Crítica | Capitão América (1979)

Foi necessário esperar 35 anos desde a primeira adaptação do Capitão América em audiovisual para que o herói da Marvel Comics fosse chamado de Steve Rogers por trás do icônico uniforme de bandeira, mas, quando esse momento finalmente chegou, no telefilme de 1979 transmitido originalmente pela CBS que, à época, só engordava sua carteira de super-heróis (Homem-Aranha e O Incrível Hulk ganharam telefilmes em 1977 e séries de TV em 1978), o resultado foi próximo de uma tragédia. Mesmo que haja mais do Capitão América dos quadrinhos neste filme do que no serial de 1944, o que, francamente, não é nada difícil, a grande verdade é que todo o resto chega a ser assustador de ruim ao ponto de nem a nostalgia salvar um fotograma que seja dessa aberração audiovisual.

No longa-metragem produzido pela Universal Television para a CBS com orçamento que provavelmente nem daria para comprar “duas mariolas e um cigarro”, Steve Rogers é um jovem bombado ex-jogador de futebol americano e motoqueiro que acabou de sair do exército para passear pelos EUA desenhando em uma van descolada, mas que descobre que seu pai falecido havia inventado um super-hormônio que só funcionou plenamente nele, recebendo uma proposta de ser cobaia de testes em razão de seu DNA. Como é padrão, ele se recusa a tornar-se o novo Capitão América até que, depois de um atentado, o soro é injetado nele de todo jeito, o que lhe dá não só super-força, mas também super-visão e super-audição em uma versão totalmente sem graça e com bíceps de um metro de diâmetro do outro Steve superforte da época, o Austin, mais conhecido como o Homem de Seis Milhões de Dólares (da rival ABC).

O roteiro de Don Ingalls é um horror completo que não faz o menor sentido lógico, marretando um pouco da mitologia dos quadrinhos (o soro, o escudo, o uniforme e alguma conexão com o exército americano) com uma trama vilanesca risível que é tão idiota que eu me recuso a descrever. Chega a dar vergonha ver Steve Forrest, o líder da equipe da S.W.A.T. da série clássica como o industrial Lou Brackett que, por alguma razão ridícula, quer explodir uma bomba de nêutrons. Na verdade, fica difícil crer que uma pessoa só tenha escrito o texto, pois o que vemos é um arremedo de história cujas partes não têm nexo causal e, com isso, só com muita boa vontade poderia ser chamada de colcha de retalhos, ainda que pareça mais um quebra-cabeças daqueles infantis, com peças grandes e óbvias, só que faltando metade delas…

E, no quesito elenco, temos o sensacional e maravilhoso “ator” Reb Brown que consegue a façanha de transformar Steve Rogers em um sujeito que transpira burrice por cada poro, dente exageradamente branco e cacho loiro de surfista de seu ser. Chega a dar vergonha alheia ver Brown “atuar” e proferir diálogos com a mesma naturalidade de âncora de primeira viagem lendo de teleprompter. Tudo bem que o roteiro não ajuda em nada, entregando-lhe linhas de texto que mais parecem que foram escritas em trabalho de grupo de 2ª ou 3ª série de primário de alguma escola ruim. O Capitão Grant Gardner “gordinho” de Dick Purcell, por mais que não tenha absolutamente nenhuma conexão com o herói dos quadrinhos, é infinitamente superior ao mondrongo que singra a telinha aqui.

O mais engraçado é que não há quase nada de Capitão América propriamente dito no longa. A enrolação é tão grande, com um vai-e-vem inexplicável com pseudo-ciência e planos mirabolantes que envergonhariam o Dr. Evil que Rogers fardado com um uniforme até razoavelmente parecido com o original, só que com um capacete e óculos com asinhas pintadas no lugar de máscara e um hilário escudo de acrílico transparente – objeto entregue a ele de maneira tão aleatória que irrita, aliás – só aparece por menos do que 15 minutos no total, em dois momentos diferentes lá pelo final da projeção, como se a produção estivesse envergonhada de alguma coisa.

No final das contas, esse filme não consegue nem mesmo entrar nas cobiçadas categorias de “passatempo descompromissado” ou de “tão ruim que é bom”. Afinal, não só o tempo não passa vendo a narrativa modorrenta rastejar para a frente como um cágado manco, como o filme é tão ruim que é péssimo mesmo, daqueles que dá vontade de apagar da mente logo depois da magnifica experiência que é ver o Capitão América das HQs ter sua reputação destruída por um marombeiro bobalhão que não fala lé com cré.

Capitão América (Captain America, EUA – 1979)
Direção: Rod Holcomb
Roteiro: Don Ingalls (baseado em história de Don Ingalls e Chester Krumholz e personagem criado por Jack Kirby e Joe Simon)
Elenco: Reb Brown, Len Birman, Heather Menzies-Urich, Robin Mattson, Joseph Ruskin, Lance LeGault, Frank Marth, Steve Forrest, Harry Johnson (Chip Johnson), James Ingersoll, Jim B. Smith, Jason Wingreen, June Dayton
Duração: 97 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.