Crítica | Caravaggio – O Mestre dos Pincéis e das Espadas

Um pintor de temas religiosos, bem conectado ao seu tempo. Ciente também da necessidade de se manter, atendeu aos pedidos de alguns clientes e tornou-se uma das maiores referencias da história da arte. Interessado numa representação mais concreta do que captava, Caravaggio fez pela pintura o que Pasolini fez pelo cinema: incluiu pessoas comuns em suas ações cotidianas, sem “idealizações clássicas”. Responsável por aprofundar o “tenebrismo” na arte, isto é, o uso de tons terrosos em contraste com fortes pontos de luz, o artista também é conhecido pela crueza de suas pinturas, despreocupadas em representar a dita feiúra, contraste das propostas renascentistas de “beleza e ordem”. Por detrás deste breve panorama ainda há bastante história, impossível de ser retratada em sua completude até mesmo numa série de longas temporadas, tamanha a complexidade da abordagem, resumida de maneira espetacular ao longo dos 52 minutos de Caravaggio – O Mestre dos Pincéis de das Espadas.

A história das artes visuais é ampla e repleta de gênios, membros que fazem parte de um grupo seleto que obedecem determinadas regras de participação, o chamado cânone. Michelangelo Merisi de Caravaggio é uma destas personalidades fortes que merecem todo destaque e atenção tamanha a relevância das suas obras na evolução da linguagem proposta pela pintura. Além dos filmes e séries que buscam, através da metalinguagem, emular o seu processo criativo por meio de reproduções ficcionais de seus bastidores, documentários didáticos como Caravaggio – O Mestre dos Pincéis e das Espadas resgatam a sua biografia e buscam ir além do lugar comum para abordar a sua trajetória, uma trilha que não representa apenas o ponto de vista de um determinado gênio, mas as características que delineiam todo um movimento artístico permeado por um denso e complexo contexto histórico, a era de ascensão das ideias barrocas nas artes.

Sob a direção de Hélio Goldsztejn, guiado pelo roteiro de Alexandre Handfest, o documentário em questão retrata o pintor e as suas obras, tendo como linha narrativa a exposição Caravaggio e Seus Seguidores. Com curadoria de Fábio Magalhães, especialista guiado pelo projeto de Giorgio Leone na Itália, a exposição ocorreu em 2012 e trouxe ao país sete obras do pintor, selecionadas com base na estrutura idealizada por Rosella Vodret, especialista que está para o italiano como Barbara Heliodora e Harold Bloom estão para Shakespeare. A exposição, tratada em minha reflexão como acontecimento se refere ao pomposo movimento de retirada da “Medusa” da Itália pela primeira vez na história, algo digno de muita moral, perdida recentemente num país que permite o misterioso incêndio de um dos museus mais importantes da nação, discussão que por sua vez, fica para outro texto, tudo bem?

Realizado pela Malabar Filmes, produtora que teve a parceria da TV Cultura, o documentário consegue ir além do formato reportagem expandida e aposta em recursos estéticos do audiovisual que nos permitem embarcar numa sofisticada aventura artística repleta de informação para ser transformada em conhecimento, sem deixar de lado um “quê” de entretenimento. Em suma, Caravaggio – O Mestre dos Pincéis e das Espadas ultrapassa as propostas apenas pedagógicas e se oferta como um deleite de imagens interpretadas por especialistas que sabem exatamente a importância das obras que analisam, dando ainda espaço para gente comum expressar a sua opinião sobre a apreciação da valiosa exposição.

Nascido há cerca de 400 anos, o italiano ainda é relevante para a compreensão de movimentos estéticos, políticos e contextuais da história da arte. Apesar de ter morrido aos 38 anos, ainda jovem, Caravaggio deixou um extenso legado de obras instigantes e intrigantes, repletas de possibilidades interpretativas que não se fecham apenas em moldes acadêmicos. Idealizador do que viria a ser o plano cinematográfico com o advento da modernidade, o pintor estabeleceu em sua época algumas nuances que antecipam a representação visual promovida pelo cinema muito tempo depois. Conforme um dos melhores depoimentos do documentário, ele fez em sua época o que Robert Richardson, conceituado diretor de fotografia, conhecido pelos trabalhos com o cineasta Oliver Stone, faz em suas captações de imagem, do enquadramento ao processo de iluminação bastante peculiar, em especial, a glamorosa luz refletida.

O documentário já começa de maneira atmosférica, tendo como ponto de partida uma citação atribuída ao pintor: “Não sou um pintor valentão, como dizem. Mas um pintor valente, que sabe pintar e imitar bem as coisas naturais”. Acompanhada por sons envolventes, a abertura estabelece o clima da produção, dirigida artisticamente por Ronaldo de Sena e editada por Inti Grespan de maneira criativa e diferenciada do que estamos acostumados a contemplar nesta seara de imagens, geralmente repletas de cabeças falantes e imagens de arquivo. A captação de depoimentos dos cinegrafistas Diego Sousa e Maurício Tibiriça fazem excelente uso da profundidade de campo e se preocupam em sair do clichê, mesmo em momentos de necessidade da burocracia narrativa. As animações de Bira Lavor, Felipe de Luca e Marcos Pizza movem, recortam, remontam as obras de Caravaggio e fazem “arte com a arte”.

Caravaggio – O Mestre dos Pincéis e das Espadas  — Brasil, 2012.
Direção: Hélio Goldsztejn
Roteiro: Alexandre Handfest
Elenco:Hélio Goldsztejn, Alexandre Handfest, Rosella Vodret, Fábio Magalhães, Giorgio Leone
Duração: 52 min.

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.