Crítica | Caravaggio (1986)

Caravaggio, tal como descrito em um dos documentários sobre o seu potencial artístico e legado, era o mestre dos pincéis. Com uma biografia enigmática e um conjunto de pinturas que nos permite interpretação múltiplas, Caravaggio era um artista bastante requisitado na Contrarreforma, época em que a Igreja se mantinha carente de imagens que trabalhassem um novo rumo iconográfico espiritual. Com trajetória polêmica, envolta em dubiedades sexuais e até mesmo um assassinato, o pintor adentrou por uma zona de obscuridade após o auge do movimento barroco, substituídos pela moda romântica e realista nos séculos seguintes.

Redescoberto pelos críticos e historiadores do século XX, Caravaggio saiu das notas de rodapé básicas dos manuais e compêndios de história da arte, tornando-se, mais uma vez, uma presença bastante pontual nos debates sobre arte, sendo ainda considerado influenciador de nomes notáveis, tais como Rembrandt, Manet, Coubert e Delacroix, dentre outros, artistas que talvez não tivessem existido ou fossem conhecidos por abordagens pictóricas diferentes, ao menos é o que afirmam os especialistas no assunto, certos das ressonâncias do mestre dos pincéis ao longo da produção posterior e seguidora de seu legado.

Ciente do potencial biográfico de Caravaggio, o cineasta Derek Jarman, com parco orçamento, assumiu a corajosa empreitada de transformar algumas passagens do pintor em filme. Assim surgiu a cinebiografia de 1986, dirigida por Jarman, realizador que também assinou o roteiro, tendo como base o argumento de Nicholas Ward Jackson. Como opção narrativa, a produção inicia com Caravaggio (Nigel Terry) em seu leito de morte. Há vários flashbacks, oriundos de sua memória nebulosa, incluindo os trechos da sua infância, representados pelo ator Dexter Fletcher, momentos que nos permitem adentrar na história que vai se costurando, tendo como foco a postura abrasiva do pintor, em constante embate com outras pessoas, além da homossexualidade tratada de maneira nada sutil, principalmente na relação com Ranuccio (Sean Benn) e Lena (Tilda Swinton), espécie de “triângulo amoroso” da história.

Ao longo de seus 93 minutos, Caravaggio passeia por cenários que resgatam os modos de produção do pintor: captação de imagens que exaltam a sexualidade, latente em cada pincelada, além do seu interesse por situações mundanas, com foco em marinheiros, prostitutas, moradores de rua, juntamente com sua postura desregradas que o mantinha sempre em bares, ambientes obscuros, etc.  Se fosse uma abordagem do romantismo literário, o artista seria tratado como um boêmio. No bojo de seu extenso legado, o pintor não hesitou em retratar deformidade e cenas provocadoras, algo que Victor Hugo futuramente descreveria como o “grotesco” em seus ensaios.

A direção de fotografia de Gabriel Berstain é um dos pontos mais altos da estética em Caravaggio, adequada ao tema e eficiente na captação dos espaços que “exalam” o artista biografado. Além dos movimentos e enquadramentos equilibrados, a iluminação permite-nos observar as técnicas barrocas aplicadas pelo artista, dentre elas, o tenebrismo e o chiaroscuro. É a metalinguagem em outro patamar, indo além do registro imaginado dos bastidores de produção de alguns de seus quadros.  No caso do tenebrismo, o que podemos observar o contraste dos tons terrosos com os fortes pontos de luz em tela. O chiaroscuro traz o contraste entre o objeto e o fundo, numa contrariedade à linearidade renascentista, com o “embate entre claro e escuro” nas cenas, tendo a projeção de sombra em objetos como técnica própria do segmento.

Orçamentos abaixo do média nunca foram empecilho para a realização de filmes bem qualificados esteticamente. Caravaggio é a prova cabal desta afirmação. A equipe do cineasta Derek Jarman faz uma excelente apresentação audiovisual da atmosfera que no campo da interpretação, aproxime-se mais ou menos dos bastidores das pinturas detalhistas e misteriosas do artista. O design de produção de Christopher Hobbs constrói espaços obscuros e sujos, iluminados pela presença das obras de arte de Caravaggio em seu processo metalinguístico de produção. Com apoio da direção de arte de Michael Buchanan, profissional responsável pelos “detalhes”, o setor ganha maiores dimensões e se torna o ponto forte na narrativa, algo por sinal obrigatório, sendo a cinebiografia de um nome de peso na história da arte.

Ademais, o responsável pelas obras-primas Davi com a Cabeça de Golias, A Morte da Virgem, O Sacrifício de IsaacA Flagelação de Cristo, dentre outras, ganhou perfil dramático bem construído pelo roteiro de Derek Jarman: são personagens esféricos, enigmáticos, misteriosos, tal como a própria biografia do protagonista deste filme sobre amor, arte, sexualidade e entrega visceral aos prazeres e desprazeres da vida.  Retratado em outras incursões no cinema e na televisão, Caravaggio é dono de um extenso legado que ainda está bem longe de encontrar esgotamento temático e narrativo na era da reprodutibilidade técnica.

Caravaggio — Reino Unido, 1986.
Direção: Derek Jarman
Roteiro: Derek Jarman, Nicholas Ward Jackson
Elenco: Michael Gought, Nigel Terry, Sean Bean, Tilda Swinton, Spencer Leigh, Dexter Fletcher, Garry Cooper, Nigel Davenport, Robbie Coltrane, Michael Gough
Duração: 93 min.

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.