Crítica | Capitão América II (1979)

Existem atos criminosos na indústria do entretenimento que passam despercebidos e impunes. Um dos mais notórios foi o cometido pela CBS que, em um mesmo ano, com intervalo de apenas 10 meses, lançou não um, mas DOIS telefilmes tenebrosos do Capitão América, em uma tentativa espúria não só de destruir a reputação do personagem da Marvel Comics, como também de derreter o cérebro de seus espectadores, provavelmente como parte de um plano de dominação mundial que nem o Caveira Vermelha conceberia.

Afinal, o amadorismo e tosquidão do primeiro longa do Capitão América daquele ano é algo que gera um incontrolável impulso de escovar as retinas com água sanitária tamanha a atrocidade que foi colocada na telinha. E nem digo isso em relação à adaptação do personagem em si, já que, nesse quesito (e apenas nesse quesito), o filme é muito superior ao serial de 1944 que foi a primeira versão audiovisual do Bandeiroso ou de qualquer outra propriedade da editora (que nem existia com esse nome à época, claro), mas sim como telefilme em si, seja de que personagem fosse. E o horror fica ainda mais evidente quando comparamos com os longas do Incrível Hulk e o já fraquíssimo longa do Homem-Aranha lançados dois anos antes pela mesma CBS em sua tentativa de expandir ainda mais seu leque de super-heróis.

Nessa continuação, as pistas do pavor que está por vir já aparecem nos primeiros segundos do telefilme com a inacreditável reutilização das sequências em que vemos Steve Rogers (o tespiano Reb Brown) dirigindo sua van pela costa da Califórnia. E não é que isso tenha sido utilizado como uma abertura, pois não é o caso, até porque a van que é mostrada é a van pré-transformação em Capitão América, com a moto não-tunada do personagem presa do lado de fora do veículo…

Com o espectador então preparado para o impacto que essa obra-prima causará em seu cérebro, Capitão América II (que, depois, para lançamento em vídeo doméstico, ganhou o horrível subtítulo Death Too Soon – ou Morte Cedo Demais, em tradução direta) começa com a mesma qualidade de seu antecessor, ou seja, uma trama imbecil que não faz sentido lógico algum, mas que pode ser resumida a um vilão ameaçando o governo americano com um gás que acelera o envelhecimento para arrancar dinheiro dele. O único destaque nessa frase é mesmo o vilão, Miguel, já que ele é vivido por ninguém menos do que Christopher Lee, que consegue fazer qualquer trasheira ficar divertida quando ele está em cena, o que, porém, acontece muito pouco aqui.

O restante do filme é um eterno vai-e-vem de Steve Rogers em roupas civis ou como Capitão América – com o uniforme que aparece por segundos ao final do primeiro filme, mais próximo do original, mas com horríveis asas em relevo no capacete e uma inexplicável máscara por baixo do capacete – investigando a ameaça por intermédio de todo o tipo de desvio narrativo possível, inclusive sua visita a uma cidadezinha cuja função dentro da história só pode ser fazer o espectador perder muito tempo com enrolação atrás de enrolação com direito até mesmo a um novo interesse romântico forçadíssimo para o personagem. Para se ter uma ideia, a coisa é tão ruim que Rogers, que aparece sozinho no começo, do nada surge com um gato de estimação a tira-colo, como se a produção tivesse se esquecido de pelo menos inserir o bichano nas sequências iniciais.

Pelo menos a presença do Capitão América uniformizado é mais constante e não fica espremida em 15 minutos ao final como no primeiro telefilme. Aliás, o herói já aparece nos primeiros três minutos ajudando uma senhorinha que é assaltada em Venice Beach, com o arremesso de escudo mais completamente imbecil da história dos arremessos de escudo e uma corrida com super-velocidade na praia que é de chorar de rir. Mas tem mais! Há arremesso de moto que literalmente “pousa” suavemente no topo de um muro, perseguições automobilísticas mais lentas do que a feita a O.J. Simpson e, claro, o ponto alto da fita: a surpreendente revelação de que sua possante moto tem um “botão asa-delta” que, sim, faz exatamente isso que ele diz. Na pior das hipóteses, dá para gargalhar muito de vergonha alheia dessa bomba televisiva que é capaz de transformar os Teletubbies em uma experiência shakespeareana.

Se a intenção da CBS era fazer como no caso do Hulk e transformar os telefilmes em pilotos de uma série televisiva, só posso agradecer que isso jamais tenha ocorrido. Algum produtor com três dígitos de Q.I. percebeu que o crime que estava sendo cometido não poderia ser perpetuado e resolveu estancar os inevitáveis distúrbios neurológicos causados aos espectadores pelas duas inacreditáveis porcarias lançadas no mesmo ano. E esse foi o fim já mais do que tardio do Capitão Maromba de Reb Brown…

P.s.: A meia estrela é unicamente em respeito a Christopher Lee.

Capitão América II (Captain America II ou Captain America II: Death Too Soon, EUA – 1979)
Direção: Ivan Nagy
Roteiro: Wilton Schiller, Patricia Payne (baseado em personagem criado por Jack Kirby e Joe Simon)
Elenco: Reb Brown, Len Birman, Connie Sellecca, Christopher Lee, Katherine Justice, Christopher Cary, William Lucking, Stanley Kamel, Ken Swofford, Lana Wood, Arthur Rosenberg, William Mims
Duração: 83 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.