Crítica | Capitã Marvel – Prelúdio do Filme

Já li todos os prelúdios em quadrinhos dos filmes do Universo Cinematográfico Marvel e sei que eles são quase que invariavelmente ruins, no nível de fillers safados para arrancar dinheiro dos leitores. Alguns escapam dessa sina, como foi o caso do prelúdio de Guerra Infinita, mas o resto é a xepa da feira da Nona Arte, que parece escrito literalmente nas coxas, provavelmente com remuneração pífia e sem a menor intenção de fazer o que seria óbvio: aproveitar a riqueza do UCM para criar um universo em quadrinhos próprio que fizesse verdadeiramente as pontes entre os filmes.

Portanto, diante dessa situação tétrica, eu já me considero feliz quando um desses prelúdios conta uma história completa, o que acontece na maioria dos casos, para ser sincero. O que me irrita constantemente é quando o tal prelúdio é, na verdade, recortes de sequências de filmes anteriores com uma ou duas páginas de material tão inédito quanto inócuo. E essa segunda situação é o caso aqui do prelúdio de Capitã Marvel.

Aliás, nem sei se posso mesmo chamar esse prelúdio de prelúdio. Para começar, sabe a tal personagem do título? Pois bem, ela não dá as caras. Nunca, nem por um quadro. Ela só é indiretamente indicada pelo pronome “ela” em um balão de fala de Nick Fury e, claro, com o pager sendo ativado na última página, exatamente como na cena pós-crédito de Guerra Infinita. Portanto, se alguém quer algo da personagem, não será aqui que encontrará (melhor clicar em uma dessas outras críticas aqui para isso). E, se alguém quiser uma história com começo, meio e fim (ou só dois desses três), também não encontrará aqui, pois o que temos é um recorte e colagem de sequências de Era de Ultron, Guerra Civil e Guerra Infinita intercaladas com conversas entre Fury e Maria Hill sobre a necessidade dos dois “desaparecerem”. E olha, nem esse material inédito é bem trabalhado, pois a justificativa para isso é pífia e não convence nem leitores de primeira viagem, ainda no Jardim de Infância dos quadrinhos.

Um dos problemas para essa história tão vazia é ela ter sido lançada em novembro de 2018, ou seja, muitos meses antes do filme que em tese preludia, época em que muita coisa ainda estava sendo mantida em segredo. Talvez uma história publicada poucas semanas antes do filme poderia trazer mais material, nem que fosse uma página só da infância de Carol Danvers na Terra e, sei lá, alguns quadros dela em Hala ou seja-lá-onde-for. Outro problema é que Will Corona Pilgrim quando escreve muito bem, não faz nada mais do que mediano e, aqui, ele não escreve muito. Então já viu, não? Ele é veterano desses prelúdios e tenho certeza que, um dia, em um futuro ainda talvez distante, ele olhe para trás e envergonhe-se do que teve que escrever para colocar pão na mesa.

Mas nem tudo se perde! Andrea Di Vito é o artista do prelúdio e seu trabalho é um colírio para olhos que são obrigados a ler a coisa sem graça que é o texto de Pilgrim. Não, não é uma arte de fazer o queixo cair, muito longe disso, mas pelo menos não parece ser algo jogado nas páginas ou feito como se a encomenda tivesse chegado duas horas antes do expediente acabar em véspera de feriado bancário. Além disso, seu trabalho não chega nem perto de começar a salvar a obra como um todo, mas pelo menos fazem as 20 páginas passarem sem que o leitor tenha um ataque de fúria e rasgue a HQ ou, no meu caso, arremesse longe o tablet. Ainda resultará em raiva incontida, mas não é nada que um soco na parede não resolva.

Esse recorte que acha que é um prelúdio e que nem a personagem-título mostra não precisava existir. A Marvel tem um potencial tão grande para trabalhar esses quadrinhos, mas ela prefere surfar no sucesso do UCM e não fazer o menor esforço para fazer algo passável naquilo que, por décadas e décadas, foi sua especialidade única. Perde a editora e perdem os leitores. Um desperdício sem sentido.

Capitã Marvel – Prelúdio do Filme (Captain Marvel – Prelude, EUA – 2018)
Roteiro: Will Corona Pilgrim
Arte: Andrea Di Vito
Cores: Laura Villari
Letras: Travis Lanham
Editora original: Marvel Comics
Data original de publicação: novembro de 2018
Páginas: 21

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.