Crítica| Candyman 3 – Dia dos Mortos

Diferente de Pinhead e sua turma, o universo de Candyman não se expandiu muito, ambos oriundos da escrita literária macabra de Clive Barker. O “homem do gancho”, na contramão do “homem da cara de pregos”, teve apenas três filmes, com mitologia encerrada em 1999, resgatada recentemente com o anúncio do cineasta Jordan Peele, interessado na releitura do personagem que demarcou um suspiro de criatividade e dignidade no slasher em sua fase tardia. Lançado diretamente para o mercado de vídeo, Candyman 3 – Dia dos Mortos, trouxe mais uma etapa de matanças para o antagonista que tal como sabemos, foi morto no passado por conta da postura racista do pai de uma cliente que ele havia pintado, se apaixonado e engravidado.

Desta vez, Turi Meyer assumiu a cadeira de diretor, tendo como guia o roteiro escrito em parceria com Alfred Septien. A trama continua no ambiente familiar, sendo a sua bisneta o alvo quase incestuoso da vez, haja vista a forma como o “monstro” pede que a jovem se entregue para o seu universo sobrenatural repleto de abelhas, um convite repleto de conotações sexuais. Caroline McKeener (Donna D’Errico) é a perseguida da vez. Ela despreza a lenda de Candyman (Tony Todd) e prefere pensar no personagem pelo viés humano, isto é, o da vítima de preconceito racial. As pessoas que gravitam ao seu redor, no entanto, pouco se importam com esse discurso. Elas querem mesmo a exploração do lado macabro da história, desejo que se tornará realidade para muitos incautos que sequer imaginam a presença cada vez mais próxima do furioso homem do gancho.

Durante um evento numa degradada galeria de artes, ela é pressionada e acaba por clamar por Candyman cinco vezes diante do espelho. As luzes estão acesas, o local está repleto de curiosos e pessoas que supostamente admiram obras de arte e boquiabertos, todos contemplam a coragem da moça em evocar a lenda tão temida. Ela demorar a crer que despertou Candyman e suas abelhas inquietas. Só desperta para a situação quando percebe que da mesma maneira dos episódios anteriores, diversas pessoas estão morrendo misteriosamente ao seu redor. Única herdeira das obras de arte do bisavô, aparentemente a moça terá como tarefa a eliminação das pinturas como uma estratégia para dizimar o monstro. Será que vai dar certo?

A missão de Candyman, personagem interpretado por Todd num desempenho mais burocrático que inspirado, é fazer a moça se entregar para ele e seguir rumo ao mundo sobrenatural, sem deixar, claro, de ser uma das histórias mantidas pela narratividade oral na sociedade, estratégia de permanência do mito para a “eternidade”. A diferença desse filme para O Mistério de Candyman é a forma como tal abordagem se estabelece na narrativa, de maneira quase desapercebida, tamanha a preocupação dos realizadores em explorar a sanha assassina do monstro que tal como Freddy, Jason, Michael, Pinhead e outros representantes slashers, depende da contagem de corpos para permanecer industrialmente relevante.

Com retorno num feriado tão peculiar, isto é, o Dia dos Mortos, Candyman faz vítimas a cada instante, vem acompanhado de jumpscare, os malditos, mas amados, ferrões sonoros comuns em filmes de terror, criados para promover sustos, muitas vezes, gratuitos. São recursos que complementam a histérica trilha sonora de Adam Gorgoni, acompanhamento para as imagens de Michael G. Wojciechawski em sua adequada direção de fotografia. Os ambientes são erguidos pelo design de produção de Marc Greville, pouco inspirado se comparado aos filmes anteriores, espaços por onde circulam os personagens trajados pelos figurinos bem urbanos de Sylvia Veja-Vasquez, setor com destaque apenas para a indumentária já estabelecida de Candyman.

Assim, sutilezas, mistério, necessidades dramáticas e estudo de personagens dão lugar para o espetáculo da violência, pouco impactante, por sinal, comparado ao que já havia sido feito em questão de assassinatos no cinema de horror estadunidense. A franquia Pânico, por exemplo, já estava em seu terceiro filme em 1999. E, em sua mesclagem de entretenimento, estética e crítica social, apresentou ao público um show de sangue, discurso politizado e renovação da linguagem do terror, o que deixou Candyman 3 – Dia dos Mortos ser apenas mais um slasher inexpressivo, cinematograficamente pecaminoso quando colocado ao lado do primeiro e até mesmo do segundo filme, Candyman 2 – A Vingança, razoável, mas relativamente interessante.

Candyman 3 – Dia dos Mortos (Candyman: Day of the Dead/Estados Unidos, 1999)
Direção: Turi Meyer
Roteiro: Al Septien, Turi Meyer
Elenco: Tony Todd, Donna D’Errico, Jsu Garcia, Ernie Hudson Jr., Wade Williams Lt, Robert O’Reilly, Lombardo Boyar, Lupe Ontiveros, Lillian Hurst
Duração: 93 min

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.