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Crítica | Capitão América: O Novo Pacto

por Luiz Santiago
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O roteirista John Ney Rieber foi incumbido da difícil tarefa de assinar os roteiros de uma nova revista do Capitão América (Captain America Vol.4) no período posterior ao fatídico 11 de setembro de 2001. Dentro desse grande arco chamado O Novo Pacto (New Deal, no original) temos duas pequenas histórias: Inimigo (edições #1 a 3) e Senhores da Guerra (edições #4 a 6), onde o autor realiza uma narrativa crítica e que até hoje parece causar mal-estar em alguns leitores, pela forma como coloca o papel dos Estados Unidos frente à comunidade internacional. E o mais interessante é que geopolítica, sociológica e historicamente a abordagem de Ney Rieber está absolutamente correta. Os Estados Unidos são um verdadeiro império econômico e, como aparece na reta final da trama, responsável por inúmeros horrores (de guerras a golpes de Estado e ditaduras) em países na periferia do capitalismo.

Isso não justifica absolutamente nenhum ato de terrorismo contra a terra do Tio Sam, é claro, mas fixa o chão necessário para se fazer uma uma análise correta a respeito dos eventos históricos sincrônicos e diacrônicos ao 11 de setembro. Nesse O Novo Pacto, o que temos é o Capitão América se posicionando de forma muito correta e bonita ao lado de seu povo, sem aventurar-se cego de ódio na tal “Guerra ao Terror” (mesmo à época já se sabia “ao quê” verdadeiramente era esta guerra). O encontro do herói com Fury, logo no início da HQ, nos escombros da cidade, mostra um dos elementos que o tornam ao mesmo tempo tão fascinante e diferente de seus compatriotas: ele tem um genuíno senso de humanidade e uma resoluta forma de agir diretamente sobre o mal, sem condicionar seu papel a interesses pessoais.

A luta em território nacional estava apenas começando e essa história também lança os olhos sobre isso. O inimigo interior, o motivo da paranoia, da perseguição, do crescimento da xenofobia… todos produtos do medo, num momento em que desconfianças e pavor do diferente se uniam nos discursos e tornavam a vida de inocentes ainda pior. O que faz essa construção interessante é o fato de que o exercício da justiça não é confundido com nenhum sentimento de vingança, além do fato de punir os verdadeiramente culpados, os Senhores da Guerra — de fora do país, claro –, aqueles que mantêm a roda de horror girando; e não milhares de inocentes, homens, mulheres, velhos e crianças que tiveram suas cidades bombardeadas porque uma nação ferida que supostamente estava “procurando um grande inimigo” e, logo depois, “procurando armas de destruição em massa“.

Os monstros sempre estarão entre nós.

Há um belo tom de esperança em meio à dor, nesse roteiro. Rieber não assume que seu país é um pobre coitado, mas também não se deixa levar pelo fatalismo, num tipo maluco de simples aceitação do horror. Tanto a postura do Capitão América quando o encadeamento narrativo da trama nos mostram isso, e o resultado é uma reflexão densa a respeito da defesa da pátria, da busca por quem realmente é culpado e pelo reconhecimento das sombras, das sementes, das raízes que, em ambos os lados da moeda, fizeram surgir os demônios que causariam as mortes de inocentes. Aquele eterno ciclo da guerra na História da humanidade que me faz lembrar com pesar o glorioso discurso do 12º Doutor em The Zygon Inversion: “Because it’s always the same. When you fire that first shot, no matter how right you feel, you have no idea who’s going to die. You don’t know who’s children are going to scream and burn. How many hearts will be broken! How many lives shattered! How much blood will spill until everybody does what they’re always going to have to do from the very beginning — sit down and talk!“.

Falar de guerra não é algo fácil — ainda mais de uma guerra que está tão perto daqueles que falam sobre ela. Em O Novo Pacto, a Marvel exibe uma linha dramática mais madura e totalmente ancorada na realidade para colocar o seu Sentinela da Liberdade novamente em campo, fazendo aquilo que ele fazia de melhor: lutar pela paz. E nesse ambiente em que o enredo se passa, paz era de fato o que as pessoas estavam precisando.

Capitão América: O Novo Pacto (Captain America Vol.4 #1 a 6: Enemy / War Lords) — EUA, 2002
No Brasil: Panini (2002) e Salvat (Coleção Oficial de Graphic Novels Marvel n° 27, 2015)
Roteiro: John Ney Rieber
Arte: John Cassaday
Arte-final: John Cassaday, Richard Starkings
Cores: Dave Stewart
Letras: Wes Abbott, Richard Starkings
Capas: John Cassaday
Editoria: Stuart Moore, Joe Quesada
168 páginas

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2 comentários

Starr-Lord 3 de março de 2021 - 23:44

Eu gosto muito do Capitão América, tanto na adaptação do MCU, no universo Ultimate (Ele falando do A de França é impagável) e na própria continuidade regular da editora. Gosto muito de como ele luta pelos ideais do Estados Unidos, mas não necessariamente pelo país e por ser extremamente humano, querendo ou não, sempre inspira acompanhar pessoas boas tentando fazer o melhor e buscar os verdadeiros culpados, tanto que o momento dele impedindo um crime de ódio foi bem marcante na minha conferida dessa história. Mesmo sendo bem uma leitura bem política e crítica, tem também a esperança pelos momentos de paz.

Ah, e o John Cassaday faz um trabalho fenomenal e cinemático como de costume, tanto que ele é meu ilustrador favorito do Capitão. Ótima crítica, citar o 12º Doutor foi certeiro, o pacifismo dele é extremamente marcante em toda a sua fase, mesmo sendo um tema recorrente durante Doctor Who em si.

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Luiz Santiago 3 de março de 2021 - 23:45

Tem roteiros do Capitão que me fazem realmente gostar do personagem. Não desgosto dele nem nada, mas não sou um fã, saca. No entanto, histórias densas como essa, com uma puta participação fantástica do herói realmente fazem os olhos brilhar.

E John Cassaday faz um trabalho visual soberbo! Parece uma porrada de fotogramas de filmes, é maravilhoso!

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