Crítica | Capitã Marvel (Com Spoilers)

  • Leiam, aqui, nossa crítica sem spoilers e acessem, aqui, nosso índice do Universo Cinematográfico Marvel.
  • Confiram, aqui, nosso Entenda Melhor com as referências e easter-eggs do filme.

Prelúdio à Heroína

O que significa um personagem carregar o nome de uma empresa em seu nome, uma empresa que significa espanto, maravilha e admiração? Espanto para aqueles que não esperavam ver uma mulher no posto do super-herói mais poderoso de um universo – e sim, a Capitã Marvel (Brie Larson) é vista dessa maneira pelo longa-metragem. Consequentemente, um senso de maravilha e admiração ao fim da projeção, porque sua obra-homônima é basicamente uma construção de um mito, paralelamente à construção de uma personagem. Carol Danvers pode não ser a personagem feminina mais relevante no cânone da editora, contudo, casa perfeitamente com a ideia na qual os universos de super-heróis se fundamentam, principalmente esse específico. Isso significa a Marvel.

E ler Marvel sempre foi sobre identificar-se ao maravilhamento. Era uma criança olhando para os quadrinhos e sendo capaz de admirar coisas que eram relacionáveis ao mundo real, seja um contexto político, seja dilemas pessoais e ordinários, seja a cor de uma pele, uma realidade própria ou o gênero do leitor. E Capitã Marvel é uma obra que, fora a representatividade óbvia que carrega por trazer uma única protagonista feminina – a primeira em vinte e um filmes já lançados -, consegue unir as essenciais singularidades Marvel com o pretexto pelo encantamento e pela crença no impossível, na grandiosidade do ser. É a primeira vez que a Marvel Studios decide criar uma personagem – até o seguinte momento – completamente “marvel“. Um Superman para o hoje.

E tudo isso surgindo após o evento cinematográfico chamado Vingadores: Guerra Infinita, que culminou no fracasso compartilhado por todos os heróis já apresentados pela empresa. É possível acreditar em salvação quando o Homem de Ferro, o Thor e o Capitão América não conseguiram prevenir o mundo da catástrofe? Não estamos apenas falando aqui de filmes inspirados em quadrinhos, e sim filmes que carregam o conceito de super-herói em seu DNA. Muito mais que personagens, muito bons e inseridos em histórias decentes, estamos presenciando a construção de símbolos. Capitã Marvel é o símbolo mais significativo que a Marvel Studios já ousou construir. Sua obra homônima concretiza o que a cena nos créditos de Vingadores sugeriu a nós: esperança.

Impacto da Heroína

Anteriormente, muitas obras dessa saga cinematográfica buscaram consolidar um viés emocional que costumeiramente soou capenga. Uma morte de um irmão em Era de Ultron. Uma morte de um pai em Thor: Ragnarok. Anna Boden e Ryan Fleck são diretores que, já no texto, compreendem a adaptação dessa personagem à realidade do Universo Cinematográfico Marvel. Deixam qualquer vertente sentimentalista de lado – usando-a, curiosamente, pontualmente apenas no espaço dos antagonistas – para focar numa jornada interior da sua protagonista, então uma guerreira Kree chamada Vers, mas que não consegue se lembrar de seu passado. Concilia tudo isso com a proposta em questão, que é permitir ao público celebrar Carol, enquanto heroína e também mulher.

O terceiro ato, principalmente o clímax, comprova essas intenções. Quando Carol consegue desbloquear os seus poderes Kree e controlá-los completamente (tornando-se a versão do UCM de Binária, uma de suas personas nos quadrinhos), ninguém torna-se páreo à mulher. Uma afirmação de Ronan, o Acusador (Lee Pace) marca: “a mulher”, enquanto refere-se à Capitã, não mais como uma arma para os Kree, justamente a intenção que Yon-Rogg (Jude Law), seu mentor (e o primeiro vilão da mitologia do Capitão Marvel, que originou Miss Marvel e, então, a Capitã), possuía para ela. Nasce uma empolgação ao espectador que se assemelha com a aparição de Thor na Batalha de Wakanda, em Guerra Infinita. É o Superman girando a Terra para salvar sua Lois Lane, enquanto, aqui, temos Carol Danvers salvando a Terra para proteger simplesmente duas civilizações inteiras: as dos Skrulls, um supremo plot twist, e as dos terráqueos.

Um empoderamento, que também marca a vertente do feminino trajada pelo filme, mas que soa extremamente natural à jornada da personagem, querendo redescobrir sua própria grandeza, característica que a acompanha desde sua infância, como mostram os flashbacks. Capitã Marvel, enquanto obra cinematográfica, também redescobre essa grandeza na personagem. Tais interações com Nick Fury (Samuel L. Jackson) promovem a empatia de um soldado arriscando-se para salvar um novo amigo: pequena amostra de caráter, mas importante porque molda qual é a narrativa da obra. Os outros relacionamentos também abraçam o seu propósito, que é coeso, sem digredir. Maria Rambeau (Lashana Lynch) carrega uma reafirmação à elevação pré-Kree de Carol.

Demorou mais de um filme para o Capitão América ir contra o governo, enquanto a inspiração de Danvers, a cientista Wendy Lawson, nome na Terra para a Kree chamada Mar-Vell – Annette Bening em um papel muito interessante que inverte o gênero do clássico herói dos quadrinhos -, já é a antítese por excelência das contradições governamentais legitimadas. Carol Danvers é a amálgama das jornadas desses heróis. O despertar dos seus poderes, em uma cena imageticamente formidável – os poucos casos em que a montagem é realmente uma ajuda para o longa -, lembra Thor: Ragnarok, quando Thor enfrenta Hela. Como Stark em Os Vingadores, Carol também reverte a trajetória de uma ogiva. O longa é sincero, apresentando com coerência justamente a inspiração de Fury para a Iniciativa Vingadores.

Jornada da Heroína

Com isso em mente, os relacionamentos mostram ser um dos corações do longa-metragem. Brie Larson, como Carol, é carismática, transportando sua ironia, seu atrevimento, para dentro das cenas de ação – que não são muito boas, entretanto. O roteiro e a direção de atores compreende com precisão a comunicação entre a premissa e a execução do projeto. Dado o atrevimento, a exemplo, Larson mostra, na encenação, uma confiança em si que é admirável e auto-consciente dos poderes que usufruirá em seguida. O voo surge como uma emancipação do ser perante a instituição – a mulher que não mais possui um papel restrito na sociedade – , agora pronta para seguir os passos daquela pessoa que admirava, Mar-Vell. É sobre o cidadão pensar por si mesmo.

Em uma outra instância, usando a narrativa como propósito e não gratuitamente, Capitã Marvel usa esse relacionamento de admiração, que é core de uma comunicação avantajada entre a obra e a massa, até mesmo de uma maneira literal, por conta do papel que assume uma das antagonistas do lado Kree, a Inteligência Suprema. Mais para frente, tal personagem desponta como uma personificação decente do combate interno da protagonista – que é marca de uma ficção-científica tornada minimalista e não grandiloquente, nada épica, como Superman – O Filme não era também. O tempo todo reafirma-se uma coerência. O olhar de Monica (Akira Akbar, futura super-heroína, podem anotar) à Carol nota a passagem do culto à imagem de um herói, antes Lawson, à Danvers, assim como acontece a Fury.

Outro gancho bastante importante é o humor, que acompanha as reviravoltas com destreza. Na cena inicial, Yon-Rogg aponta para Carol que a comédia é um empecilho ao seu treinamento. Korath (Djimon Hounson), mais para frente, não consegue rir. O humor é usado como ferramenta de empatia do público com os personagens, absorvendo melhor as mudanças de lado e até mesmo os maniqueísmos. Por outro lado, Talos (Ben Mendelsohn), o Skrull do mal que se torna o Skrull do bem, é vivido com uma graciosidade inerente à performance de Mendelsohn. Em sua apresentação, confunde-se com certas memórias ao ver flashes do passado de Carol, então capturada pela raça dos “inimigos”. O personagem rouba inúmeras cenas, sempre com delicadeza.

Mesmo assim, a direção, para ação, não é muito competente. Usa de músicas da época, por exemplo, como muleta. A contextualização da época engrena apenas com a trilha original, que se ritmiza com as propostas de gêneros e atmosfera. Dada a entrada de Fury – os efeitos visuais são bons – na trama, o longa torna-se um buddy cop movie, mais espirituoso por conta dos atores do que das cenas. O som, porém, captura o sentimento intencionado, um pouco televisivo até. O conjunto, nesse ar de televisão, contudo, perde tempo demais sem continuar a explorar suas potências prévias. E o começo da obra, honestamente, é desinteressante, partindo da pobreza visual dada à Hala. Yon-Rogg e os Kree, a exemplo, perdem a presença. Então, vêm as melhorias.

A Heroína em Terra de Faroeste

E, assim, entra um sub-texto estupendo da obra: sobre a América e sobre o herói defender ideais legítimos, e conseguir colocar fim em guerras injustas e absurdas. Como Capitão América: O Soldado Invernal e Capitão América: Guerra Civil, e – para uma noção contrária – também os planos de Thanos em Guerra Infinita, essa é uma obra consideravelmente anti-institucional, preferindo o poder de um herói, a crença no mito, como única possibilidade para o sucesso, e não o de exércitos e governos. É realmente a utopia super-heroica, a crença na figura encapuzada e só. A Guerra Kree-Skrull, como revela ser, não é uma guerra, porém, um extermínio. Ogivas não são jogadas nos planetas por fins libertários, mas destruidores. Inspirado em fatos reais, portanto?

Novamente remete ao Superman. Mas um Superman com jeito “marvel“, porque parte, agora, de uma noção relacionável ao mesmo tempo que admirável e cultuável. Já o Superman, em seu coração imenso e ímpar, é apenas a personificação da esperança, embora utópica e inalcançável. A Marvel, por algum motivo, consegue acreditar – o Homem-Aranha é o herói que todos os jovens “podem” ser -, sendo mais inocente nesse ponto, e novamente recorrendo a uma puerilidade de espírito. Capitã Marvel também abraça as cores da bandeira norte-americana, mas as cores de uma bandeira que representa ideais que só se concretizam em indivíduos. Vocês podem ler o que escrevi sobre o Homem de Aço, e sobre os valores presentes em sua gênese heroica, nesse texto.

Enquanto na conclusão de O Primeiro Vingador, o Capitão América sacrificava-se em prol de milhões de pessoas, porém, terminava sobrevivendo milagrosamente por conta do congelamento de seu corpo de super-soldado, Carol Danvers se sacrifica ao atirar no núcleo da aeronave, ganhando os seus poderes consequentemente. Mas, aqui, o ato de sacrifício é causa primeira, porque, como super-poderosa, a mulher não precisa se sacrificar – o que molda o clímax completo, um empoderamento da Capitã perante as forças inimigas propostas, indo mais alto, mais longe e mais rápido que elas. Sua mera existência já basta, assim como, em Superman – O Filme, Clark Kent meramente existir, entendendo sua missão, era o que importaria para o mundo viver em paz.

A Heroína Marvel por Excelência

Nos moldes por vezes restritivos dos blockbusters de hoje, e do consumo em massa de obras de super-heróis, Capitã Marvel mostra sua nobreza e explora suas temáticas com profundidade e sagacidade. É essencialmente Marvel, a partir da jornada de engrandecimento à protagonista que promove, juntamente com uma ideia de associação. Em comparação a Mulher-Maravilha, sabe muito mais o que fazer com a sua importância. Pois Mulher-Maravilha usava sua relevância para a indústria cinematográfica e para a sociedade em cenas mais específicas, terminando por ser valorizada mais externamente que por si só, enquanto em Capitã Marvel a questão da representatividade, o poder da mulher, é parte de sua intenção, parte da sua linguagem particular.

Muito antes de ser a Capitã Marvel, Carol era uma garota destemida encontrando seu espaço num mundo de homens. Uma criança, uma adolescente, uma jovem adulta. A transformação em Kree seria o ponto de partida para a personagem, caso todo o seu passado já não presumisse uma jornada de herói. Em terra de faroeste, Danvers atira primeiro. Durante o confronto final entre a protagonista e Yon-Rogg, Brie Larson é quase uma mistura de Clint Eastwood com Harrison Ford, sem precisar provar nada a ninguém – e a trilha sonora brinca, espirituosamente, com melodias de western. Qual garoto não queria ser seus heróis favoritos? Uma mistura perfeita de crença no mito do herói com crença em poder ser o herói, de uma forma ou de outra. Capitã Marvel é a obra mais Marvel que essa saga cinematográfica já trouxe ao mundo. Contudo, essa é mais. Obrigado, Stan.

Capitã Marvel (Captain Marvel) – EUA, 2019
Direção: Anna Boden, Ryan Fleck
Roteiro: Anna Boden, Ryan Fleck, Geneva Robertson-Dworet
Elenco: Brie Larson, Samuel L. Jackson, Ben Mendelsohn, Jude Law, Annette Bening, Lashana Lynch, Clark Gregg, Rune Temte, Gemma Chan, Algenis Perez Soto, Djimon Hounsou, Lee Pace, Chuku Modu, Matthew Maher, Akira Akbar, Azari Akbar, Kenneth Mitchell
Duração: 124 min.

GABRIEL CARVALHO . . . Sem saber se essa é a vida real ou é uma fantasia, desafiei as leis da gravidade, movido por uma pequena loucura chamada amor. Os anos de carinho e lealdade nada foram além de fingimento. Já paguei as minhas contas e entre guerras de mundos e invasões de Marte, decidi que quero tudo. Agora está um lindo dia e eu tive um sonho. Um sonho de uma doce ilusão. Nunca soube o que era bom ou o que era ruim, mas eu conhecia a vida já antes de sair da enfermaria. É estranho, mas é verdade. Eu me libertei das mentiras e tenho de aproveitar qualquer coisa que esse mundo possa me dar. Apesar de ter estado sobre pressão em momentos de grande desgraça, o resto da minha vida tem sido um show. E o show deve continuar.