Crítica | Capitã Marvel: Braver & Mightier

Margaret Stohl escreveu dois arcos de A Poderosa Capitã Marvel e um de Capitã Marvel (com a numeração legado), logo partindo para uma minissérie – A Vida da Capitã Marvel – que alterou consideravelmente a origem dos poderes de Carol Danvers. Provavelmente como uma transição entre equipes criativas, que terá Kelly Thompson à frente, a Marvel Comics publicou uma edição única, ou one-shot, tendo a heroína como protagonista e Jody Houser como roteirista.

É uma história simples, contemplativa, que procura reiterar a importância da Capitã Marvel para a Terra, com a ação sendo dividida entre um conflito da heroína enfrentando uma invasão alienígena aleatória em órbita do planeta e um evento comemorativo – o Dia da Carol Danvers – em um museu aeroespacial, com dois jovens proto-jornalistas querendo entrevistá-la para uma publicação da escola local. Não existe um conflito propriamente dito, pois a invasão espacial é daquelas “para inglês ver”, mas a abordagem de Houser é bonita e encapsula bem os valores da heroína e o que ela sempre representou para o movimento feminino desde sua concepção em 1977.

Não há, portanto maiores pretensões aqui além de ser um simpático interlúdio em preparação para o novo run da heroína que, para variar, já começou zerado novamente (hoje, no dia de publicação da presente crítica, ele está apenas na segunda edição),mas que, pelo menos, terá a indicação do número de legado para parar de enlouquecer o leitor. Tomara que, sob a batuta de Thompson, a série mantenha-se no ar por mais tempo do que um ou dois anos, repetindo o sucesso do volume 2 de Miss Marvel, até agora a mais longeva publicação tendo Carol Danvers como protagonista, com 50 edições.

A arte, aqui, ficou sob a responsabilidade de Simone Bufantino, que mais uma vez levemente redesenha o uniforme da Capitão, deixando-o mais esguio, menos militaristico, voltando com as luvas curtas e alterando o corte de cabelo de Danvers, que volta a ter longas madeixas loiras, o que empresta um conjunto mais harmônico à personagem. A edição, com apontado, não é particularmente cheia de ação, mas o que há, Bufantino tira de letra, com alguns bons momentos em que a armada alienígena sofre na mão da Capitã.

No entanto, há um aspecto que tenho a obrigação de salientar, por já ter cantado essa pedra quando de minha crítica de A Vida da Capitã Marvel. Há spoilers da minissérie a partir de agora.

Lá, a origem dos poderes de Carol Danvers foi completamente desvinculada de Mar-Vell, o Capitão Marvel original e eu disse que esse seria potencialmente o começo para que o clássico e sofrido personagem – o único da editora a ter uma morte humana e perfeitamente relacionável – fosse varrido para debaixo do tapete editorial, ficando esquecido. O primeiro sinal de que isso já está acontecendo é o resumo de quem é a Capitã, na página de abertura do one-shot, que traduzo aqui: “Nascida de uma mãe Kree e um pai humano, a ex-piloto da Força Aérea American Carol Danvers tornou-se uma super-heroína quando um aparelho Kree ativou seus poderes latentes. Agora, ela é uma Vingadora e a Heroína Mais Poderosa da Terra”. Não preciso dizer muito mais, não é mesmo?

Mas há mais. Lá para o final, há uma bela splash page de Bufantino que mostra a evolução da heroína, passando por todas as suas “versões”. Há alguma menção ao Capitão Marvel, mesmo que de soslaio? Claro que não. Posso parecer monotemático, mas enterrar um grande herói da editora só porque há uma necessidade boba de se desvincular a origem de uma mulher poderosa de um homem poderosa, não me parece um caminho respeitoso a se tomar. A Capitã Marvel não precisa ter seu passado apagado para firmar-se no panteão super-heróico da Marvel Comics. Ela precisa, apenas, de uma equipe criativa que faça mais do que o apenas mediano para ela, como foi o caso de Kelly Sue DeConnick que, aliás, trabalhou magnificamente bem a mitologia do Capitão Marvel para construir a Capitã.

Braver & Mightier, apesar de minha ressalva final, é um one-shot bonito e merecedor de uma leitura descompromissada. Tomara que esse seja um sinal de que a próxima equipe criativa acertará o passo da heroína.

Capitã Marvel: Braver & Mightier (Captain Marvel: Braver & Mightier, EUA – 2019)
Roteiro: Jody Houser
Arte: Simone Bufantino
Cores: Erick Arciniega
Letras: Travis Lanham
Editoria: Mark Basso
Editora original: Marvel Comics
Data original de publicação: fevereiro de 2019 (data de capa: abril de 2019)
Páginas: 23

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.