Crítica | Cara-Unicórnio: Dando Uma Mãozinha e Ramos Sem Rumo

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Dando Uma Mãozinha (2018) e Ramos Sem Rumo (2019), respectivamente os capítulos 5 e 6 da saga do Cara-Unicórnio, seguem o fantástico trabalho de Adri A. com este super-herói hilário, incomum, sensível e cheio de questões com as quais nos identificamos: os perrengues do cotidiano, a luta constante para ganhar a vida e a busca constante para ser feliz. Um ponto a se destacar logo de cara é que o leitor poderá ler cada um desses capítulos em separado que não terá nenhum problema de entendimento em relação à obra, mas para quem conhece o personagem de seus 4 capítulos anteriores, publicados em Cara-Unicórnio – Vol.1 (2018), terá a deliciosa sensação de entender as referências e ver o personagem de fato se desenvolvendo.

Em Dando Uma Mãozinha temos uma breve citação ao Largato (sim, este é o nome), personagem do zine Memórias & Escamas, de JØ Sem Alma, que estaria no centro das atenções no Capítulo 6. O hilário ponto de partida, no entanto, traz JØ em busca de comida para o ‘bichano’ e, na mesma cena, a chegada da mãe de Tim procurando ajuda para encontrar o menino, que desapareceu. A trama de salvamento segue por um caminho “tipicamente heroico”, mas com o sabor das máximas loucuras que encontramos nas revistas do chifrocórnio. Eu sou um grande fã da liberdade a que o artista se permite na hora de diagramar as histórias aqui, invadindo as calhas, brincando com os mais diferentes modelos de quadrinhos e fazendo um excelente uso de cores em todo esse processo, o que fica ainda mais interessante quando comparamos a temática e a paleta em destaque para cada capítulo. Vale ainda destacar a fofíssima presença de Diego na história e a linha moral e fraterna que o roteiro adota para colocar Tim em contato com o Dr. Cervikal. Mesmo não gostando do Epílogo, eu me diverti bastante com essa historinha de cientista maluco/monstruoso entrando para a galeria do Cara-Unicórnio.

No capítulo seguinte, Ramos Sem Rumo, o Largato é utilizado como trampolim para a colocação do herói em ação e eu simplesmente amei a ideia de uma árvore-mundo onde vão parar uma porção de coisas, onde pessoas e bichos se perdem e onde o herói protagonista passa a maior parte do tempo, enquanto procura o Largato e busca um jeito de sair dali. Em termos de abordagem, há uma aproximação maior dessa história com o tom de Cara-Unicórnio – Vol.1, com tempo para bons dramas pessoais/familiares, doses extras de fofura, um interessantíssimo mistério (que o autor usa muito bem como cliffhanger) e uma integração orgânica com o restante da série. Coroando tudo isso, temos uma épica luta do chifrudo contra o Unha de Gato, uma planta-felina com pitadas de Cavaleiros do Zodíaco.

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Quando a gente fala de real representação nos quadrinhos através de personagens LGBT, por exemplo, é difícil imaginar uma história inteiramente voltada para as questões dessa comunidade, não só em relação à sexualidade, mas também à identidade e à expressão de gêneros, com diálogos e cenas que também expõem visões estereotipadas, seja de alguém do Vale ou fora dele. Cara-Unicórnio é esse tipo de publicação que fala de questões próprias de um grupo fora dos padrões e de sua relação com todos os outros em torno. Sem dividir pessoas de maneira irresponsável e ciente de que preconceitos e construções sociais problemáticas podem vir de qualquer lugar, Adri A. continua afiado na condução de seu apaixonante personagem, entretendo-nos ao mesmo tempo que traz coisas para pensar e redirecionar o olhar a pessoas que normalmente não são vistas — ou que são vistas com profundas camadas de senso comum, para dizer o mínimo. Que venha muito mais Cara-Unicórnio por aí!

* Um agradecimento especial ao autor pela simpatia e pelo envio das imagens.

Cara-Unicórnio #5 e 6: Dando Uma Mãozinha e Ramos Sem Rumo (Brasil, 2018 – 2019)
Roteiro: Adri A.
Arte: Adri A.
Publicação independente
44 páginas (cada volume)

LUIZ SANTIAGO (OFCS) . . . . Após recusar o ingresso em Hogwarts e ser portador do Incal, fui abduzido pela Presença. Fugi com a ajuda de Hari Seldon e me escondi primeiro em Twin Peaks, depois em Astro City. Acordei muitas manhãs com Dylan Dog e Druuna, almocei com Tom Strong e tive alguns jantares com Júlia Kendall. Em Edena, assisti aulas de Poirot e Holmes sobre técnicas de investigação. Conheci Constantine e Diana no mesmo período, e nos esbaldamos em Asgard. Trabalhei com o Dr. Manhattan e vi, no futuro, os horrores de Cthulhu. Hoje, costumo andar disfarçado de Mestre Jedi e traduzo línguas alienígenas para Torchwood e também para a Liga Extraordinária. Paralelamente, atuo como Sandman e, em anos bissextos, trabalho para a Agência Alfa. Nas horas vagas, espero a Enterprise abordar minha TARDIS, então poderei revelar a verdade a todos e fazer com que os humanos passem para o Arquivo da Felicidade, numa biblioteca de Westworld.