Crítica | Shazam: A Ameaça do Dr. Allirog e Casa Assombrada

special_edition_comics_001_1940_plano critico shazam capitão marvel

No mesmo ano em que foi criado, na Whiz Comics #2, o Capitão Marvel (Shazam) ganhou uma one-shot pela Fawcett Publications, uma antologia com quatro histórias inéditas escritas e desenhadas pela dupla de criadores do personagem, Bill ParkerC.C. Beck, com finalização de Pete Costanza em duas das quatro aventuras. A proposta aqui era explorar um pouco mais as possibilidades do personagem, colocando-o em situações mais intensas do que as que vivia naquele começo de protagonismo na Whiz Comics. Quase uma edição de teste de habilidades e ambientes de luta para Billy Batson. Abaixo, seguem os comentários para as duas primeiras dessas histórias.
.

The Menace of Dr. Allirog

Nesta primeira aventura da antologia, temos uma construção bem diferente de ameaça para o Capitão Marvel, uma boa jogada de expectativas que Bill Parker nos faz através do roteiro. Começamos com Billy Batson fazendo a cobertura radiofônica de uma luta de boxe entre Slaughter Slade e um lutador qualquer, que obviamente (e de maneira tão rápida que imediatamente levanta suspeitas) perde a luta — ah, e aqui vamos entender o ponto de uma criança fazer cobertura jornalística para um evento como esses… Outros tempos, outras conveniências nos quadrinhos. Quando começamos a saga, imaginamos que haverá algum experimento científico em relação ao fortão Slade, mas não é isso que acontece. Em pouco tempo, a trama dá uma guinada para uma história de busca pelo poder, com o vilão manipulando um gorila muito inteligente chamado… Doctor Allirog.

The Menace of Dr. Allirog capitão marvel plano critico shazam

Por mais que tenha um desvio narrativo mais ou menos sem pé nem cabeça, a história funciona e diverte. A questão é tanto pela aproximação que temos com protagonista, de quem é impossível desgostar, quanto pelo fato de a trama em si carregar algo instigante e oculto, uma intenção que visita diversos espaços e em cada um deles parece ter algo a mais para mostrar e que nos deixa curiosos para avançar a leitura. A bela, simples e simpática arte de C.C. Beck também tem um grande papel nisso, embora lamentemos o fato de ele explorar pouco os quadros grandes, nos quais o Capitão Marvel sempre fica melhor — mas dá para entender o estilo, afinal, estamos em 1940 e essa era a norma para a Era de Ouro. O final da aventura, como não podia deixar de ser, é medonho, mesmo para um leitor de décadas depois (no sentido de: “sério que isso era permitido em um quadrinho para crianças, em 1940?“), com o coitado do gorila pagando um preço alto demais pelas ações do infame Slaughter Slade. A vítima inesquecível da história.

.

Capt. Marvel and the Haunted House

Uma curiosa trama de terror, esta Capt. Marvel and the Haunted House nos conta a história de um milionário recluso e esquisito chamado J. Mortimer Grood, que vem a falecer em 1890, deixando um bom dinheiro para o seu mordomo e pedindo para que ele pagasse 50 anos de impostos da casa, para evitar que qualquer pessoa entrasse na mansão. De cara, o leitor fica curioso para descobrir o que está acontecendo. Primeiro, porque existe um deslocamento temporal que adiciona uma boa camada de mistério. Depois, porque a tal da casa assombrada começa ganhar destaque na vila, já que os anos de impostos pagos chegaram ao fim e o Conselho local resolve que precisa vender o lugar. Todavia, com as muitas notícias de assombração e até mesmo atentados à vida de pessoas, o preço da mansão está muito baixo e o interesse praticamente nulo.

Capt. Marvel and the Haunted House plano critico capitão marvel shazam

Esta é a típica boa história de mistério onde muita gente é suspeita, mas o leitor não consegue se decidir sobre exatamente QUEM é. Se deixarmos de lado as perdoáveis coincidências, veremos que a escolha do roteiro em impedir que Billy use a palavra “SHAZAM!” logo de cara acaba sendo algo muito bom, porque expõe o garoto a perigos que ele precisa enfrentar sozinho, recorrendo ao Capitão Marvel apenas em último caso. Por ser uma mansão cheia de portas, alçapões e surpresas por todos os lados, os “fantasmas” espalharam armadilhas para todos os lados, a fim de impedirem que intrusos permanecessem na casa. Se pensarmos bem, o esforço parece demasiadamente bem pensado para ser um plano de ladrões do tipo que o roteiro coloca aqui, mas mesmo assim, não é nada absurdamente fora do esperado ou aceitável para a época. A sequência final, com uma porção de surpresas aparecendo, uma atrás da outra, para assustar Billy + a chegada do Capitão Marvel dominando a cena é uma das melhores coisas do conto. Até lembra um famoso filme de casa assombrada estrelado por Buster Keaton.

Special Edition Comics (EUA, 1940)
Publicação original: Fawcett Publications
Roteiro: Bill Parker
Arte: C.C. Beck
Arte-final: C.C. Beck, Pete Costanza
Cores: Bill Parker
Capa: C.C. Beck
64 páginas

LUIZ SANTIAGO (OFCS) . . . . Após recusar o ingresso em Hogwarts e ser portador do Incal, fui abduzido pela Presença. Fugi com a ajuda de Hari Seldon e me escondi primeiro em Twin Peaks, depois em Astro City. Acordei muitas manhãs com Dylan Dog e Druuna, almocei com Tom Strong e tive alguns jantares com Júlia Kendall. Em Edena, assisti aulas de Poirot e Holmes sobre técnicas de investigação. Conheci Constantine e Diana no mesmo período, e nos esbaldamos em Asgard. Trabalhei com o Dr. Manhattan e vi, no futuro, os horrores de Cthulhu. Hoje, costumo andar disfarçado de Mestre Jedi e traduzo línguas alienígenas para Torchwood e também para a Liga Extraordinária. Paralelamente, atuo como Sandman e, em anos bissextos, trabalho para a Agência Alfa. Nas horas vagas, espero a Enterprise abordar minha TARDIS, então poderei revelar a verdade a todos e fazer com que os humanos passem para o Arquivo da Felicidade, numa biblioteca de Westworld.