Crítica | Capone

Esse aqui definitivamente não é o notório Alphonse “Fonse” Capone, também conhecido como Scarface, que estamos acostumados a ver em filmes e séries. A imagem romantizada de um dos maiores gangsteres americanos em obras como Al Capone (1959), Os Intocáveis (1987) e Boardwalk Empire (2010-2014) nem chega a fazer parte efetiva dessa estranha fusão de filme de gângster com horror psicológico e corporal que Tom Hardy carrega nas costas do início ao fim como uma crônica alucinógena do ultimo ano de vida de seu personagem.

Josh Trank, que instantaneamente subiu ao céu de Hollywood por intermédio de seu Poder sem Limites para cair vertiginosamente ao inferno com sua versão do Quarteto Fantástico imediatamente depois, tenta recuperar o espaço que perdeu retornando a uma obra autoral que ele não só dirige e escreve, como também faz a montagem e que é uma grotesca, mas interessante, amálgama de gêneros, com um Fonse ainda novo (ele faleceu com 48 anos), mas mental e fisicamente debilitado em razão do estágio avançado de sífilis que contraíra ainda adolescente quase que como uma vingança divina por todos os crimes que cometeu. Sem preocupar-se com a retratação da realidade dos fatos, Trank cria um filme que depende exclusivamente do quanto o espectador “comprará” a performance carregada e teatral de Hardy no papel título em um estudo de personagem que faz as vezes, também, de estudo dramatúrgico.

Afinal, Hardy, especialista em desaparecer em personagens que são menos personagens independentes e mais Hardy fazendo sons guturais e andando de maneira estranha sob maquiagem pesada ou máscaras e mordaças – e, que fique claro, isso não é exatamente demérito – está absolutamente em casa nesse A Mosca realista que já começa com um Al Capone desfigurado, incapacitado e literalmente monstruoso tendo que lidar com seus demônios e sua própria versão da realidade em uma mansão cada vez mais vazia em Miami, na Flórida, tendo como companhia constante sua esposa Mae (Linda Cardellini). Demora um tempo para que o espectador se aclimate à estranheza imediata que a pele muito branca e descascada, os olhos injetados com pupilas totalmente pretas, o charuto mastigado no canto da boca e a voz gutural e cavernosa criam instantaneamente. Há um palpável exagero e ambição na construção do filme, com direito até a um quase surreal momento Tony Montana que talvez nunca permita que esse Capone seja o Capone histórico e nem mesmo uma versão dele, sendo provavelmente mais fácil concluir que o que vemos é integralmente fruto da percepção desse bem particular Capone sobre ele mesmo.

O horror corporal decididamente torna o filme difícil de assistir, com momentos escatológicos extremamente desagradáveis, mas que, por outro lado, parecem catárticos, mas não para o personagem, claro, e sim para o espectador que enxergar nesse Capone o Capone vilanesco da vida real ou de incontáveis outras obras audiovisuais. Novamente, é como se o filme todo fosse o detalhamento do castigo divino infligido ao personagem que vai, aos poucos, desmontando-se diante da câmera.

Mesmo com esse pouco apelo que a película em si tenha, tudo que gira diretamente em torno de Capone merece nota e atenção tanto pelo trabalho de Hardy, talvez o Marlon Brando dessa geração, como pelos arroubos estilísticos de Trank. Mas o diretor nem sempre acerta mesmo aí, já que ele parece se esquecer que seu filme é independente, de baixo orçamento, simplesmente não havendo dinheiro para ser injetado em próteses corporais e crocodilos digitais que não tenham o condão de retirar o espectador da imersão da narrativa. Já é quase um pequeno milagre que a maquiagem de Hardy não faça isso (ainda que por vezes faça, há que se confessar), pelo que ele poderia ter evitado “sair do script” para forçar na pegada mais surreal em alguns momentos.

Aliás, a imersão é também ameaçada pela tentativa de se costurar um fio narrativo fora da mente perturbada de Capone e que se refere à procura, pelo FBI, de dinheiro que os agentes desconfiam que o gângster escondeu. O problema dessa abordagem de Trank é que ele, para fazê-la funcionar, altera o ponto de vista narrativo, afastando a ação de Capone em sua mansão algumas vezes, especialmente mais no final. O resultado disso é que o filme parece perder a coesão estrutural, deixando entrever a existência de narrativas paralelas que, se no começo fundem-se aos devaneios do protagonista, depois deixam evidente que Trank ou não revisou direito seu roteiro para apagar traços de versões anteriores ou, pior ainda, escolheu trilhar esse caminho equivocado que afeta a integridade de sua obra.

Independente de seu problemas e mesmo considerando a luta morro acima que é acompanhar a decadência mental e física de Al Capone, Tom Hardy vale todo o esforço. É mais um personagem bizarro que o ator vive, sem dúvida, mas é um bizarro fascinante, difícil de desgrudar os olhos mesmo quando todo o restante do corpo quer mais é correr para longe da tela.

Capone (Idem, EUA – 12 de maio de 2020)
Direção: Josh Trank
Roteiro: Josh Trank
Elenco: Tom Hardy, Linda Cardellini, Jack Lowden, Matt Dillon, Noel Fisher, Kyle MacLachlan, Kathrine Narducci, Neal Brennan, Gino Cafarelli, Tilda Del Toro, Mason Guccione, Caiden Acurio, Josh Trank
Duração: 103 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.