Crítica | Caravana de Bravos

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Caravana de Bravos (1950) é o faroeste de John Ford que sucede à segunda parte de sua Trilogia da Cavalaria (Legião Invencível) e, olhando para as duas obras, é absolutamente fascinante notar o quanto o diretor tinha a capacidade de se adaptar às mais diversas condições de orçamento, elenco e limitações de roteiro ou produção. Assinada por Ford e Merian C. Cooper, a produção de Caravana de Bravos aconteceu pela companhia independente Argosy Pictures, fundada para dar a Ford total liberdade de escolhas na direção. Os gastos e o tempo de filmagem precisaram ser diminuídos ao máximo, o que levou o diretor a pensar em uma história que exigisse esse tipo de abordagem… então lhe pareceu o momento certo para adaptar a ideia que seu filho Patrick Ford havia concebido cerca de dois anos antes.

O enredo bruto do Ford filho foi lapidado e estruturado por Frank S. Nugent, ex-crítico de cinema do New York Time que estreou na carreira de roteirista em 1948, justamente em dois filmes de John Ford: Sangue de HeróisO Céu Mandou Alguém. A história, baseada na real Expedição San Juan, mostra a difícil jornada de um grupo de mórmons que pretendia fundar uma colônia. Os religiosos contratam como guia dois jovens cowboys e comerciantes de cavalos, Travis (Ben Johnson) e Sandy (Harry Carey Jr.). O fato de não haver estrelas no elenco colabora para a criação de uma atmosfera de sacrifício, fé e ingenuidade, colocando o espectador em uma posição de sofrimento juntamente com os mórmons, especialmente na parte final da obra, quando a gangue do Uncle Shiloh Clegg (Charles Kemper) sequestra a caravana.

A simplicidade do roteiro até pode deixar escapar temas bastante humanos, primeiro, fazendo caminhar pelo deserto (local de provações para diversas vertentes religiosas) três grupos de indivíduos rejeitados por diferentes motivos: os mórmons, os artistas e os bandidos. A neutralidade aí aparece através dos jovens guias, que não são nem rejeitados e nem religiosos, assumindo então uma interessante postura na condução do povo para um Éden, contribuindo para a formação de uma nova comunidade americana. Isso se dá em meio a um ambiente que parece não ter grandes acontecimentos, apenas a longa jornada em um espaço aberto, cheio de perigos e onde pessoas se conhecem, entram em conflito e possivelmente fazem as pazes ou se enfrentam mortalmente. As leis gerais para a formação de uma comunidade são paulatinamente observadas no filme e ganham liberdades ou freios dependendo da idade ou da posição que um determinado personagem ocupa dentro dessa sociedade em miniatura.

Embora a edição de Jack Murray e Barbara Ford consiga segurar bem a jornada lírica com os acontecimentos de percurso — porque não há, de fato, uma história sendo contada, apenas a viagem e seus temores –, a passagem entre alguns blocos e principalmente a organização final dos eventos não estão entre as coisas que provavelmente aplaudiremos no filme. A última cena, que repete os planos da travessia do rio que vimos no começo do filme, tem um impacto verdadeiramente negativo no espectador, e melhor seria se o diretor mostrasse a chegada definitiva à “Terra Prometida” de outro modo, ou apenas sugerisse isso, mas não optasse pela ideia de ciclo se fechando, repetindo cenas já vistas.

A busca de uma promessa é a temática que o texto de Caravana de Bravos sustenta, e há uma beleza imensa no decorrer desse processo, com méritos para a fluída e precisa direção de Ford e para a fotografia de Bert Glennon (No Tempo das Diligências), com destaque para as travessias de rios, para a cena noturna de dança com os índios e para as cenas de escavação da montanha. Embalado por canções nostálgicas e ressaltando os altos e baixos da vida através de uma longa viagem (metáfora para a existência de uma pessoa), o filme é uma daquelas obras esquecidas de um grande diretor que a gente torce para que seja redescoberta.

Caravana de Bravos (Wagon Master) — EUA, 1950
Direção: John Ford
Roteiro: Frank S. Nugent, Patrick Ford
Elenco: Ben Johnson, Joanne Dru, Harry Carey Jr., Ward Bond, Charles Kemper, Alan Mowbray, Jane Darwell, Ruth Clifford, Russell Simpson, Kathleen O’Malley, James Arness, Francis Ford, Fred Libby, Jim Thorpe, Mickey Simpson
Duração: 86 min.

LUIZ SANTIAGO (OFCS) . . . . Após recusar o ingresso em Hogwarts e ser portador do Incal, fui abduzido pela Presença. Fugi com a ajuda de Hari Seldon e me escondi primeiro em Twin Peaks, depois em Astro City. Acordei muitas manhãs com Dylan Dog e Druuna, almocei com Tom Strong e tive alguns jantares com Júlia Kendall. Em Edena, assisti aulas de Poirot e Holmes sobre técnicas de investigação. Conheci Constantine e Diana no mesmo período, e nos esbaldamos em Asgard. Trabalhei com o Dr. Manhattan e vi, no futuro, os horrores de Cthulhu. Hoje, costumo andar disfarçado de Mestre Jedi e traduzo línguas alienígenas para Torchwood e também para a Liga Extraordinária. Paralelamente, atuo como Sandman e, em anos bissextos, trabalho para a Agência Alfa. Nas horas vagas, espero a Enterprise abordar minha TARDIS, então poderei revelar a verdade a todos e fazer com que os humanos passem para o Arquivo da Felicidade, numa biblioteca de Westworld.