Crítica | Candyman 2 – A Vingança

Sequências geralmente são industrialmente obrigatórias no mercado dos filmes de terror. Com o sucesso de O Mistério de Candyman, um slasher de luxo lançado numa época de desnutrição para o subgênero, uma continuação era algo inevitável. Assim, em 1995, Bill Condon assumiu o roteiro escrito pela dupla formada por Rand Ravich e Mark Kruger. A ideia era resgatar o personagem e ampliar os caminhos com seu potencial de franquia. O problema é que o tom oportunista se estabelece e Candyman 2 – A Vingança. Há bons momentos, mas no geral, é um filme que desperdiça o seu antagonista, transformando-o em mais um representante slasher com indumentária especial. Tal como a máscara de hóquei Jason Voorhees e as garras de Freddy Krueger, Candyman possui como marca visual a sua capa preta e gancho na mão direita.

Ao longo de seus 93 minutos, Candyman 2 – A Vingança foca na exploração do mito enquanto lenda urbana. Logo na abertura, o professor Philip Purcell (Michael Culkin) ministra uma de suas aulas na universidade e dialoga com o mito de Candyman, personagem interpretado de maneira eficiente por Tony Todd. As pessoas, atentas, ficam fascinadas com o tom macabro da história. É o momento de resgate do “antagonista”, para que possamos compreender os desdobramentos da mitologia sobre o homem que se apaixonou por uma mulher branca e por conta disso, foi perseguido e teve a sua mão direita arrancada, besuntada com mel e exposta às abelhas, para que ficasse claro que relações interraciais não devem ser concebidas com normalidade na sociedade. De Candyman aos dias atuais, a situação em nada mudou.

Mais adiante, adentramos no universo dos novos personagens: Ethan Tarrant (William O’Leary) é um jovem que parece perseguido por Candyman depois de estabelecer contato. Ele se encontra em apuros depois de um encontro com o professor Purcell num bar, situação que acaba com o personagem morto. Ciente de que há uma maldição a gravitar ao seu redor, Ethan pede ajuda à sua irmã, a professora Annie Tarrant (Kelly Rowan), inicialmente cética, mas que logo adiante, ao pesquisar mais profundamente as raízes de sua formação familiar, descobre o parentesco com Candyman e os motivos que o tornaram uma entidade presa num espelho, a atacar quando evocada pelas pessoas que insistem em flertar com a lenda urbana.

As coisas começam a ficar mais estreitas quando um dos alunos de Annie começa a desenhar Candyman em suas atividades, além de algumas imagens momentâneas do “monstro” em passagens diárias da moça. Ela se percebe envolvida na teia inicialmente produzida por seu irmão e parece que, na resolução da história, precisará ceder para os desejos de eternização de Candyman, um personagem que depende da narratividade oral para se manter presente em nosso mundo físico. Ao redor dela e do irmão, diversas pessoas morrem violentamente. Outros membros familiares são acionados para responder aos questionamentos e o rastro de sangue do homem do gancho se espalha cada vez mais pelo espaço cênico da trama.

Por falar em espaço cênico, visualmente, Candyman 2 – A Vingança é uma experiência estética comum. Philip Glass assumiu, mais uma vez, a trilha sonora, utilizada exaustivamente para promoção da atmosfera de medo e horror. A direção de fotografia de Tobias A. Schliessler não assume uma postura mais sofisticada, mantendo-se apenas informativa com os seus ângulos baixos na presença de Candyman, dando-lhe posição de poder, enquanto as vítimas ocupam os espaços interiores dos ângulos altos, expostos diante de suas respectivas vulnerabilidades O design de produção assinado por Barry Robinson segue o mesmo caminho da captação de imagens, mais dedicado nos cenários em flashback e nas abordagens sobrenaturais. Bruce Finlayson, nos figurinos, imprime ao antagonista o seu visual sempre imponente.

Ademais, a simbologia do espelho nesta sequência de O Mistério de Candyman abre espaço para interpretações alegóricas muito interessantes. Uma delas é o nosso olhar diante do racismo estrutural: os brancos e negros que olham para o espelho enxergam no reflexo o racismo cotidiano. É uma alegoria forte e intensa, mas que também tem um lado de enfraquecimento para Candyman, pois o torna uma mera assombração que habita o interior metafórico de um espelho. Outra coisa que se tornou uma praga nos filmes hollywoodianos, não apenas no segmento terror: o narrador que reforça as coisas que já estão dispostas nas imagens. Realmente necessário? Será que o público emburreceu tanto? Para reflexão, algo que continuou em 1999, com a terceira inserção do antagonista e suas vítimas em Candyman 3 – Dia dos Mortos.

Candyman 2 – A Vingança (Candyman: Farewell To The Flash/Estados Unidos, 1995)
Direção: Bill Condon
Roteiro: Rand Ravich, Mark Kruger, Clive Barker
Elenco: Tony Todd, Kelly Rowan,Bill NunnWilliam O’Leary, Veronica Cartwright, Matt Clark, Randy Oglesby, Joshua Gibran Mayweather,David Gianopoulos
Duração: 93 min

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.