Crítica | Cangaço Overdrive

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A História de todo país é rica em material para ser explorado pela ficção, sob os mais diferentes pontos de vista. No Brasil, desde os povos nativos, passando pela colonização e vindo até os nossos dias, temos uma galeria gigantesca de personalidades em quem se inspirar, assim como em acontecimentos, movimentos, guerras, ideias e mudanças político-sociais que podem gerar interpretações conceitualmente históricas, como as que temos em A Independência do Brasil em Quadrinhos, Angola Janga ou Holandeses; ou versões fictícias que podem estar no passado, presente ou futuro, o tempo distópico onde acontece Cangaço Overdrive, de Zé WellingtonWalter GeovaniLuiz Carlos B. FreitasRob Lean.

Como o título anuncia, entra em cena o chamado “movimento de banditismo” que tomou conta do sertão nordestino por um período constantemente em debate entre historiadores, com pesquisas que apontam o início desde 1775, com O Cabeleira ou, em interpretações mais tardias, na década de 1820. O fim é quase unânime: 1940, com o assassinato de Corisco. É da mitologia desse largo movimento que Zé Wellington tira o sumo para Cangaço Overdrive, que se anuncia da seguinte forma: “Em um futuro possível, o Ceará enfrenta a sua maior seca em séculos. Uma terra esquecida pelo governo e dominada pelos interesses dos conglomerados empresariais, este é o cenário árido onde um lendário cangaceiro e um impiedoso coronel são reanimados para continuar a peleja que deixaram no passado“.

Com o melhor das narrativas ágeis, o texto começa com a preparação de uma fuga, seguida de perseguição. Não há nenhum didatismo bobo por parte do autor para nos indicar que estamos no futuro e disso, a arte se encarrega muito bem, com a escolha “do quê” e “de como” colocar gadgets nos quadros. Dessa primeira cena noturna, meu único e pequeno problema é só com a aplicação de cores. De imediato, chama a atenção o sotaque. E devo dizer: como é gostoso ler um roteiro com palavras e usos que REALMENTE fazemos de determinadas palavras no Nordeste, sem aquela afetação farsesca das novelas ou mesmo de roteiristas que fingem estar sendo precisos no vocábulo, mas quase cruzam a linha do ofensivo, de tão absurdo. E melhor ainda: a escolha de palavras mais típicas do que específicas foi um grande acerto do autor. O Nordeste é uma região grande e cada Estado tem gírias e uso de palavras com impacto local, que definhariam em um contexto amplo. Em Cangaço, temos não somente o bom uso, mas uma boa escolha de palavras. A trama se passa no Ceará mas eu, como pernambucano, me senti em casa.

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“É o Cotiara”.

Quando li a sinopse da história, um dos grandes medos era a forma como o cangaceiro Cotiara e o coronel Avelino seriam colocados no enredo. Trabalhar com personagens fora de seu tempo histórico não é fácil, por dois motivos simples: 1) adequação dos indivíduos ao novo tempo e 2) maneira orgânica de colocá-los e retirá-los de cena. Com o contexto social muito bem estabelecido já no início do volume, Zé Wellington conseguiu inserir Cotiara de maneira fluída, como uma espécie de Cavalo de Troia em um cenário de luta pela sobrevivência, por água e por terra. E essa entrada se dá com toda a devida pompa. A escolha de uma página inteira para a arte (fantástica, por sinal, com todos os detalhes da vestimenta do cangaceiro bem colocados e sem exageros) trouxe para o leitor o mesmo impacto que o personagem teve para os seus. Daí para a chegada do teor messiânico, o uso de tecnologia repensada para um futuro próximo (o cyberpunk é uma referência aquie a crítica através de lutas sociais/humanistas que temos hoje, é um pulo bem dado. E me impressionou o fato de o autor trabalhar tantos temas e não pesar a mão em nenhum deles, sabendo o que cortar, sem perder tempo com informações ou mesmo provocações desnecessárias através dos diálogos (tentação à qual poucos roteiristas resistem).

Com narração secundária feita em forma de cordel, quebrando a quarta parede; com belos flashbacks num fantástico uso de cores e leve mudança na finalização da arte — dando realmente a cara de um retorno ao passado que vale a pena ver, inclusive com um contraste atmosférico em relação ao presente –; e com um final emotivo, mais um convite a boas especulações, Cangaço Overdrive é o retrato de uma luta que o Brasil conhece bem, inclusive na escolha de suas figuras de salvação e de seus grandes vilões. Da política e exploração corporativa de populações locais até lendas misturadas com tecnologia, a obra entretém, emociona e faz pensar. Tá aí um quadrinho erretado!

Cangaço Overdrive (Brasil, 2018)
Roteiro: Zé Wellington
Layouts: Walter Geovani
Arte: Luiz Carlos B. Freitas
Arte-final: Rob Lean
Cores: Dika Araújo (com Mariane Araújo) e Tiago Barbosa (flashbacks)
Letras: Deyvison Manes
Capa: Daniel Canedo
Editora: Draco
71 páginas

LUIZ SANTIAGO (Membro da OFCS) . . . . Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.