Crítica | Capitão América (2018): Vol. 1 – Inverno na América

O autor e jornalista Ta-Nehisi Coates tem se mostrado uma contratação mais do que acertada pela Marvel Comics, com um trabalho exemplar na publicação solo do Pantera Negra no mega-arco Uma Nação sob Nossos Pés, iniciado em 2016 e, agora, capitaneando uma nova abordagem para o herói, levando-o ao espaço em O Império Intergalático de Wakanda como parte da fase atual da editora. Seu sucesso crítico e de vendas fez com que a Marvel oferecesse a ele uma expansão de portfólio, com nada menos do que a publicação solo nova (renumerada, mas mantendo a numeração legado também, misericordiosamente) do Capitão América. E o desafio foi aceito.

É importante lembrar que a saga de 2017 da Marvel Comics, Império Secreto, mudou a história do Universo Marvel por um tempo, colocando o Capitão (ou uma versão dele, pelo menos) como líder supremo da Hydra e as consequências disso para o verdadeiro Steve Rogers não haviam ainda sido exploradas, já que o arco narrativo do personagem depois da saga lidou com o arremesso dele para um futuro diferente, em uma decisão editorial estranha, que me deixou receoso sobre a efetiva exploração das consequências de Império Secreto. Seria essa mais uma saga que seria esquecida assim que encerrada?

Mas Coates deixou-me muito feliz ao dissipar meus temores logo na primeira edição de seu arco Inverno na América. Sem perder tempo, ele mergulha exatamente na questão da percepção do Capitão América pela população e governo americanos e, também, nas dúvidas internas do próprio Rogers. Usando uma narração em primeira pessoa pelo personagem, Coates estabelece muito bem a “crise de identidade” do grande símbolo do sonho americano e que literalmente se veste com a bandeira estrelada. O que exatamente ele representa agora? Como as atrocidades que seu doppelganger cometeu podem ser apagadas e separadas dele próprio? Rogers tenta fazer sua parte lutando contra um exército de versões de Bazuca que carregam todo o fanatismo do vilão original, mas sem o mesmo tipo de respeito que ele tinha pelas instituições e pelo próprio Capitão América. Mas cada ataque impedido pelo Capitão é recebido com frieza pela população e com desconfiança pelo governo, aqui representado pelo ex-general Thaddeus “Thunderbolt” Ross que faz de tudo para afastar o Capitão do front de batalha, ao mesmo tempo que coloca a envelhecida Sharon Carter e o próprio Soldado Invernal ao seu lado. A simbologia do Capitão América, no momento, é tóxica e o supersoldado está sozinho.

Só que Coates não parece satisfeito com isso apenas. Sua carga política se faz presente também na forma como ele lida com a América pós-Hidra e ele coloca questões no colo dos leitores que ele propositalmente deixa sem resposta. Sim, o império comandado pelo “outro” Steve Rogers era uma ditadura sanguinária, mas o que vemos em determinado capítulo do arco é que essa ditadura sanguinária fez um enorme bem à população esquecida dos EUA. A enorme massa desesperançosa da middle America ganhou empregos, escolas, saúde pública e uma estabilidade nunca antes vista. Será que o ditado que prega “há males que vêm para bem” se aplicaria aqui? Mais diretamente, será que ditaduras poderiam ganhar uma nesga de legitimidade se ela entregasse algo que, antes, a população não tinha? Não precisamos ir muito longe para encontrar gente que diz que o Chile é um dos países mais desenvolvidos da América do Sul em razão da ditadura de Pinochet ou que Cuba é uma maravilha que oferece educação e saúde de qualidade em razão da ditadura (ainda bem viva) dos Castro ou mesmo quem defenda a ditadura brasileira porque “naquela época tinha muito mais segurança” ou a chinesa com sendo a “única maneira de lidar com uma população daquele tamanho”.

(1) Os “Bazucas” atacam e (2) o Capitão enfrenta o Treinador.

Não pretendo aqui entrar em elucubrações políticas, pois não é o foco da presente crítica, mas Coates nos faz coçar a cabeça pensativos assim como deixa Steve Rogers pensativo diante do que vê nessa sua “nova América”. Confesso que fiquei até um pouco chateado por Coates não ir mais a fundo nisso, não mostrar mais detalhes do bem que a ditadura da Hidra trouxe a esses EUA. Mas é fascinante ele meramente colocar a questão e nos forçar a refletir sobre ela.

Claro que, não demora, e o autor encaixa o prelúdio da primeira edição, em que vemos duas mulheres poderosas eliminar um comboio de soldados na Rússia com discursos fortemente nacionalistas vindo de uma delas, com a trama maior, mostrando a formação de um grupo chamado Elite do Poder (Power Elite, no original) que se aproveita do vácuo deixado pela Hidra em diversos países do mundo, principalmente os EUA, claro. Uma dessas mulheres é a extremamente poderosa “vampira psíquica” e feiticeira Selene Gallio, mais conhecida para os leitores de X-Men como a Rainha Negra. A outra é uma personagem nova, Alexa Lukin, com conexão com ninguém menos do que Rasputin. Os leitores mais atentos das publicações do Capitão América lembrarão do sobrenome Lukin e o que ele representou para o Bandeiroso, mas não falarei mais nada para evitar spoilers do arco.

As duas se mostram como as líderes da Elite do Poder, ainda que não seja explicado como elas chegaram a esse ponto. Da mesma maneira, seu plano não fica completamente claro, ainda que Coates talvez tenha aberto espaço demais para as duas – especialmente Alexa – nesse arco inicial, fazendo a narrativa andar para um lado mais, digamos, “comum”, muito rapidamente e esvaziando a pegada crítica e política que vinha sendo estabelecida até mai ou menos a terceira edição. Há, porém, muito potencial com o que essas vilãs fazem até o final do arco e tenho esperança que Coates volte à carga política já no próximo arco, considerando quem ele traz de volta no encerramento.

A arte de todo o arco ficou por conta de Leinil Francis Yu, com arte-final de Gerry Alanguilan, em um trabalho sóbrio como a dupla mostrou saber fazer no excelente tie-in Guerra Civil, de Guerras Secretas. Yu sabe como chamar atenção para o que é importante, emudecendo a arte de fundo quando necessário, para fazer sobressair o primeiro plano, invertendo a lógica nas poucas panorâmicas que exibe. Seu Steve Rogers é novo e musculoso, mas não um quase adolescente como vários artistas da Marvel vem desenhando heróis veteranos. O mesmo vale para T’Challa, que tem uma breve participação aqui. Ele é, porém, mais leniente com Sharon Carter, mostrando-a apenas levemente envelhecida (algo que, tenho certeza, será revertido em breve). As sequências de ação são limpas e dinâmicas, com especial destaque para a sequência dramática em que o Capitão, o Pantera e Okoye invadem a instalação onde os “Bazucas” são fabricados. Mas o foco é mesmo no desenvolvimento de personagens e o razoavelmente complexo texto de Coates é parcimoniosamente distribuído nas páginas sem que a cadência e fluidez sejam interrompidas.

Inverno na América é um baita começo para Ta-Nehisi Coates à frente de mais um título importante da Marvel Comics. A reflexiva jornada de redescoberta do Capitão América promete ser fascinante e, sobretudo, dolorosa.

Capitão América: Inverno na América (Captain America: Winter in America, EUA – 2018)
Contendo: Capitão América: Vol. 9 (2018 – ) #1 a 6
Roteiro: Ta-Nehisi Coates
Arte: Leinil Francis Yu
Arte-final: Gerry Alanguilan, Leinil Francis Yu
Cores: Sunny Gho
Letras: Joe Caramagna
Capas: Alex Ross
Editoria: Tom Brevoort, Alanna Smith
Editora original: Marvel Comics
Data original de publicação: julho a 19 de dezembro de 2018
Páginas: 153

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.