Crítica | Capitão América (1944)

Como adaptação do Capitão América:

Como um serial de ação:

Capitão América não só foi o último serial de super-heróis da Republic Pictures, como fez história como a primeira adaptação audiovisual de um personagem hoje da Marvel Comics, ainda que, à época, a editora fosse sua antecessora Timely Comics. Considerando que o Superman só ganhou seu primeiro serial 10 anos depois de ser lançado em quadrinhos, é uma surpresa que o Bandeiroso tenha aparecido nos cinemas em formato serializado de 15 capítulos meros três anos de sua criação por Joe Simon e Jack Kirby.

No entanto, apesar do orçamento polpudo e da boa qualidade desse serial, é desapontador ver que o que foi feito não pode ser chamado, de verdade, de uma adaptação. Sou o primeiro a defender que adaptações não precisam ser escravas do material fonte se o espírito da obra original for mantido. Na verdade, eu até prefiro que as adaptações fiquem a uma salutar distância de sua influência criativa, especialmente se for em outra mídia, para evitar que só tenhamos mais do mesmo. Esse Capitão América da Republic é tão distante, mas tão distante daquele publicado pela Timely Comics que não é o uso do nome do super-herói e de uma versão razoavelmente parecida de seu uniforme que fazem do serial uma adaptação que possa ser chamada assim.

Aos que não tiveram contato ainda com esse serial, vale listar as abissais diferenças entre o personagem dos quadrinhos e este outro que se chama de Capitão América no serial:

  • A identidade secreta do Capitão é a do promotor público de meia idade e um tanto fora de forma Grant Gardner (Dick Purcell, que faleceria logo depois de acabar as filmagens);
  • Mesmo tendo sido produzido em plena Segunda Guerra Mundial, o personagem não tem nenhuma conexão com a guerra, seja em termos de origem (que não é explicada), seja em termos de ambientação;
  • O único sinal do famoso escudo do Capitão está na fivela do cinto do personagem. Sua arma padrão, no serial, é apenas uma pistola;
  • Não existe nada nem de longe que se conecte com alterações biológicas como as que Steve Rogers se submeteu para tornar-se o Capitão.

Mesmo que ignoremos esses “detalhes”, a própria existência de uma persona super-heroística para Grant Gardner não ganha nenhuma justificativa,pois tudo o que ele faz como Capitão América ele poderia fazer tão eficientemente quanto como promotor público, sem precisar inexplicavelmente colocar um uniforme patriótico que nunca se conecta com a história. Alguns podem estar coçando a cabeça para entender o porquê disso tudo e, ainda que não exista uma explicação oficial para o absurdo distanciamento do material fonte, a teoria prevalente é que a Republic Pictures, já com a produção adiantada, teve por alguma razão que trocar de super-herói e acabo obtendo uma licença da Timely Comics em relação ao Capitão América, então em óbvia evidência. Para não alterar muito o que já havia sido produzido, o que significaria gastar mais dinheiro para um serial que já estava custando bem caro, a produtora simplesmente “vestiu” seu protagonista com o uniforme do Capitão sem se preocupar com o super-herói dos quadrinhos, ainda que ela nunca realmente tivesse procurado ser fiel em suas outras adaptações. Seja como for, o resultado não poderia ser mais diferente do Capitão América que conhecemos.

Se, porém, tivermos a capacidade de pegar o inusitado dessa situação e o alojarmos em alguma prateleira mental separada, é perfeitamente possível apreciar esse longa-metragem em 15 partes que coloca o Capitão América contra o Escaravelho (Lionel Atwill), vilão que deseja obter toda a sorte de armas mortais para fazer suas vilanias de praxe, sendo a primeira delas um hilariamente intitulado Vibrador Dinâmico. Cada episódio ou, em alguns casos, dupla de episódios, lida com uma nova potencial arma que Gardner como promotor ou como Capitão precisa impedir que caia nas garras do Escaravelho.

A estrutura clássica de “caso da semana” era a regra absoluta para os serials da época, mesmo que, se encararmos de forma macro, cada um deles contasse uma história única. Mas a produção de Capitão América, como disse mais acima, foi muito caprichada, com belos efeitos especiais e muitas ações de dublê da mais alta qualidade. Além disso, algumas outras características diferenciam positivamente a obra em relação a outras da mesma época. A primeira delas era extremamente incomum para a época: a identidade do vilão é revelada ao espectador nos primeiros cinco minutos do primeiro episódio, ainda que ela seja mantida escondida dos personagens até o final. Isso permite mais liberdade para os roteiristas, que conseguem inserir o vilão em diversas situações sem precisar fazer malabarismos para escondê-lo de quem assiste. Outro elemento até muito progressista para a época é que Gardner tem uma assistente, a Srta. Gail Richards (Lorna Gray) que em um primeiro momento até pode parecer a típica dama em perigo, mas que se revela muito mais do que isso, efetivamente participando da ação com uma sidekick de valor para o Capitão. Essa escolha permite que a ação seja bipartida muitas vezes entre Gardner/Capitão de um lado e Richards de outra, criando narrativas paralelas que funcionam muito bem.

Para conseguir apreciar essa, hummm…, versão do Capitão América, o espectador tem que fazer muitas concessões em relação ao material fonte, mas, se essa barreira for ultrapassada (e admito que não é fácil fazer isso), o resultado final até é muito sólido e bem acabado. Mas, por nada menos do que três décadas, essa séria a única adaptação de um personagem da Marvel para o audiovisual.

Capitão América (Captain America, EUA – 1944)
Direção: Elmer Clifton, John English
Roteiro: Royal Cole, Harry Fraser, Joseph Poland, Ronald Davidson, Basil Dickey, Jesse Duffy, Grant Nelson (baseado em personagem criado por Joe Simon e Jack Kirby)
Elenco: Dick Purcell, Lorna Gray, Lionel Atwill, Charles Trowbridge, Russell Hicks, George J. Lewis, John Davidson, Frank Reicher, Al Ferguson, Howard C. Hickman, Tom London, Edward Van Sloan
Duração: 243 min. (15 episódios)

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.