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Crítica | Capote

por Rafael W. Oliveira
432 views (a partir de agosto de 2020)

Cinebiografias, em sua grande parte, seguem por um caminho convencional de narrar suas histórias e, por isso mesmo, perigoso. Abordar a vida de uma figura entre 90 e 120 minutos de um filme geralmente é uma tarefa complicada, pois dependendo da vida do individuo a ser retratado, podemos ou não ter uma leitura superficial daquele rosto. Obviamente, tudo também pode depender da abordagem da produção: ou é retratado uma vida inteira, ou somente um período especifico da vida do individuo.

Capote segue o caminho da segunda opção. Ambientado entre os anos de 1959 e 1965, a biografia sobre o polêmico romancista Truman Capote, autor do romance que deu origem ao clássico Bonequinha de Luxo, aborda o período em que o autor trabalhou em cima de sua criação mais importante, e que viria a ser aquela que traria a fama definitiva para seu nome. Trata-se do romance A Sangue Frio, baseado no real assassinato de uma família pelas mãos de dois rapazes da pequena cidade de Holcomb, Kansas. O filme, entretanto, utiliza o processo de criação de Capote em cima da obra como um pano de fundo para criar um profundo e complexo estudo de personagem sobre a persona de Capote, conhecido por seu egocentrismo, seu forte poder de manipulação e seu humor politicamente incorreto. Além, é claro, do fato de ser abertamente homossexual.

O roteirista Dan Futterman, amigo de infância do diretor Bennett Miller (de O Homem Que Mudou o Jogo), acerta ao explorar um período particularmente sombrio e marcante da vida de Capote, aproveitando a oportunidade para dissecar a figura do homem por trás da escrita, das polêmicas, dos traços externos que o tornaram um rosto famoso por sua excentricidade. Vemos o difícil processo de criação do artista, que ao construir uma relação estranhamente intima com os responsáveis pela chacina, vê-se encurralado numa série de dilemas, onde a empatia com os assassinos se choca com seus interesses pessoais sobre o caso.

Sabendo da complexidade de uma abordagem como esta, Bennett Miller cria um filme de silêncios, onde as imagens encontram a árdua tarefa de serem mais completas do aquilo que pode ser dito com palavras. Mergulhando os personagens numa atmosfera densa e acinzentada (méritos para o diretor de fotografia Adam Kimmel), Miller elabora enquadramentos que traduzem o clima pesado de dor que permeia a vida daquelas figuras, onde os limites morais são postos à prova até o último segundo, porém sem qualquer tipo de julgamento por parte do diretor e seu roteirista. O que temos é um retrato cru e assustadoramente realista aquele período na vida de Capote e daqueles que o cercam.

Phillip Seymour Hoffman já fazia parte da indústria há um bom tempo antes de atuar em Capote, tendo inclusive chamado a atenção da mídia por suas atuações em produções como Jogada de Risco, Boogie Nights – Prazer Sem Limites, O Grande Lebowski, Magnólia e O Talentoso Ripley. Mas foi com Capote que ator recebeu o devido reconhecimento por sua clara versatilidade, versatilidade esta que se torna impossível negar após assistir Capote. Muitos dizem que a composição do ator para interpretar Truman Capote é uma das mais completas já vistas no Cinema, e quem já assistiu ao filme sabe que tal afirmação está longe de ser um exagero. Desde os trejeitos efeminados, passando pela voz fina e carregada de monotonia e chegando até o humor afiadíssimo, Hoffman não apenas reproduz a figura de Capote nas telas, mas se torna o próprio. As nuances, os olhares, os movimentos, tudo é perfeitamente calibrado pelo ator para alcançar o máximo de naturalidade possível, algo que é alcançado com êxito. É como se tivéssemos o próprio Capote, em pessoa, em nossa frente. Um trabalho de fenomenal de incorporação uma personalidade de características próprias e singulares.

Como apoio, o filme conta com outros nomes competentes e que, ao contrário da maioria das cinebiografias, jamais se tornam figuras descartáveis para esta jornada de Capote – todos possuem algo a acrescentar, em maior ou menor escala. Clifton Collins Jr. Como Perry Smith, um dos responsáveis pela chacina, é um perfeito contraponto ao trabalho de Hoffman, compondo uma figura surpreendente refinada e de gosto artístico peculiar, algo inesperado para um criminoso. Um dos grandes momentos do filme é justamente o embate entre estes dois personagens. Catherine Keener, como Harper Lee, amiga de Capote e autora do livro O Sol é Para Todos, fornece uma sustentação mais do que bem-vinda para Capote, enquanto que Chris Cooper, como o investigador do caso, e Bruce Greenwood, amante de Capote, fecham o clico de boas interpretações.

Voltando ao roteiro de Dan Futterman, vale ressaltar o processo de degradação que a investigação pessoal de Capote sobre o caso trouxe para a vida do romancista – é a arte influenciando a realidade. Ao final, temos um Capote em conflito consigo mesmo, onde o êxito da finalização de sua obra não lhe traz nenhuma alegria, e onde a fama e o talento agora lhe soam como detalhes supérfluos diante do processo de desconstrução pelo qual passou. O plano final, com um Capote olhando para o vazio, exemplifica perfeitamente isto.

Pecando apenas pelo ritmo excessivamente lento (certas passagens acabam soando monótonas e carregadas demais), Capote ainda é um filme de grandes méritos, destacando a performance de Phillip Seymour Hoffman, que sem se deixar levar pelo estereótipo, nos apresenta uma figura humana, ambiciosa, e marcada por seus próprios demônios. Também contribui para isso o sóbrio roteiro de Dan Futterman, que soube reunir os acontecimentos de maneira satisfatória, e a direção de Bennett Miller, que soube como trazer a condução ideal para a obra.

Um grande filme.

Capote (idem, EUA, 2005)
Roteiro: Dan Futterman
Direção: Bennett Miller
Elenco: Phillip Seymour Hoffman, Catherine Keener, Chris Cooper, Bruce Greenwood, Bob Balaban, Clifton Collins Jr., Amy Ryan
Duração: 108 min.

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