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Crítica | Capitão América: Morre Uma Lenda

por Luiz Santiago
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A minissérie Capitão América: Morre Uma Lenda surgiu de uma conversa de bastidores entre roteiristas e editores que resolveram tornar verdadeiramente grande algo que Ed Brubaker tinha feito na Captain America Vol. 5 #27, primeira edição de um arco que ficaria conhecido como A Morte do Sonho. E como não poderia deixar de ser, essa ampliação de impacto tomou a Marvel por completo, sendo notícia no mundo inteiro, afinal, mesmo que não queira dizer muita coisa nos quadrinhos, a morte de um personagem como o Capitão América definitivamente dá muito o que falar.

O momento já era difícil, pois os heróis estavam atravessando as lutas e inimizades causadas pela Guerra Civil. A própria condição para o assassinato do Capitão América foi decorrente desses eventos, já que forças vilanescas de bastidores conseguiram fazer o personagem ser transferido para um tribunal comum, e é na entrada desse tribunal que o crime acontece. Na minissérie, escrita por Jeph Loeb (que tinha acabado de perder um filho), o que ganha destaque são as primeiras impressões, ações e reações dos grupos de heróis após descobrirem o que aconteceu com essa lenda, com esse símbolo que é o Capitão América para todos eles. E para explorar isso, o autor escolheu trabalhar em cima dos conhecidos cinco estágios do luto: negação e isolamento; raiva, barganha, depressão, aceitação.

O sofrimento aqui é tratado com bastante veracidade. Cada herói tem o seu modo de lidar com a perda de um grande amigo e ícone, mas todos reagem dentro daquilo que os estágios do luto preveem. E claro, não é o tipo de reação fácil, pois estamos falando de pessoas dotadas de poderes ou habilidades muitíssimo especiais com os nervos à flor da pele. Enquanto uns resolvem jogar pôquer e não falar sobre o que aconteceu, outros vão às ruas barrar criminosos ou investigar por si mesmos o que de fato ocorrera com Steve Rogers. Como cada edição é ilustrada por um artista diferente, o leitor tem a oportunidade de sentir distintas nuances emocionais sendo exploradas nas páginas, todas marcadas por um intenso ar de tristeza e animosidade que mostra que os acontecimentos de Guerra Civil realmente abalaram as relações entre esses indivíduos.

 E eu não posso perder a oportunidade de dizer o quão nojenta é a postura do Homem de Ferro no meio de todo esse rebu. Seu olhar “super prático” ganha ares de mal gosto aqui, primeiro porque ele quer imediatamente manter o sonho, o símbolo representado pelo Capitão América ainda vivo, e de cara procura fazer com que o Gavião Arqueiro — recém-voltado dos mortos — vestisse a bandeira. Na mesma esteira, o Ferroso tenta prender Patriota e Gaviã Arqueira com base na maldita Lei de Registro, e só não o faz porque Clint Barton se coloca no meio e dá a oportunidade de os jovens heróis escaparem sem grandes dificuldades. Esse é um dos momentos da minissérie que o leitor realmente volta a sentir a raiva gerada por tudo o que vimos em Guerra Civil, e essa raiva faz com que os pontos se liguem mais rapidamente, chegando ao seu núcleo principal: se não fosse a tal guerra e se o Bandeiroso não tivesse se entregado à polícia para salvar vidas inocentes, nada disso teria acontecido.

Para quem já está no mundo dos quadrinhos há tempos, histórias de mortes de personagens já não possuem assim tanto impacto. Aqui em Morre Uma Lenda, no entanto, Loeb aposta muito mais no fator humano diante da morte do que no evento em si, uma escolha que torna o arco muito próximo do leitor, pois se alia a algo pelo qual todos nós já passamos. Mesmo com as pausas e intromissões heroicas que nada têm a ver com a morte do Capitão ou mesmo com o luto, a minissérie consegue atingir bem o seu objetivo e passar um pouco da sensação que é a perda de uma verdadeira lenda dos quadrinhos… ao menos por um médio período de tempo.

Fallen Son: The Death of Captain America (EUA, 2007)
No Brasil:
Panini (2008) e Salvat (Coleção Oficial de Graphic Novels Marvel nº 51, 2014)
Roteiro: Jeph Loeb
Arte: Leinil Yu, Ed McGuinness, John Romita Jr., David Finch, John Cassaday
Arte-final: Leinil Yu, Dexter Vines, Klaus Janson, Danny Miki, John Cassaday
Cores: Dave McCaig, Jason Keith, Morry Hollowell, Frank D’Armata, Laura Martin
Letras: Richard Starkings, Comicraft
Capas: Leinil Yu, Michael Turner, Peter Steigerwald, Ed McGuinness, John Romita Jr., David Finch, John Cassaday
Editoria: Bill Rosemann
148 páginas

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4 comentários

Jose Aquiles 8 de março de 2021 - 13:28

Saiu em noticiarios do mundo real a morte do Capitao America. Mas acho que foi a última vez que a morte em hqs teve peso , depois disto banalizou demais (sempre alguem importante morria e voltava) . Perceberam que era um tipo de artificio (ainda que gerando boas histórias) . Sobre o luto em si, talvez, de certa forma, todos tenhamos um pouco de Mulher Maravilha 84 e Wandavision: dificuldade em lidar com as perdas e desejo de trapacear a morte .

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Luiz Santiago 8 de março de 2021 - 13:33

Essa morte realmente foi marcante e noticiada por tudo quanto é canto. Mas já à esta época era banal a morte nos quadrinhos. Só que o tratamento dado para a morte do Capitão foi mito bem pensado.. Hoje, parece que nem com isso se preocupam mais.

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Thor Odinson 6 de março de 2021 - 22:29

Gostei dessa história. A parte do Homem-Aranha é uma das que mais gosto (o cara já viu um monte de gente querida morrer).

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Luiz Santiago 6 de março de 2021 - 22:29

A parte do Miranha também é uma das que eu mais gosto. Muito sensível a abordagem do Jeph Loeb.

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