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Crítica | Capitão América: Homem Fora do Tempo

por Kevin Rick
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Homem Fora do Tempo

É interessante notar como Mark Waid gosta de escrever o Capitão América mais intimista nessas HQ’s foras da continuidade principal da Marvel, fugindo da simplicidade clássica do personagem, mas também indo na contramão de muitos escritores modernos que tentam revirar a mitologia de Steve, alguns de forma interessante como Nick Spencer em Império Secreto, outros nem tanto como a recente história do Capitão velho. Apesar de eu ter iniciado a leitura das séries do Waid da forma “errada”, começando pelos quadrinhos de 2017/2018 e agora retornando à 2011 com Man Out of Time, ainda é possível traçar interessantes similaridades na forma como o autor constrói seu argumento em torno do significado e legado do personagem, sempre dissecando as turbulências morais e emocionais de Steve.

Se em Lar dos Valentes nós temos uma homenagem ao símbolo, e em Terra Prometida o salto futurista para os descendentes de Rogers como uma nova forma de tocar no legado do personagem, aqui, como o próprio título diz, temos uma narrativa sobre as dificuldades de Steve em torno da sua deslocação temporal. Essencialmente um reconto do despertar do gelo do Cap. para os dias atuais, Waid cria uma minissérie bastante pessoal para o protagonista, no qual o grande foco é, inicialmente, choque cultural, progressivamente adicionando mais camadas no ótimo estudo de personagem de Steve.

O roteiro apresenta uma torturante caminhada para o personagem , como deve ser para alguém que se encontra fora do tempo, roubado de familiares, amigos, cultura, convenções sociais, e tudo no meio disso. Sempre achei estranho a diminuição do choque temporal de Steve ao longo de vários quadrinhos – e no cinema também -; mesmo as HQ’s clássicas trabalham pouco essa questão problemática. Waid vem para retificar isso, primeiramente tomando seu tempo com a surpresa e posterior negação do personagem. A exposição da psique quebrada e deslumbramento/susto nas duas primeiras edições iniciam um bom arco, a despeito da reimaginação não soar tão original a princípio.

Contudo, é quando o abalo passa que a verdadeira história toma proporções especiais. O Homem de Ferro desencadeia uma jornada histórica para Steve, até cansadamente didática, mas a HQ transpassa muito bem o sentimento de orgulho e dever cumprido que o Capitão sente ao Stark explicar seu impacto positivo e como nossa sociedade se tornou uma entidade próxima da utopia. Claro que a realidade está bem longe disso, e é quando nosso protagonista passa a descobrir o lado ruim dos desdobramentos históricos e do sonho americano – sempre ele com Waid e Steve -, através de um amigo veterano de guerra, que a HQ se consolida como uma leitura importante no vasto cânone do personagem.

No início da HQ, Bucky coloca em questionamento o que Steve quer fazer depois da guerra, em essência qual seu propósito e vontades fora de combate. Todavia, a (dupla) viagem temporal expõe a trágica verdade para o personagem: ele sempre será um soldado lutando contra a opressão, eternamente em guerra. Conceito esse que o MCU desconstruiu lindamente, mas que ainda é bastante poderoso e enraizado na mitologia do Capitão dos quadrinhos. Homem Fora do Tempo é uma ótima aventura reimaginativa da segunda origem do personagem, trazida para os dias atuais com um olhar mais cínico e paradoxalmente otimista de Waid, além de inserir a possibilidade de retorno ao passado que não existia na história clássica. Artifício bem manuseado na exposição de que Steve agora é um homem fora do tempo independente da era que se encontra, sempre o soldado lutando pelo futuro.

Capitão América: Homem Fora do Tempo (Captain America: Man Out of Time | EUA, 2011)
Roteiro: Mark Waid
Arte: Jorge Molina, Karl Kesel
Cores: Frank D’Armata
Letras: VC’s Joe Sabino
Páginas: 151

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5 comentários

Roberval Machado 30 de março de 2021 - 15:15

Vi um bate-papo com o Mark Waid numa convenção de quadrinhos nos EUA. Perguntaram para ele porque escreveu tão poucas histórias do Capitão se gostava tanto do personagem. Ele disse que gostaria de escrever mais tramas abordando os problemas da América nas histórias mas alguém poderoso da editora (ele não disse quem) falou para ele que as histórias do Capitão América não são sobre a América assim como as histórias do Homem-Aranha não são sobre aranhas. Depois disso ele desistiu completamente do personagem.

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Starr-Lord 15 de março de 2021 - 00:36

Olha só, fico feliz que tenha gostado, acho excelente ver o Capitão se readaptando e conhecendo a Head Radio. O Waid entende o personagem e a caracterização pode ajudar muito na construção. As capas do Bryan Hitch também são fantásticas e apesar de achar a arte estranha inicialmente, rapidamente me acostumei.

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Kevin Rick 15 de março de 2021 - 01:49

Gostei bastante! Depois da run do Brubaker (obra-prima total), acho que é minha história solo favorita do Capitão.

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Davi Lima 13 de março de 2021 - 00:20

MARK WAID! Deu vontade de ler ó! Ótimo texto! Esse conceito do homem fora do tempo é uma das melhores coisas do personagem.

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Kevin Rick 13 de março de 2021 - 00:20

Obrigado, Davi! Eu também adoro esse conceito, e o Waid explora ele de um jeito bem íntimo e melancólico. Vale a pena ler! Tirando a run do Brubaker, acho que é minha história favorita do Capitão.

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