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Crítica | Capitão América: O Primeiro Vingador – Trilha Sonora Original

por Davi Lima
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O Primeiro Vingador

Muito se reclama que as trilhas sonoras dos filmes da Marvel Studios não são emblemáticas, que o público não memoriza os temas heroicos criados para os personagens centrais. Ao se conceber tal crítica existem variáveis incluídas quanto a utilização da composição orquestrada na mixagem do longa-metragem, algo que na criatividade dos compositores não é o foco central, e sim o desenvolvimento de um acompanhamento musical que se agregue à construção narrativa visual. Diante disso, é preciso demarcar aqui a crítica ao projeto concebido de trilha sonora para esse propósito, de contemplar emotivamente o filme do Capitão América, alinhada à imaginação associada de quem já assistiu a produção cinematográfica em 2011.

Diante dessa perspectiva estabelecida, o que chama atenção desse material musical orquestrado por Alan Silvestri é a concepção moderna do Capitão América na utilização de reflexos sonoros de algo clássico, algo patriótico e algo militar. Desde da referência a Fanfarra para Um Homem Comum de Aaron Copland ao uso da caixa marcial no tema do protagonista, o espírito do Tio Sam é extremamente presente. Pode-se perceber nas faixas “Triumphant Return” e “Captain America” as características  militares de uma percussão bem enfática, acompanhando instrumentos de metais, como trompa e trompete, bem volumosos. Ao mesmo tempo, durante toda a trilha Alan Silvestri busca o genérico intenso de um filme de ação, sem apelar para algo costumeiro, embora efetivo, de propor toda a música bem didática para a narrativa, com temas, motifs e leitmotifs identificáveis, como em uma fanfarra bem compassada na partitura. Ao invés disso, possivelmente compreendendo a direção artificial do tempo pregresso da Segunda Guerra Mundial de Joe Johnston para o filme do Capitão América: O Primeiro Vingador, Silvestri ganha os sons genéricos da ação como artifício de humildade, para que o orgulho positivo do heroísmo seja ansiado pela narrativa, que emula tempos de guerra com um herói menos militarizado em personalidade.

Mesmo que pareça uma proporção natural, em que se aproveita o tema nos momentos gloriosos do filme para emocionar o público, sendo comedido para não desgastar a música, e ser escada com base no resto da trilha pouco memorável e negativamente genérica por incapacidade do compositor; Alan Silvestri em sua jornada cinematográfica, incluindo De Volta para o Futuro e Forrest Gump, acabou criando uma chamada wall of sound, uma fórmula própria, feita de estilo e inconsciente de repetição. E é a partir dessa fórmula, bastante recorrente entre compositores de trilhas sonoras para filmes, é que se denota o genérico de ação de Alan Silvestri. 

Ou seja, não se baseia numa incapacidade dele de fazer algo diferente, e sim a compreensão de estilo e encaminhamento musical do filme que permite esse conforto formulaico, conforto esse que, em si, tem sua média de qualidade. Faixas como “Kruger Chase” e “Hydra Train” não enchem os ouvidos de melodia que um tema heroico encanta o espectador, mas narra suspense e ação com variações de estilo de Silvestri que fomentam a criatividade mais implícita no genérico mais explícito. Em um ouvido mais atento a percussão do xilofone “demoníaco” que varia bastante, a harpa que esvazia dramaticamente uma passada de faixa, ou os timbales que tornam tudo mais grandioso, pode captar essa fórmula estilística do compositor usando esses instrumentos na orquestra que podem ser mais valorizadas para as cenas do filme, mesmo com uma mixagem sonora não ajudando.

O Primeiro Vingador O Primeiro Vingador O Primeiro Vingador O Primeiro Vingador O Primeiro Vingador 

O Primeiro Vingador O Primeiro Vingador

Assim, compreendendo que a chamada trilha genérica pode ser funcional e de qualidade para valorizar o tema heroico e triunfante, é preciso entender como isso se associa com o desenvolvimento criativo do personagem. Uma das modernizações aplicadas para a representação do Capitão América no cinema é como a propaganda política vende o personagem, mas ele pertence a outro tempo, a um tempo mais perdurante, de um heroísmo que não se contextualiza totalmente na guerra, caracterizando o bom coração de Steve Rogers. Alan Silvestri parece compreender isso em comportar sua trilha para a ação, em que o filme não se torna essencialmente sobre a Segunda Guerra Mundial, um filme de época, e sim com características que um filme representando o contemporâneo colocaria no seu fundo musical. Nas variações coloca-se, sim, algo mais clássico, que remete ao tema heroico da fanfarra, mas é exatamente isso que tanto contribui para elevar a personalidade do Capitão América entre tempos como cerne da adaptação do personagem.

Ao menos quatro faixas representam bem todo esse argumento narrativo da trilha sonora. “Frozen Wasteland”, bem próxima da faixa “Schmidt’s Treasure”, são os momentos que o filme parte do presente para o passado. Ambas as composições tem suspense, uma tensão de uma descoberta, seja do escudo do Capitão no começo do filme, ou a descoberta simultânea de Schmidt do cubo cósmico e do público quem é o vilão. São sonoramente faixas bem soturnas, com sonidos de orquestra que dão aquele ar clássico, mas há um tensões incisivas, como sons de um susto, que parece agilizar a trilha que tanto forma o mistério sobre o Capitão América congelado quanto o tema vilanesco do Caveira Vermelha, vulgo Schmidt. Junto a isso há a canção “Star Spangled Man”, com letras cantadas, que Alan Menken produziu para agregar a orquestra de Alan Silvestri, sendo a última faixa do álbum. Essa canção ouvida isoladamente é um básica propaganda americana de arquivo da segunda guerra mundial. Porém, o contexto que ela é utilizada propõe uma paródia, quando Capitão América atua como patriota para proveito econômico do soro do super-soldado. 

Alinhando as duas primeiras faixas citadas num homogêneo temporal musical, mesmo que representando tempos diferentes, junto com a canção paródia de Alan Menken, a cereja do bolo do argumento de que Alan Silvestri ajuda na composição do Capitão América como personagem entre tempos no filme é a faixa “Passage of Time”. Parece bem direto e arranjado o nome da faixa para argumentação, mas a composição sonora em si diz bem mais, independente do nome. Utilizando sons mais românticos, pouco utilizados na trilha como um todo, usando harpa e um xilofone para empurrar o grupo de violino, há uma crescente seguida de uma quebra arquitetada para entrar no tema do Capitão América. Essa narrativa de apenas uma faixa, seguindo a cena de Steve Rogers na Times Square no século XXI até mostrar o garotinho usando uma lata de lixo como escudo no século XX, é a junção harmônica de contribuição de uma trilha sonora para a emoção desenvolvida no filme. É essa faixa que encerra a ideia do filme, de um Steve Rogers elevado por uma fanfarra patriótica, mas que essa associação pertence a um tempo preciso, não necessariamente ao personagem como símbolo ufanista.

Enfim, a crítica às trilhas sonoras dos filmes da Marvel Studios tem, sem dúvida, seu fundo de razão, independente do cinema moderno priorizar uma mixagem que abafa alguns sons da orquestra que sobrepõe o realismo da imagem cinematográfica. Mas é preciso levar em conta o trabalho original dos compositores para esses personagens tão humanos do MCU, tendo em vista que a música contribui para a memorização do que se assiste no cinema e do efeito emocional de cenas. Porque às vezes a música transpassa narrativas que os olhos podem enganar, e só indo atrás de ouvir essas composições musicais que a cada filme pode-se atentar mais quais temas estamos dispostos a agregar no nosso HD mental.

Aumenta!: Triumphant Return
Diminui!: General ‘s Resign
Minha canção favorita do álbum: “This is My Choice”

Captain America: The First Avenger – Original Motion Picture Soundtrack
Artista: Alan Silvestri
País: EUA
Lançamento: 19 de julho de 2011
Gravadora: Air Studios
Estilo: Trilha Sonora

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2 comentários

Kevin Rick 20 de março de 2021 - 01:24

Ótima crítica! Eu tinha me interessado pela Trilha justamente pelas minhas lembranças da música do filme no sentido de militarização, heroísmo e patriotismo misturado à propaganda política, que havia me marcado na obra. Nunca me esqueço dos merchandisings do Steve, e como o fundo musical trabalha isso tão bem. Contudo, por ainda não ter escutado a Trilha novamente, fiquei surpreso pelo seu argumento de contemporaneidade do Silvestri. Não me lembrava disso, e acaba sendo genial e perfeito para a trama de “Homem Fora do Tempo” do personagem. Baita crítica! Quero escutar a Trilha e rever o filme com mais cuidado para ir pegando o que você esplendidamente expõe aqui.

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Davi Lima 20 de março de 2021 - 13:09

Sem dúvida a fanfarra é o tema, é a militarização e o patriotismo, com muitos metais e percussão, fora a canção do Alan Menken para a cena da propaganda. Valeu! Da última vez que vi esse filme foi uma surpresa, por sinal Acho que vala a pena rever.

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