Crítica | Cargo (2017)

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Em 2013, os diretores Ben Howling e Yolanda Ramke dirigiram um curta-metragem chamado Cargo, contando a história de um homem (interpretado por Andy Rodoreda), com um plano bastante incomum para proteger sua filha, ainda bebê, em meio a um apocalipse zumbi. Esta presente versão em longa-metragem, que estreou apenas em Festivais em 2017, elenca Martin Freeman (muito bem em cena) no papel do pai, com a mesma missão intensa de proteger a filha em um mundo infestado de mortos-vivos.

A produção australiana, distribuída internacionalmente pela Netflix, faz uma mistura curiosa de elementos conhecidos dos filmes do gênero, algo que, a esta altura, sabemos ser impossível escapar. Até mesmo o toque emotivo evoca uma relação parental que nos lembra outro filme de zumbi, de uma safra anterior, o coreano Invasão Zumbi (2016). Sem contar que o exato caminho de salvação e aprendizado em meio ao caos remete-nos ao também australiano A Estrada (2009). Dessa forma, não estamos falando de um “filme original” ou de um “novo fôlego“, como os mais impressionáveis podem assumir. Mas Cargo é um filme que arrisca em algumas coisas. E por isso já vale a sessão.

O roteiro não explica quando e nem o por quê a praga aconteceu. Não temos jornais, trechos de reportagens na TV ou mesmo memórias de quando os primeiros casos vieram à tona. Este é um risco realmente grande para uma obra que trabalha uma realidade como esta, porque o espectador anseia por informações — não necessariamente pela mania didática, mas para ajudar na compreensão geral desse mundo. Todavia, existem diferentes formas de dar respostas a isto, algo capaz de fazer o espectador focar em outro aspecto do texto e ver que os “porquês” não são importantes nessa história. Em um primeiro momento, isso funciona muito bem. A preocupação e a luta pela sobrevivência, nesse tipo de situação, tem um significado ainda maior, fazendo com que a gente olhe para o enredo com outros olhos.

E como se não bastassem os mortos-vivos, há também um elemento-surpresa no meio do filme, algo que coloca o protagonista em um momento de “agora ou nunca” e cria um bom suspense, que infelizmente é resolvido de forma fatalista. Mas o que realmente incomoda aqui é a ideia de passagem do tempo que o roteiro e a montagem nos transmitem. É possível compreender que os roteiristas não quiseram fazer algo parecido com “contagem regressiva”, mas o atalho que resolveria este problema também não funciona. Isso piora pouco a pouco, porque “desvios” acontecem no caminho e quebram o fio já desgastado da temporalidade. Em muitos momentos, a obra parece um acúmulo de cenas encaixadas displicentemente, com maquiagens visuais feitas com grandes planos pela paisagem australiana, dando a impressão de uma ponte visual que, na verdade, é um último recurso — preguiçoso, ruim e médio prazo e desesperado — para algo que tanto roteiro, quanto imagem deveriam fazer diferente.

A parte boa do filme está mesmo nos laços formados. Em um ambiente onde só existe morte e doença, pitadas de rituais aborígenes (eles são mal trabalhados durante o filme, mas no final, surgem como uma esperança tardia, para “quando tudo isso acabar”), amor paterno e fraterno são fortes guias, capazes até de emocionar. Cargo é um filme sobre decisões cruéis em um mundo onde elas são plenamente necessárias. E a despeito de todo o mal trabalho com o ritmo, a obra chama atenção pelo tipo de jornada que mostra. Com certeza irá agradar muita gente.

Carga (Cargo) — Austrália, 2017
Direção: Ben Howling, Yolanda Ramke
Roteiro: Yolanda Ramke
Elenco: Martin Freeman, Anthony Hayes, Susie Porter, Caren Pistorius, Kris McQuade, Natasha Wanganeen, Bruce R. Carter, Simone Landers, David Gulpilil, Joesiah Amos, Ella Barter, Ikee Blackman, Latrelle Coulthard
Duração: 105 min.

LUIZ SANTIAGO (OFCS) . . . . Após recusar o ingresso em Hogwarts e ser portador do Incal, fui abduzido pela Presença. Fugi com a ajuda de Hari Seldon e me escondi primeiro em Twin Peaks, depois em Astro City. Acordei muitas manhãs com Dylan Dog e Druuna, almocei com Tom Strong e tive alguns jantares com Júlia Kendall. Em Edena, assisti aulas de Poirot e Holmes sobre técnicas de investigação. Conheci Constantine e Diana no mesmo período, e nos esbaldamos em Asgard. Trabalhei com o Dr. Manhattan e vi, no futuro, os horrores de Cthulhu. Hoje, costumo andar disfarçado de Mestre Jedi e traduzo línguas alienígenas para Torchwood e também para a Liga Extraordinária. Paralelamente, atuo como Sandman e, em anos bissextos, trabalho para a Agência Alfa. Nas horas vagas, espero a Enterprise abordar minha TARDIS, então poderei revelar a verdade a todos e fazer com que os humanos passem para o Arquivo da Felicidade, numa biblioteca de Westworld.