uma sucinta discussão sobre a natureza humana fora do controle de seu espaço. De fato, o início se revela muito promissor, estabelecendo naturalmente a primeira camada dramática com a relação dos dois irmãos pintadas como quase noivos – sensação que virá a ser importante para o decorrer das viradas -, além de passar o desnorteamento sufocante de estar preso em um lugar onde tudo é igual ao redor, só plantas e mais plantas com o bônus de não funcionar geograficamente de forma linear, algo que viria a ser levado em conta para a própria estrutura narrativa mais à frente.

A partir desse momento, começa-se a acrescentar mais elementos mitológicos característicos do escritor adaptado, essa inserção periódica nos 45 minutos iniciais ainda funciona na crescente da paranoia dos personagens, fomentando o terror psicológico ao implantar novos desafios complexos que prometem soluções incertas dentro da fantasia de inúmeras possibilidades,  que podem ser ordenadas de demasiadas formas a ponto de estender organicamente a dinâmica de se passar em apenas um local. Enquanto o roteiro segura as informações, o medo do desconhecido move a curiosidade do espectador e o faz acreditar no potencial heterogêneo dos desdobramentos narrativos, até então, bem imprevisíveis. Contudo, em determinado momento, ao entrar num território mais explícito, infelizmente o filme perde gradualmente o impacto da tensão, tornando-se confuso demais na mescla de demasiadas simbologias para fornecer o tal estudo psicológico humano em condições extremas.

Fundamentalmente, a história se reinventa a partir do teológico, como em O Nevoeiro, e um personagem específico vai fornecer o descontrole do trabalho em equipe na busca de uma saída por abraçar a situação, no caso o local, em níveis divinos, tentando arrastar outros no caminho e questionando o propósito e o destino do ocorrido, levando muitos a revelarem os podres diante da insanidade situacional, assim, dificultando ainda mais a fuga dos demais que se mantêm firmes na racionalidade. No papel, é algo para tirar o filme de um possível território clichê, na prática, como King e Natali, já utilizaram antes, o que trouxe o efeito inverso, com o abono de ter sido mal transicionado, deixando demasiados elementos no meio sem aparente propósito ou convencionais demais para essa história, como os pedidos de socorro pelo celular possuído ou a inserção gratuita de uma criança assustadora, típica das histórias do escritor. 

A igreja abandonada até dá pistas do viés da crítica, mas o personagem em questão que sofre a transformação muda repentinamente com a desculpa sustentada por um elemento visual quase didático para demostrar o poder paranoico do campo. Sendo que a própria atmosfera do exercício de tensão reforça isso constantemente nos sussurros do vento passeando entre as folhas. Na dobradinha de uso de recursos com a mesma função, o segundo ato se arrasta em repetições, perdendo o timing do efeito cascata a ser proporcionado pelo tal personagem ao se tornar óbvio demais, e ainda tirando um tempo crucial para o desenvolvimento dos demais peões individualmente, deixando alguns sem peso consequencial, o que é fundamental para o público ter empatia e torcer para pelo menos alguém sobreviver à situação. 

A bagunça temporal, antes intencional, parece virar somente uma bagunça por não conversar com o novo tom do filme, que adentra em uma violência slasher gratuita e cafona por meio da interpretação canastrona de seu antagonista (e olha que ele é o melhor elemento do elenco, diga-se de passagem). Cria-se, assim, muitos contrastes em um curto espaço de tempo, pela forma autoexplicativa como o universo se comporta, ao querer “iludir” seu perigo ao mesmo tempo em que afirma e mostra o personagem caçando e matando os demais como um Jason da vida, junto à estilização reincidente da maneira  como cada elemento é trabalhado, o horror mais cansa do que agoniza. 

Felizmente, há nesse meio tempo algumas surpresas, devido ao tratamento das soluções de algumas subtramas (a mencionada entre os irmãos principalmente) e da problemática em geral, que é bem plausível nas regras estabelecidas, fechando as pontas de forma minimamente coesa. Há muito o que se aproveitar no horror rural de King, só que diferente de Colheita Maldita, esse conto não soube misturar o sensorial e o reflexivo na mesma receita e nem dosar na colher de cada um. Pela personalidade, passa longe da mediocridade das demais produções da Netflix, mas não tem qualidades o suficiente para sair de um território decepcionante devido a tantas inconsistências chatas. No mês do horror, um de seus mestres literários merecia uma adaptação melhor.

Campo do Medo (In the Tall Grass) – EUA, 2019
Direção: Vincenzo Natali
Roteiro: Vincenzo Natali
Elenco: Laysla De Oliveira, Patrick Wilson, Will Buie Jr., Harrison Gilbertson e Rachel Wilson
Duração: 101 min.

IANN JELIEL . . . Um aspirante a engenheiro da computação que acabou descobrindo no cinema um refúgio para sair da engrenagem robótica da sociedade, como em "Matrix", onde tudo segue uma rotina protocolar implantada na mente. Olho a sétima arte como um quebrador desses paradigmas, capaz de nos fazer refletir sobre qualquer espectro existencialista da humanidade, e ao mesmo tempo nos encantar e entreter com suas milhares de histórias transcendentais em corpo e alma. Por isso, escrevo sobre ela, pois foi nos textos críticos que aprendi a olhá-la dessa forma libertadora, e espero libertar muitos da mesma forma.