Crítica | Canção do Cavalo (Uma no Uta)

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Após o lançamento de O Barba Ruiva (1965), um de seus filmes com história mais complicada de produção, ao lado de Dersu Uzala (1975), Akira Kurosawa demorou mais que o normal para encontrar investidores e assinar o contrato de um novo projeto. A relutância de se investirem em obras que poderiam não dar retorno na bilheteria (algo que infelizmente voltaria acontecer com o cineasta em Dodeskaden – O Caminho da Vida, de 1970, o que o levou a tentar suicídio um ano depois, achando que sua carreira tinha chegado ao fim) foi o que Kurosawa mais ouviu naquele momento. Depois de muitas tentativas e como uma promessa de produção rápida vinda com o contrato que gerou Dodeskaden, ele precisou abraçar algo que não gostava nem um pouco: dirigir para a TV.

Comumente apontam O Caminho da Vida como o primeiro filme em cores do Mestre japonês, mas, cronologicamente, este posto pertence ao telefilme Canção do Cavalo (Uma no Uta), que estreou na televisão japonesa em 31 de agosto de 1970, enquanto Dodeskaden faria a sua estreia nos cinemas de Tóquio em 27 de outubro daquele mesmo ano.

Neste documentário, o diretor começa abordando a criação de cavalos e a relação dos humanos com esses animais. Assumidamente apaixonado pelo majestoso mamífero, Kurosawa pretendia fazer algo sobre a relação entre o homem e este animal, mas precisou guinar a sua versão inicial para uma toada mais comercial, trazendo à tona a criação de cavalos de corrida, o que não era nem longe algo que pretendia ou se sentia confortável em fazer. Para cumprir o contrato, no entanto, o diretor seguiu com o projeto, colocando, quase clandestinamente, uma primeira parte (que é excelente, sendo o melhor bloco de todo o filme) exemplificando a majestade do cavalo, o carinho que alguns povos e homens têm para com o bicho e as diversas representações artísticas desses animais.

Rapidamente, porém, o filme muda de rumo e tom. Ainda é possível absorver o lirismo da narração de Hiroyuki Kawase e Noboru Mitani (parecendo uma conversa entre pai e filho), que exprimem um misto de admiração aos animais, comentários sobre o treinamento de cavalos de corrida, sua alimentação, sua “boa vida”. Mas a poesia, o forte elemento de vida que observamos no início do filme desaparece quase por completo, reaparecendo aqui e ali com belos planos de crepúsculos, de algum cavalo descansando e brincando na relva ou de algumas sequências onde os vemos correr, mas não em competição, com selas e cabrestos. Infelizmente, esses momentos são poucos ao longo da fita e, à medida que o documentário se aproxima do final, há um amontoado de cenas que destoam muito entre si, quebrando parcialmente o sentido daquilo que estava sendo narrado, como se o diretor quisesse usar os belos planos que tinha feito antes, mas não sabia onde encaixá-los.

Cheio de grandes imagens, mas com uma mudança brusca e nada interessante de temática ao longo do processo, Canção do Cavalo é mais uma prova de que fazer algo forçado não era mesmo a praia de um grande diretor como Kurosawa. O filme é, no todo, uma boa produção, mas está muito longe de ser algo que realmente pareça ter vindo das mãos de um dos maiores cineastas da História do Cinema. Sua sessão, porém, serve como visão histórica, para conhecer a única produção televisiva que Kurosawa dirigiu em sua vida.

Canção do Cavalo (Uma no Uta) — Japão, 1970
Direção: Akira Kurosawa
Roteiro: Akira Kurosawa, Ryô Kinoshita
Elenco (narração): Hiroyuki Kawase, Noboru Mitani
Duração: 73 min.

LUIZ SANTIAGO (OFCS) . . . . Após recusar o ingresso em Hogwarts e ser portador do Incal, fui abduzido pela Presença. Fugi com a ajuda de Hari Seldon e me escondi primeiro em Twin Peaks, depois em Astro City. Acordei muitas manhãs com Dylan Dog e Druuna, almocei com Tom Strong e tive alguns jantares com Júlia Kendall. Em Edena, assisti aulas de Poirot e Holmes sobre técnicas de investigação. Conheci Constantine e Diana no mesmo período, e nos esbaldamos em Asgard. Trabalhei com o Dr. Manhattan e vi, no futuro, os horrores de Cthulhu. Hoje, costumo andar disfarçado de Mestre Jedi e traduzo línguas alienígenas para Torchwood e também para a Liga Extraordinária. Paralelamente, atuo como Sandman e, em anos bissextos, trabalho para a Agência Alfa. Nas horas vagas, espero a Enterprise abordar minha TARDIS, então poderei revelar a verdade a todos e fazer com que os humanos passem para o Arquivo da Felicidade, numa biblioteca de Westworld.